A Última Casa ecoa isolamento da pandemia com suspense elevado por talento de Wagner Moura
Brasileiro estrela filme de Louis Leterrier para a Netflix ao lado de Greta Lee
Grandes eventos e tragédias da humanidade costumam encontrar um caminho direto para a arte nos anos seguintes. Se o 11 de setembro e as suas consequentes guerras mudaram o cinema norte-americano nas primeiras décadas dos anos 2000, agora vemos os reflexos da pandemia de COVID-19. Seja sob a ótica dos negócios — nas discussões sobre bilheteria e streaming — ou na influência direta nas histórias e personagens, o isolamento, o medo do lado de fora e as milhões de mortes já ganharam representações e continuarão sendo mostrados no cinema de forma literal ou metafórica. A Última Casa, novo filme da Netflix, é mais um exemplo dessa tendência.
A história acompanha uma família que, de um dia para o outro, é obrigada a ficar dentro de casa. Algo trancou portas e janelas (tornando-as quase indestrutíveis) sem que saibam o motivo. Do lado de fora, todos os vizinhos se encontram na mesma situação, e os relatos indicam que quem estava na rua pode não ter sobrevivido. Wagner Moura e Greta Lee interpretam o casal que se vê preso a essa rotina com os dois filhos enquanto os dias passam, a comida escasseia e outros fatores começam a desestabilizar o cotidiano.
Moura domina o filme desde o primeiro momento. É impressionante a presença do brasileiro em tela, variando do carisma do engenheiro desempregado que constrói gadgets no isolamento ao tom mais dramático trazido pela falta de alimentos. Cada vez mais à vontade atuando em inglês, a diferença de alcance entre ele e o restante do elenco — incluindo Greta Lee, que ainda busca um grande papel de destaque após Vidas Passadas — é gritante. Jason vira o grande protagonista da narrativa, ainda que o tempo de tela precise ser compartilhado entre os membros da família Delgado.
As influências do diretor Louis Leterrier também são explícitas, com referências aos clássicos da Amblin e de Steven Spielberg, como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. - O Extraterrestre, além de produções como Twister, Impacto Profundo e os suspenses fantásticos de M. Night Shyamalan, como Sinais e Batem à Porta. Leterrier consegue imprimir com precisão a sensação de isolamento e, melhor ainda, o falso conforto que a passagem do tempo traz quando adaptamos a rotina a essa nova dinâmica. A montagem acelerada dos primeiros dias causa certa estranheza, mas gera uma sensação de ansiedade proposital, condizente com o "novo normal". Com o passar do tempo, o ritmo desacelera, abrindo espaço para os momentos mais íntimos.
Infelizmente, essas interações são interrompidas pela explicação excessiva sobre o motivo que levou Jason, Ann, os filhos e o restante do mundo ao confinamento. A ameaça perde força com a revelação, transformando A Última Casa em um mero jogo de gato e rato entre o interior e o exterior da residência. Como ocorre na maioria dos originais da Netflix, a produção evita deixar a discussão aberta e insiste em dar uma explicação cartesiana para uma situação que deveria extrapolar o bem e o mal.
Superior à média das produções lançadas semanalmente para o streaming, A Última Casa é uma adição interessante à filmografia de Louis Leterrier — cineasta habituado à ação pura, que é justamente onde o longa se perde. É impossível não lembrar de Fim dos Tempos, de Shyamalan, em certos momentos, especialmente naqueles que desperdiçam o potencial da premissa. Felizmente, ao contrário de Mark Wahlberg no filme de 2008, Wagner Moura está presente para elevar o nível da produção, fazendo com que o público se importe com aquela família e resgatando, em gestos sutis de conquista ou perda, a memória do que vivemos há pouco tempo.
A Última Casa
The Last House
Comunidade Omelete
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