De Repente uma Família

Créditos da imagem: Paramount Pictures/Reprodução

Filmes

Crítica

De Repente uma Família

Diretor de Pai em Dose Dupla refaz parceria com Mark Wahlberg em comédia mais próxima da autobiografia

Marcelo Hessel
28.11.2018
16h59

De Repente Uma Família é um bom exemplo de como uma história pode se enriquecer com especificidades. O caminho que o diretor e roteirista Sean Anders faz neste seu novo filme não difere muito da tendência da autoficção na literatura: falar de si mesmo, ainda que na terceira pessoa ou dramatizando a própria vida, traz consigo uma autenticidade quando o relato é feito frontalmente, com crueza e sem pudor.

A experiência de Anders como pai "substituto" já aparecia de forma transversal no bom Pai em Dose Dupla. Ao refazer sua parceria com o ator Mark Wahlberg em De Repente Uma Família, a autoficção de Anders se torna o tema e o chamariz da comédia; um vídeo antes do início da sessão, em que Anders e sua esposa Beth falam sobre sua vida como pais adotivos de três crianças, já dá à comédia um caráter semidocumental, a priori, que faz o espectador atentar de forma diferente para o que assistirá.

Na trama, Wahlberg faz um alter-ego de Anders, e Rose Byrne (em grande fase desde que incorporou em filmes a balzaquiana em crise sem perder o seu humor britânico autoconsciente) vive a esposa. Eles decidem adotar três adolescentes e, para isso, passam por um intensivão com outros pais, antes de encarar a adoção em si. Todo esse preâmbulo contribui para que De Repente Uma Família adquira um teor pedagógico que, aliado a um excelente trabalho de casting (coadjuvantes como a família de Brenda ou o juiz parecem estar interpretando a si mesmos, por serem pouco conhecidos ou trazerem consigo traços étnicos de fisionomia bem marcados; a atuação desafetada de Tig Notaro é outro destaque), torna o texto de Anders ainda mais "verdadeiro" sem sobrecarregá-lo das obrigações da exposição.

Escolhas de roteiro e montagem que sintetizam a ação - como as fusões na hora de um flashback ou nos saltos temporais - também deixam tudo mais dinâmico, e a impressão que fica (certamente marcada pela forma como o filme se apresenta desde o início) é a de que Anders já carregava e visualizava De Repente Uma Família dentro de si há um bom tempo: não apenas no texto preciso mas também nessas escolhas invulgadores de linguagem visual. É um pacote muito irresistível: a organização didática-pedagógica soa pertinente, o texto autobiográfico ganha autenticidade, a escalação de elenco latino traz autenticidade, e os atores entregam seu trabalho com confiança (Wahlberg sempre acaba vivendo a própria persona nos filmes e aqui, quando ele "quebra" e chora numa cena emotiva, é interessante ver esse "Wahlberg verdadeiro" adquirir outra dimensão).

De Repente Uma Família não é um arranjo de trucagens, porém. As escolhas narrativas de Anders já seriam, isoladamente, pontos de interesse - especificamente a forma como o filme não se desvia nem dilui o perverso (a loira que quer adotar um adolescente negro, o zelador pedófilo) e sabe rir das falhas de caráter de seus personagens sem rebaixá-los. A cena em que o casal discute devolver os filhos é um bom exemplo; numa comédia dramática convencional, isso serviria de ponto de virada no terceiro ato (com os filhos escutando a fala dos pais, antes da reconciliação final), mas Anders evita essa chantagem emocional. No geral o material todo poderia render um filme meio moralista mas o que se vê no fim em De Repente Uma Família está mais próximo de um conto moral capraesco como A Felicidade não se Compra - com uma família nuclear nova mas nem tão tradicional assim.

Nota do Crítico
Ótimo