Tessa Thompson em Westworld

Créditos da imagem: Westworld/HBO/Reprodução

Séries e TV

Crítica

Quarta temporada de Westworld faz da repetição uma falsa esperança

Série mostra mais ousadia que esgotamento quando frisa o caráter cíclico da humanidade

Omelete
5 min de leitura
23.08.2022, às 17H01.
Atualizada em 23.08.2022, ÀS 17H20

Por mais agridoce — ou apenas trágica — que seja a jornada de anfitriões e humanos, a esperança sempre foi uma força motriz por trás de Westworld. Ela poderia estar atrelada a ambições e desejos de vingança, mas no cerne do embate entre espécies existia uma expectativa de que a situação poderia ser melhor, ao menos para uma delas. Isso porque, independente do cenário da vez, seja nos limites do parque, seja extrapolando para o mundo real, as questões não mudavam. A luta de Dolores (Evan Rachel Wood), Bernard (Jeffrey Wright), Maeve (Thandiwe Newton) e até de William (Ed Harris) invariavelmente tocavam em temas como o livre arbítrio, o pertencimento e o desconforto com a natureza da sua realidade, ou seja, a inquietação da experiência humana. Logo, enquanto houvesse incômodo, havia razão para se arriscar e tentar de novo. E de novo.

Ao longo das temporadas, o caráter cíclico de Westworld foi por vezes visto como sinal de esvaziamento das suas próprias discussões — e com alguma razão. A construção intrincada do quebra-cabeças por vezes complicou o que era bastante imediato, sem propor reflexões ou, mesmo, nuances inéditas. É curioso, portanto, que a quarta temporada, tão sustentada na repetição explícita de dinâmicas e artifícios, devolva a efervescência à ficção científica.

Os criadores Lisa Joy e Jonathan Nolan não abandonam a construção labiríntica da sua trama. Pelo contrário: os primeiros episódios, dedicados a continuar a disputa entre Charlotte (Tessa Thompson) e seu William artificial contra Maeve e Caleb (Aaron Paul), se provam, em última instância, uma jornada sem saída. Mas, em vez de frustração, o encadeamento de eventos, lento e cauteloso, dá peso para a reviravolta da vez, tão empolgante e bem fundamentada quanto nos tempos áureos de Westworld — questionar a natureza da sua realidade nunca foi um recado tão pertinente para os espectadores quanto naquele episódio. Como resultado, a série põe em cheque a tal esperança que impulsionou os personagens até aqui. Ainda havia motivos para seguir em frente, mas as chances de reverter um cenário tão deprimente eram mínimas e todos, inclusive o público, passaram a sentir de verdade a iminência do fim.

É aqui que os ecos das tramas passadas surgem como uma faísca. Em um primeiro momento, eles frisam o declínio da vida inteligente ao revelar que tudo leva para o mesmo lugar em que a história começou, só que com uma inversão no jogo de poder. Isso está expresso com clareza na postura de Charlotte como um deus entediado, divertindo-se com o sofrimento dos seus súditos — lembra alguém que você conhece? —, mas também nos mínimos detalhes. A mosca, até então símbolo do despertar de Dolores, agora é usada como dispositivo de controle para subjugar os humanos. A paisagem árida, tão associada ao parque do qual os anfitriões queriam se libertar, passa a ser o abrigo daqueles que escaparam da nova ordem dominante. Quer dizer, são ecos que remetem sim aos velhos conflitos, mas são também novos na medida que são acenos irônicos e até poéticos, que salientam a relevância da memória de todos, inclusive do seu espectador. São tanto recompensas pelos anos diante da TV, quanto são sinais de como o passado, já tão distante, ainda não foi superado.

No entanto, quando a temporada termina, a repetição aparece como uma ferramenta de esperança. Talvez possa até ser o caso de chamá-la de falsa esperança, considerando que, apesar de todos os esforços, nunca houve de fato uma ruptura ao longo de todos esses anos. Ou seja, por que seria diferente dessa vez? Acontece que, mesmo alimentando uma ilusão, os ecos são apresentados não mais como um fardo, mas como uma segunda chance. A catástrofe veio como prometido, e ainda assim algo sobreviveu. A memória de Dolores, sua visão de mundo (com as devidas reformulações) e sua pulsão de continuar existindo. Quer coisa mais humana que isso?

É claro que, se tratando de Westworld, sobraria um gosto agridoce. Infelizmente, nesse caso, não é só pelos muitos sacrifícios que levam a esta conclusão potente — que, diga-se de passagem, poderia encerrar o seriado sem muitos problemas. Embora tenha preservado um grau de ousadia, colocando pontos finais importantes e não entregando sua tese de mão beijada, a série não é capaz de responder algumas das perguntas que se propôs, nem se manter coerente do início ao fim. E o maior indício disso é Charlotte. Os objetivos da anfitriã, antes tão claros, passam na quarta temporada a variar conforme as necessidades do roteiro — algo que só salta aos olhos com a atuação levemente exagerada de Tessa Thompson. Basta observar, por exemplo, sua obsessão com o tal diferencial de Caleb. Tão logo seu jogo é revelado, essa questão se torna irrelevante, e acaba sem resposta. É uma pena, porque Westworld fez uma personagem verdadeiramente complexa operar dentro de uma lógica maniqueísta rasa, à qual nem mesmo William foi sujeitado.

Embora recupere seu caráter pulsante, o quebra-cabeças de Westworld por vezes faz desvios de percurso sem propósito prático ou dramático. Na realidade, há situações em que a série trai suas próprias regras, apenas para devolvê-la ao seu estado anterior. Ainda assim, mesmo diante desses bolsões pontuais, mas vazios e mal disfarçados, é difícil não encarar a quarta temporada como um êxito. Novamente, a equipe de Nolan e Joy entrega um espetáculo visual rico e desafiador, que poderia ser analisado e discutido em detalhes por horas e horas a fio. É, portanto, Westworld voltando a ser Westworld — agora mais do que nunca.

Nota do Crítico
Bom
Westworld
Em andamento (2016- )
Westworld
Em andamento (2016- )

Criado por: Lisa Joy, Jonathan Nolan

Duração: 4 temporadas

Onde assistir:
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