Cena de Wandavision

Créditos da imagem: Marvel Studios/Divulgação

Séries e TV

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O Emmy ainda resiste às histórias de fantasia?

Com Mandalorian, WandaVision e Lovecraft Country de mãos abanando, será que o Emmy ainda não tem coragem de prestigiar séries de gênero?

Julia Sabbaga
20.09.2021
12h28

A vitória de The Crown como melhor série dramática no Emmy 2021 não é exatamente uma surpresa. Sempre prestigiada na premiação da Academia - indicada na categoria desde sua primeira temporada - a série sobre a coroa britânica na Netflix chegou em 2021 com sua temporada mais discutida, muito pela presença das figuras tanto emblemáticas como polêmicas de Margaret Thatcher e Princesa Diana. Por isso, quando o Emmy 2021 chegou ao fim na noite de ontem (19), a surpresa ficou mais pelas séries que foram indicadas e saíram de mãos abanando do que o resultado em si. 

Assim como 44% dos atores lembrados pelos votantes do Emmy eram não-brancos - e no fim das contas os premiados foram todos caucasianos - as indicações ao Emmy também fizeram jus às produções de fantasia para depois decepcioná-las. O gênero que inclui títulos Lovecraft Country, The Mandalorian, WandaVision e até The Boys saiu zerado da noite principal. E apesar da série do Baby Yoda ter empatado com The Crown em número de indicações - 24 cada uma - o derivado de Star Wars acabou saindo da noite principal sem estatuetas, assim como WandaVision, que marcou como a minissérie mais indicada do ano para sair de mãos vazias.

Desde 2015, quando Game of Thrones levou 12 prêmios em uma só noite - e ainda mais em 2016, quando somou 38 estatuetas do Emmy principal e se tornou a série roteirizada mais premiada do Primetime Emmy - é difícil afirmar que a principal cerimônia da TV ainda resiste às histórias de fantasia. Até The Handmaid’s Tale, que também poderia encaixar-se no gênero, apesar de ter quebrado o recorde de derrotas este ano, já teve grandes noites, como em 2017, quando venceu oito estatuetas incluindo melhor série dramática. Mas pelo menos em 2021, as fantasias limitaram-se aos prêmios entregues antes da noite principal, majoritariamente técnicos: Mandalorian ficou com 7, WandaVision com 3 e Lovecraft Country 2, incluindo Melhor Ator Convidado em Série Dramática (Courtney B. Vance). 

Apesar de Game of Thrones parecer uma exceção na história do Emmy, ele pode representar, na realidade, uma era de transição na televisão, ainda mais porque a produção veio de uma das mais prestigiadas emissoras, a HBO, e com um orçamento histórico. Mas apesar dos recordes, a série não foi a primeira de fantasia a levar a estatueta principal. Em 2005, o mundo virou de cabeça para baixo com o sucesso de Lost, a primeira produção de fantasia/sci-fi a levar o prêmio de melhor série dramática na premiação. 

Ainda, a trajetória do gênero no Emmy vem crescendo desde muito tempo. Dizer que a fantasia é ignorada seria esnobar os prêmios de roteiro recebidos por Além da Imaginação (ou The Twilight Zone) nos anos 60 ou as indicações de Star Trek na categoria principal nesta mesma década. Nos anos 1990, Arquivo X chegou a receber 21 indicações na premiação principal, sendo quatro como melhor série dramática, levando estatuetas de melhor roteiro em série dramática e melhor atriz, para Gillian Anderson

Enquanto Game of Thrones pode ter sido o principal responsável pela abertura de portões para séries de gênero, as diversas indicações para títulos como WandaVision e Mandalorian fazem sentido também ao seguir o mesmo movimento do Oscar, que procura aproximar o público geral da Academia indo atrás de produções que, ano após ano, quebram recordes de audiência e bilheteria. Enquanto isso ainda não tenha se traduzido em uma vitória garantida, é certo que veremos cada vez mais destas produções nos próximos anos. 

Quando se enxerga a trajetória crescente da presença da fantasia na premiação até o ano passado, em que Watchmen saiu como a principal vencedora, é possível entender o Emmy 2021 de modo diferente. Este ano, a mesma Academia que deu todas as estatuetas de atuação para pessoas brancas também preferiu a quadradinha O Gambito da Rainha acima da angustiante I May Destroy You, a transformação física e vocal de Ewan McGregor em Halston acima da excêntrica atuação de Paul Bettany em WandaVision, e até o detetive de Evan Peters em Mare of Easttown em uma categoria com três atores de Hamilton. Em um ano repleto de incertezas e instabilidades na indústria, a resposta do Emmy parece ter sido se segurar no tradicionalismo. 

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