Análise: Volta do Coringa Jared Leto no Snyder Cut reforça heroísmo como trauma

Créditos da imagem: WB/Divulgação

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Análise: Volta do Coringa Jared Leto no Snyder Cut reforça heroísmo como trauma

Possibilidades abertas pelo multiverso trazem novas questões

Marcelo Hessel
22.10.2020
10h55
Atualizada em
22.10.2020
13h16
Atualizada em 22.10.2020 às 13h16

É curioso que o conceito de multiverso nos filmes e séries de super-heróis tenha se transformado numa grande máquina de fan service, definitivamente aceito e popularizado nos crossovers do Arrowverse e depois com o sucesso de Aranhaverso e Vingadores Ultimato. Originalmente, desde a Era de Prata, na época da criação do Flash Barry Allen em 1956, quando a DC Comics usou o multiverso de pretexto para reformular seus super-heróis (o que a editora faria periodicamente com os reboots nas décadas seguintes), a ideia não era atender o fã, pelo contrário: o multiverso vem para dar liberdade criativa a roteiristas e desenhistas, livres de seguir as amarras da cronologia estabelecida que o leitor cativo nutriu por anos.

Hoje, é um pouco dos dois: assumir o multiverso nas telas serve ao fã nostálgico (que pode assistir à volta de Tobey Maguire, ou Andrew Garfield, ao papel do Homem-Aranha) e serve também à indústria, que não precisa mais passar por um processo de desgaste sempre que decide renovar suas franquias. Assim, quando sai a notícia de que Jared Leto retornará ao papel de Coringa no corte de Zack Snyder para Liga da Justiça, a novidade não nos causa estranheza: Leto pode coexistir com o Coringa Joaquin Phoenix no imaginário das pessoas porque afinal, em teoria, todos naturalizamos o conceito do multiverso, tanto o fã quanto o consumidor casual.

Se assumimos então que produtores, roteiristas e diretores têm a liberdade de escolher que versões antigas de super-heróis e vilões serão aproveitadas em seus filmes, a questão que se coloca agora é outra: o que fazer com essa tal liberdade? 

Ao promover o retorno de Leto, Zack Snyder primeiro faz uma defesa muito clara do Universo DC que ele vinha desenhando como principal arquiteto. É uma demonstração de força, em certo sentido, por mais que essa força agora seja diluída na liberdade criativa generalizada de que todos podem se aproveitar. Por trás dessa escolha, porém, há uma tomada de posição mais firme: Snyder está reforçando uma ideia, presente desde O Homem de Aço (quando Clark precisou ver seu pai morrer para pavimentar sua transformação em Superman), de que a jornada do super-heroísmo é inseparável do trauma.  

Ora, em que contexto o Coringa apareceria em Liga da Justiça? Parece meio óbvio especular que seria nos momentos ligados ao passado recente de Bruce Wayne, especificamente em reminiscências da morte do Robin, cujo uniforme pixado pelo Palhaço o Homem-Morcego decidiu expor na sua caverna. Dos momentos mais gráficos e traumáticos do Universo DC contados quando Zack Snyder ainda era só um fã de quadrinhos, o cineasta já adaptou livremente a morte do Superman e também o embate nuclear de Frank Miller entre Batman e Superman. Falta consumar “Uma Morte na Família”.

Que o leitor não se espante, então, se nos próximos dias surgir um ator para viver no Snyder Cut esse cordeiro de Robin, pronto para o abate. Seria o passo adiante natural num filme que, pelo que tudo se desenha, valorizará também o trauma e o sacrifício na jornada pessoal do Ciborgue, ostensivamente eliminada na versão de Liga da Justiça lançada para cinema. Há toda uma visão de mundo impressa aí nessa forma como Zack Snyder entende a responsabilidade e a dimensão do super-heroísmo, e o fato disso estar fora de moda (quem quer saber de trauma? A própria figura do Tio Ben foi eliminada do cinema no MCU; Tio Ben era o trauma encarnado) só alimenta ainda mais a mítica em torno do ex-finado Snyderverso.

O cineasta tem em suas mãos uma liberdade, e com ela dobrará a aposta no luto, que neste momento "póstumo", de lançamento dedicado ao streaming, não deixa de ser um luto pelo próprio filme que Snyder não conseguiu fazer. 

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