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Crítica

Pai em Dose Dupla | Crítica

Will Ferrell e Mark Wahlberg se reúnem em comédia-família puxada na ironia

Marcelo Hessel
27.01.2016
12h07

Justo quando o padrasto coxinha cheio de boa vontade consegue a confiança dos filhos da sua mulher perfeita, o atlético e irresponsável ex-marido dela volta para tentar reconquistá-los. É a sinopse típica de um filme-família para o almoço de domingo, estrelado de preferência por Tim Allen e Sinbad (por onde anda Sinbad?), mas em Pai em Dose Dupla (Daddy's Home) a fórmula sofre duas atualizações.

A primeira, que vem a reboque da escalação de Will Ferrell e Mark Wahlberg para os papéis principais, é que a comédia se reveste de ironia. Quanto mais sérios os dois atores tentam parecer em cena (e a dinâmica entre os dois só melhora desde que começaram essa parceria em Os Outros Caras), mais Pai em Dose Dupla parece um esquete de humorístico parodiando a correção política da vidinha de subúrbio americano. Até para fazer o merchandising do automóvel eles não perdem a piada (já os merchands da InBev são mais sinuosos e incluem de brinde umas referências ao Brasil).

A segunda atualização - que parece inevitável nestes tempos em que o retrato da família tradicional já foi substituído por Modern Family na sala de estar das pessoas - são as soluções que o filme encontra para o conflito dos dois pais. Não convém adiantar aqui o que acontece no filme, mas em resumo Pai em Dose Dupla é uma comédia esperta disfarçada de filme-familia tradicional, inofensivo e edificante.

Dadas essas condições, o grande desafio de Pai em Dose Dupla é encontrar o tom certo da ironia e das viradas. O diretor e corroteirista Sean Anders às vezes força a mão na primeira, quando se rende a tiradas de metalinguagem que não acrescentam muito ao filme (como a constrangedora cena da não-corridinha de redenção do pai pela rádio), e no geral sua direção passa em branco (tudo é filmado no básico plano e contraplano e em alguns momentos os atores sequer parecem estar juntos na hora da filmagem, substituídos digitalmente diante do chroma-key).

Já entre as viradas há pelo menos duas notáveis: na cena em que o doutor brasileiro vivido por Bobby Cannavale (sempre roubando cenas) nos surpreende, quando já achávamos que ele era mais uma armação manjada de Wahlberg; e na cena da lição com o filho na garagem, quando a câmera começa a recuar, indicando um fim de plano apaziguador, com aquele zoom out tipo Mad Men, e de repente para de modo brusco para dar ao discurso dos pais um arremate mais moderno.

Nesses dois momentos, as viradas não servem apenas para nos manter atentos e o roteiro respirando, mas também para inverter nossas expectativas. À parte o que Pai em Dose Dupla tem de mais manjado (no fundo, quem já viu qualquer outra comédia de Wahlberg e Ferrell já sabe mais ou menos o que esperar), sua forma de injetar alguma contemporaneidade nesse subgênero tão velho do teste-da-união-familiar é bem esperta e não tem nada de demagógica.

Nota do Crítico
Bom