Gal Gadot em Agente Stone

Créditos da imagem: Agente Stone/Netflix/Reprodução

Filmes

Crítica

Agente Stone tenta ser filme de ação espertinho mas não sai do protocolar

Sem desenvolver seu universo particular, nem reconhecer sua miopia moral, sobra um vazio na história

Omelete
4 min de leitura
10.08.2023, às 22H00
ATUALIZADA EM 11.08.2023, ÀS 18H18
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Não é preciso muita atenção para notar que, entre um soco e outro, são grandes as chances de encontrar Gal Gadot com um sorriso de canto de boca em Agente Stone. Às vezes, até durante as sequências mais tensas de ação, quer esteja diante do perigo de uma explosão ou uma perseguição intensa, é nítida sua satisfação com o comentário engraçadinho da vez. A esperteza — ou a presunção dela — é realmente uma das características mais marcantes desta história, e isso está posto já no título original: Heart of Stone se refere tanto ao coração da protagonista Rachel Stone, uma espiã que se envolve emocionalmente na missão, quanto à mitologia particular deste universo. Quer dizer, quando a premissa de um filme parte de um trocadilho, esse tipo de “piscadela” não só é esperado, como também pode ser seu grande trunfo.

Nesse cenário, o deslize imperdoável seria não oferecer uma trama à altura da sua dita sagacidade; ignorar sua faceta brincalhona e original, e ser protocolar. Logo, é decepcionante acompanhar como, por conveniência ou falta de inspiração, Agente Stone cai justamente nessa armadilha. Por mais que tenha em mãos elementos interessantes para criar uma rede de espionagem com regras e valores próprios, o filme prefere esvaziar até do seu potencial cômico em nome da seriedade de uma situação-problema genérica.

Em Agente Stone, uma inteligência artificial é capaz de acessar todos os aparelhos eletrônicos e as informações de seus usuários sem deixar rastro, e ainda prever a probabilidade de sucesso de qualquer atividade. Até outro dia, esse cenário facilmente seria premissa de um sci-fi. Hoje, no entanto, soa cada vez mais realista, abrindo brechas para discussões éticas palpáveis, medos e aflições de uma sociedade hipervigilante que ainda flerta com o determinismo. Ou seja, mesmo que a base do seu conflito seja pouco específica, Agente Stone não precisava se acomodar nela. Existia uma vastidão de possibilidades para torná-la instigante e fazê-la verdadeiramente se conectar com seu espectador — até porque não faltam exemplos disso na cultura pop. Porém, entre seguir o caminho divisivo, mas substancial de Westworld e o vazio burocrático de Agentes 355, o filme inexplicavelmente opta pelo segundo.

Toda a disputa pelo controle da IA, chamada de Coração, passa pelas turbulências pessoais dos seus protagonistas e, ainda assim, não encontra muito eco do lado de cá da tela. Agente Stone nunca desenvolve as traições, os erros e as decisões irresponsáveis para além do imediato, de modo que elas não se tornam mais do que circunstanciais. Da mesma forma, não há grandes temas que permeiam essa história. Embora exista uma sugestão de abuso de poder, por exemplo, ela não cria raízes. Na verdade, Agente Stone até a ignora na sua reta final e se conforma com sua miopia moral, baseada no “é melhor que esteja na minha mão do que na dos vilões”. No final do dia, o filme até quer convencer o espectador que, entre a razão e a emoção, a saída é escolher o coração, mas ele mesmo prefere a tecnologia à sua humanidade.

Nesse sentido, é visível como a Netflix investiu em efeitos práticos e digitais para tornar até suas sequências mais mirabolantes críveis. Quer Gadot saia na mão com capangas ou salte de um dirigível prestes a explodir, você até acredita. Os efeitos não são perfeitos, mas o diretor Tom Harper é eficiente para filmar a ação e dá o devido peso para os golpes, tiros e perseguições. Por isso, apesar dos pesares, seu filme ainda é superior ao de Simon Kinberg, simplesmente porque ele entende que estes momentos são pilares para Agente Stone e, sem eles, não haveria razão de existir. O problema é que, como em Agentes 355, sobra um vazio na história — vazio este que, sem ser preenchido com o bendito coração da sua protagonista, poderia ser amenizado explorando as particularidades da organização secreta que ela representa.

Como no baralho, a estrutura dessa organização é dada pelos quatro naipes, cada um tendo seu Rei (o líder da operação). Seguindo essa mesma lógica, os codinomes dos agentes correspondem às cartas: Rachel Stone é a Nove de Copas e seu parceiro é o Valete (Matthias Schweighöfer). A atuação geopolítica da organização é especulada há anos e, de acordo com diálogos expositivos, ela se tornou mitológica entre as agências de inteligência, já que mina atividades criminosas pelo mundo sem ter uma ligação governamental. É evidente que se investiu um mínimo de energia e engenho para conceber essa premissa, mas no filme ela é pouco mais que uma curiosidade ilustrada; faltou desdobrá-la um pouco mais, desenvolvendo a relação entre seus personagens e sua hierarquia. Em vez disso, sua originalidade é posta em segundo plano para fazer a trama avançar. E é assim que a agente Seis de Copas é introduzida para servir apenas como uma chofer de luxo, deixando a protagonista para salvar a todos por conta própria.

A partir do momento que as conveniências se tornam tão aparentes a ponto de ferir a suspensão de descrença, não há mais volta. Questiona-se a mitologia, as reviravoltas, a caracterização da sua heroína e, enfim, duvida-se dos motivos para que Agente Stone se julgue tão espertinho. No fundo, por mais que não faltassem alternativas para salvá-lo, não há resquício de personalidade capaz de impedir que o filme estacione no lugar-comum, nem elenco carismático que evite que o castelo de cartas desmorone.

Nota do Crítico
Regular
Agente Stone
Heart of Stone
Agente Stone
Heart of Stone

Ano: 2023

País: Estados Unidos

Duração: 122 min

Direção: Tom Harper

Roteiro: Allison Schroeder, Greg Rucka

Elenco: Sophie Okonedo, Matthias Schweighöfer, Alia Bhatt, Jamie Dornan, Gal Gadot

Onde assistir:
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