A Última Casa | Filme da Netflix mostra que humanos nunca foram donos do próprio mundo
“É estranho chamar este planeta de Terra, quando é claramente um Oceano.”
Créditos da imagem: A Última Casa Netflix/Divulgação
Após assistir a A Última Casa, filme da Netflix estrelado por Wagner Moura e Greta Lee, o foco deste texto mudou. A ideia inicial seria fazer mais uma análise genérica sobre uma história de ficção científica baseada no confinamento, especialmente porque a premissa parte de uma família que fica presa dentro da própria casa.
É uma situação que o cinema já explorou diversas vezes e que continua em alta, embora em espaços e circunstâncias diferentes. Dos clássicos O Iluminado, O Quarto de Jack e Quarto do Pânico a produções mais recentes da própria Netflix, como o espanhol O Poço, o confinamento aparece como ponto de partida para histórias com propostas diversas. No filme, o espaço fechado funciona como uma alegoria para a desigualdade social gerada pelo capitalismo, o individualismo e a maneira como as pessoas se comportam diante de um sistema que limita seus recursos.
O interesse do público por esse tipo de narrativa também aparece nos números da plataforma: O Poço e o alemão Brick, de Philip Koch, lançado em 2025, estão entre os filmes mais assistidos do streaming. Enquanto o filme espanhol utiliza o confinamento para uma discussão sobre camadas e comportamento social, Brick aposta mais no suspense e no mero entretenimento ao colocar seus personagens diante de uma misteriosa barreira. São propostas diferentes, mas que partem da mesma ideia: o que acontece quando não podemos simplesmente sair?
E se o interesse por essas histórias já existia antes, a pandemia trouxe uma nova camada para a relação do público com esse tipo de narrativa. Vieram as histórias diretamente ligadas ao lockdown e à crise sanitária, enquanto o público, que havia passado pela experiência de ficar isolado em casa, teve interesse em acompanhar como a ficção lidaria com a situação. No longa dirigido por Louis Leterrier e estrelado pelo brasileiro indicado ao Oscar, porém, a discussão segue por outro caminho.
Em A Última Casa, encontramos mais do que um suspense psicológico ou uma ficção científica e sim uma discussão que vai muito além desses gêneros. O filme se propõe a construir uma mensagem por trás da história - ainda que não seja sofisticada e apresente falhas. Essas convenções de gênero ficam em segundo plano diante de uma história sobre conexão, pertencimento, convivência e nossa relação com aquilo que existe além do mundo humano. É diferente de clássicos como A Chegada, E.T. – O Extraterrestre e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, que trabalham com a descoberta de que existe algo além daquilo que conhecemos. A diferença é que, nesses filmes, o desconhecido está associado ao espaço e ao que vem de fora do planeta. A Última Casa faz o caminho contrário: é preciso olhar para aquilo que já estava aqui.
Para quem é esperto, percebeu essa referência na própria abertura:
“É estranho chamar este planeta de Terra, quando é claramente um Oceano”, diz a citação.
A frase de Arthur C. Clarke, escritor e inventor britânico conhecido pelo clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, aparece logo no início - e, não por acaso, a sequência seguinte nos leva para o fundo do oceano. A montagem cria uma associação imediata entre a citação e as imagens das profundezas, funcionando também como uma espécie de pista narrativa para o verdadeiro mistério que move a história.
Grande parte da superfície do planeta é coberta por água, enquanto o oceano continua sendo uma das regiões menos conhecidas da Terra, até mesmo quando comparado ao conhecimento que acumulamos sobre o espaço. O filme usa esse mistério para nos fazer refletir sobre nosso papel no mundo: somos realmente soberanos ou apenas mais uma espécie dentro de um ecossistema muito maior? Ou, como sugere o próprio filme, somos apenas meros inquilinos de um lugar que nunca foi exclusivamente nosso?
Quando a casa vira o mundo
O que acontece quando a casa vira o último e único espaço para a vida acontecer? O que fazer quando é preciso esquecer toda a vida externa e concentrar tudo dentro do espaço que ocupamos? Bom, se depender da família formada por Jason, Ann, Graham, Ruth e o cãozinho Cassidy, vai ser desesperador no início, mas o confinamento é apenas o ponto de partida.
No início, a família mal conhece os próprios vizinhos da rua. São pessoas que vivem próximas, mas que permanecem distantes umas das outras. Quando o confinamento começa, essa realidade muda e a necessidade faz com que eles precisem interagir e descubram mais sobre quem está ao redor. É uma escolha importante porque mostra que aquelas pessoas já viviam, de certa forma, isoladas antes mesmo de serem fisicamente impedidas de sair de casa.
Primeiro, vem a negação e o ceticismo, o desespero contínuo, as tentativas, depois o conformismo, a responsabilidade e, em seguida, a resiliência. E essa última palavra é o que move e sustenta essa família. A casa também muda de significado. No começo, é simplesmente o lar. Depois, passa a ser prisão, abrigo, escola, jardim e espaço de convivência. A família precisa criar uma rotina, plantar, aprender, brincar, encontrar formas de entretenimento e até improvisar o Natal. A sobrevivência, portanto, não é tratada apenas como uma questão física. É também emocional: continuar vivendo significa encontrar maneiras de preservar os vínculos e alguma sensação de normalidade.
Mas nem tudo serão flores, claramente. A casa tem suas imperfeições e problemas - e até isso mostra como as obras humanas não são imbatíveis diante da natureza. Então, quanto mais os personagens aprendem a viver dentro daquele espaço, mais fica evidente que não podem permanecer isolados para sempre. A casa é capaz de oferecer proteção, mas tem um limite. A angústia humana diante do confinamento fala mais alto. E é justamente quando esse limite começa a ser questionado que o filme amplia sua discussão.
A partir daí, no segundo ato, vem uma virada: finalmente conhecemos a ameaça que os mantém presos. A casa vira uma armadilha de sobrevivência, no sentido literal da palavra. É a única coisa que eles têm para se defender. Estranho, não?
É justamente aí que o último ato subverte a expectativa criada pelo próprio gênero. Ainda que a reviravolta seja repentina e questionável, o filme muda da água pro vinho e se mostra mais que uma história sobre uma família tentando escapar depois de anos confinada dentro de casa. Agora, aquilo que os mantém presos não é simplesmente um vilão a ser derrotado. Por mais que seja artificial, o conflito deixa de ser apenas sobre sobrevivência e passa a envolver a possibilidade de compreender aquilo que inicialmente parece ameaçador.
Pelo contrário, abre espaço para uma verdadeira fábula sobre empatia e compaixão, mostrando que esses valores podem transformar não apenas a relação com o mundo ao redor, mas também algo dentro de nós. E é quando essa perspectiva muda que a família percebe que, afinal, não está sozinha - o que abre espaço para um recomeço.
As palavras de Carlos Drummond de Andrade ajudam a explicar essa sensação:
“O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar”.
Há muita coisa além do que nosso olhar pode alcançar. Talvez seja justamente essa a maior descoberta de A Última Casa: a casa pode ser o nosso abrigo, mas nunca será o mundo inteiro. E talvez nós também nunca tenhamos sido donos dele, mas apenas espécies coexistindo com algo muito maior.
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