Público do Anima Mundi 2019, no Rio

Créditos da imagem: Divulgação

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Como o público salvou o Anima Mundi da extinção

Evento perdeu patrocínios e só aconteceu após campanha de financiamento coletivo

Cláudio Gabriel
05.08.2019
17h47
Atualizada em
05.08.2019
18h08
Atualizada em 05.08.2019 às 18h08

 

Em maio a notícia chocou a todos. O Anima Mundi, um dos festivais mais importantes para animação no mundo, corria o risco de não acontecer por falta de patrocínios. De última hora foi lançada uma campanha de financiamento coletivo e as edições deste ano, realizadas em julho no Rio e em São Paulo, puderam receber seu público.

“É uma emoção muito forte. Para mim é até difícil falar. É um reconhecimento, um carinho pelo trabalho da gente. É muito forte. É uma maneira de falar assim: a gente está junto, vamos estar sempre juntos, reconhecemos o que vocês fizeram até hoje e vocês vão continuar, não importa como”, comenta Cesar Coelho, um dos criadores, em entrevista exclusiva ao Omelete.

Para chegar até lá, muitos percalços foram ultrapassados. A meta de arrecadar R$ 400 mil parecia bastante impossível, quase longe da realidade. Após diversas perdas de patrocinadores nos últimos 3 anos, os organizadores já temiam problemas em algum momento. Entretanto, eles ainda contavam com antigos parceiros estatais, como é o caso da Petrobras e do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento).

“Acaba um festival e já temos que pensar e estruturar o próximo. Mas, sempre quando acabava, eu brincava ‘ano que vem eu já não sei se vai ter’”, comenta Aída Queiroz, também co-criadora, em entrevista exclusiva. “Tinham umas certezas mínimas, que podíamos contar. A gente podia contar no mínimo com a Petrobras, mesmo sendo pouco valor. Quando, no final de abril, informaram para a gente que não haveria repasse, aí sim nos desesperamos, já que só teríamos dois meses para captar tudo.”

O apoio de outros patrocinadores não seria o suficiente. No Rio de Janeiro, segundo Aída, o festival não aconteceria de jeito algum.


A campanha de crowdfunding

Cesar e Aída, junto de Lea Zagury e Marcos Magalhães, tiveram a iniciativa de começar o Anima Mundi em 1993. Um período ainda delicado para o audiovisual nacional, sem a existência das leis de incentivo que viriam a ver essa indústria florescer anos depois.

O tempo foi passando, o evento ganhando tamanho e relevância internacional. A partir de 2012, o curta-metragem vencedor do festival tornava-se elegível para disputar uma vaga no Oscar. Nomes como os de Carlos Saldanha, de "A Era do Gelo", e Alê Abreu, de "O Menino e o Mundo", tiveram suas carreiras impulsionadas em participações no festival.

Em 26 anos, o Anima tornou-se também um patrimônio do público -- daí a ideia de pedir a ele a ajuda financeira para salvar o festival.

“Já tínhamos esse projeto do crowdfunding para o próximo semestre. Já tínhamos conversado e estruturado tudo para a Benfeitoria [site de financiamento coletivo], tudo bem conversado. Antecipamos do jeito que deu e botamos na rua”, revela Aída. “A gente não tinha agência trabalhando para isso, a gente não tinha dinheiro para impulsionar na internet, teria que ser tudo no engajamento orgânico.”

Logo no início a arrecadação até teve bons números e tudo parecia se encaminhar bem. O problema foi o meio e a “travada”, como Queiroz definiu, na arrecadação. Segundo ela, “bateu um desespero mesmo de não rolar, porque era tudo ou nada, né?”. Nas campanhas de financiamento, caso não consiga o valor arrecadado, tudo conquistado é perdido.

A grande virada aconteceu por causa dos animadores, influenciadores e
pessoas do meio, que começaram a fazer campanhas para arrecadar dinheiro, com festas, vendendo artes originais. Tudo possível para poder ajudar ao festival simplesmente acontecer.

“A comunidade de animação no Brasil é muito solidária. Acho que a gente chegou aonde chegou e tem crescido cada vez mais, uma das principais razões é isso”, diz Cesar. “Cara, você vê donos de estúdios grandes, eles são competidores, mas eles se ajudam. Isso acontece com a comunidade de animação inteira. E, para mim, essa conquista do financiamento coletivo foi uma enorme prova disso."

Com essas diversas pequenas ajudas por parte das mais diversas pessoas, a campanha teve 2.383 apoiadores por meio da Benfeitoria. Com o valor conquistado de pouco mais de R$ 439 mil, a ajuda média foi cerca de R$ 184 por pessoa. Isso inclui desde valores maiores por parte de pessoas do meio, até menores pelo ato simplesmente de ajudar.

“O que eu ouvia muito era ‘o Anima Mundi não vai acabar não’. Pessoas do Brasil e até de fora começaram a ajudar”, continua Aída. “Vendo isso, a Secretaria de Cultura do Rio entrou com um recurso para a gente alto, com R$ 400 mil. Não para a campanha especificamente, mas em patrocínio. E aí foi a coisa mais perfeita.”

 
Como fica o Anima Mundi em 2020

Com tantas dificuldades na realização deste ano, é impossível não pensar em como será o próximo. Os diretores ainda não começaram a desenhar a edição do ano que vem. Nem tudo gasto este ano ainda foi pago, por isso, a preferência é esperar.

“De certa forma, eu acho importante até termos essa edição menor. Serve também para uma certa reflexão nossa sobre tudo”, diz a co-criadora Lea também em entrevista ao Omelete. “Com tanto crescimento, é importante observar quais são as coisas primordiais para simplesmente 'acontecermos'.”

O público, antes um telespectador "comum", transformou-se em sócio. Para Cesar, isso é totalmente “irreversível” e bom, como uma mudança de comportamento para esse financiamento.

“Nós vamos ter que repensar tudo, mas esse saiu. Isso é o mais importante. O problema é que, como ninguém sabe o que vai acontecer, as vendas demoram e a organização também”, completa Aída.

“A gente vai começar do zero de novo. Não dá para esperar patrocínio mais e, provavelmente não será com crowdfunding. Se você não fizer nada, não tem o que fazer. Tem que se movimentar, tem que fazer as coisas, tem que fazer balbúrdia.”