Green Book - O Guia

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Filmes

Crítica

Green Book - O Guia

Com grandes atuações de Mahershala Ali e Viggo Mortensen, Peter Farrelly faz muito mais do que um filme baseado em uma história real

Natália Bridi
21.01.2019
15h54
Atualizada em
05.09.2019
23h34
Atualizada em 05.09.2019 às 23h34

Adicionar “Baseado em uma história real” logo após o título, seja de um livro, série de TV ou filme, é o caminho mais fácil para a suspensão de descrença do público, como bem provaram os Irmãos Coen em Fargo. O filme de 1996 começa com um aviso de veracidade, o que automaticamente faz com que o espectador desavisado acredite em tudo o que se passa a seguir, por mais absurdas que sejam as reviravoltas. A verdade, porém, não passava de falácia, intencionalmente disposta para mexer com a percepção do espectador - quem foi para Minnesota em busca dos espólios daqueles eventos saiu de mãos vazias (e com frio).

Green Book - O Guia é um caso que se vale do selo de “história real” para se aproximar do público com uma narrativa sobre aceitação (de si mesmo e do outro). O longa acompanha a viagem do pianista Don Shirley (Mahershala Ali) e seu motorista Tony Vallelonga (Viggo Mortensen) pelo sul dos EUA durante os anos de segregação - o título é uma referência ao guia de viagem que indicava para os afro-americanos os hotéis e restaurantes em que seriam aceitos. Shirley é um músico sofisticado, Vallelonga é um italiano brucutu. No caminho, os dois vencem seus preconceitos, evoluem e criam uma amizade improvável. Acreditar na veracidade desses eventos adiciona uma boa dose de esperança e alívio em quem assiste - é possível acreditar que o ser humano pode se transformar positivamente.

Essa, contudo, tem sido uma das principais críticas ao longa. O roteiro, escrito por Peter Farrelly, Nick Vallelonga (filho de Tony) e Brian Currie, é acusado de imprecisões históricas pelo seu retrato não tão explícito da situação do sul dos EUA na década de 1960 e da própria amizade entre Shirley e Vallelonga (que membros da família do músico dizem nunca ter existido). Mesmo que as acusações sejam justas, reduzir o filme a essa fiscalização factual é fechar os olhos para a capacidade de Farrelly, que também assina a direção, em criar uma fábula inspirada por elementos reais. Green Book é, no fim das contas, muito mais do que um filme baseado em fatos.

Não há intenção, seja pelo tom dos diálogos, pela fotografia cheia de cor de Sean Porter, ou pela trilha sonora nostálgica de Kris Bowers, em criar uma estética documental. Farrelly deixa sempre aberto o apelo mágico da história, que ganha consistência pelas atuações carismáticas de Ali e Mortensen. O jeito bruto do motorista se mistura a austeridade de Don Shirley em situações cômicas e dramáticas das quais o filme extrai, enfim, a sua verdade. Não da exatidão dos acontecimentos, mas pela forma como dois homens completamente diferentes aprendem a conviver em um país que até hoje não captou essa lição.

Com 20 quilos a mais, Mortensen concebe Vallelonga em torno do arquétipo do brutamontes para gradualmente torná-lo tão complicado quanto Shirley. Há doçura na sua ignorância, o que aos poucos vai encantando o pianista (e o espectador). Já Mahershala Ali percorre um caminho quase inverso, desconstruindo Don Shirley ao longo de 2h10min. Ele começa arrogante por não se encaixar nas expectativas da sociedade para um homem com o seu talento e a sua cor. Seu pedestal é a sua defesa, de onde ele desce quando aceita a si mesmo. A química entre os dois atores é essencial nessa dinâmica, da qual Farrelly extrai um humor simples e certeiro. O ser humano é complexo, mas seus desejos são simples - amor, reconhecimento, aceitação -, e é aí que os dois encontram o caminho em comum para uma evolução que precisa ser individual para se tornar coletiva. Uma sociedade é consequência dos seus indivíduos, diz o filme nas entrelinhas.

Assim como Fargo, o “baseado em uma história real” que acompanha Green Book pode ser uma forma de manipulação sentimental, o que não é nenhum absurdo em uma arte que se vale na sua essência da capacidade de brincar com a percepção do público - desde que os irmãos Lumière fizeram a plateia temer por suas vidas com a exibição de A Chegada do Trem na Estação. No cinema, a verdade está na intenção e a de Green Book é tornar crível, por uma jornada aprazível em um período sombrio, que mesmo o pior dos traços - o preconceito - pode ser superado e dar espaço para um final feliz.

Nota do Crítico
Excelente!