Cena de Duna/Capa de Duna

Créditos da imagem: Warner Bros./Aleph/Divulgação

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Duna | As diferenças entre o livro de Frank Herbert e o filme de 2021

Longa cobre dois terços do livro - e deixa o desfecho da profecia para uma possível continuação

Nico Garófalo
22.10.2021, às 11H00

[Spoilers de Duna - livro e filme - à frente]

O tão esperado Duna de Denis Villeneuve está finalmente nos cinemas e, embora faça um bom trabalho em adaptar o trabalho de Frank Herbert, o filme, como frequentemente acontece quando livros são traduzidos para as telonas, não recriou tudo da obra. Além de mudar alguns pequenos detalhes visuais, o cineasta também alterou o desenvolvimento de alguns personagens.

Abaixo, você confere algumas das principais diferenças entre a obra original e o blockbuster estrelado por Timothée Chalamet [e fica aqui o último aviso de spoilers]:

Protagonismo dividido

Embora Duna seja, no fim das contas, focada em Paul Atreides e sua ascensão como líder político e figura messiânica em Arrakis, o livro de Herbert dá, com frequência, destaque para aqueles que o cercam. Ao longo da obra, o garoto divide os holofotes com sua mãe, Lady Jessica, seu pai, o duque Leto, e sua futura amante, Chani.

No filme de 2021, o foco é muito mais localizado em Paul (Chalamet) e, até certo ponto, Jessica (Rebecca Ferguson). As ações de Leto (Oscar Isaac) como novo líder de Arrakis parecem muito mais pontuais, servindo mais como uma forma de mostrar as divergências morais entre os Atreides e os Harkonnen do que como um desenvolvimento do personagem.

Leto e Paul

A relação de Paul com seu pai é uma das principais influências na forma como o garoto lida com basicamente todos os questionamentos políticos e emocionais que ele tem ao longo de Duna. Há uma confiança inigualável entre o garoto e o duque Leto, que confidencia sua desconfiança de traição apenas ao filho, que se compromete a descobrir quem entregaria sua família para os Harkonnen.

O Duna de Villeneuve deixa esse relacionamento muito menos implícito que o livro. O carinho entre Paul e Leto está lá, mas os momentos em que os dois se tratam como iguais são esquecidos, com o futuro Muad'dib sendo tratado mais como um herdeiro do que como o líder potencial que ele rapidamente prova ser na obra original.

O treinamento de Paul

Na mais recente adaptação de Duna, Paul é treinado por sua mãe na doutrina das Bene Gesserit, aprendendo a usar a Voz e entendendo seus princípios. No livro, ele passa também por um treinamento específico com Thufir Hawat, mentat da Casa Atreides, para exercitar também seu lado racional e, quem sabe um dia, se tornar um líder melhor que Leto.

Esse treinamento como mentat é uma das principais armas usadas por Paul no comando dos fremen e em seu eventual confronto com a liderança do Imperium, mas foi deixado de lado na versão de Villeneuve, que preferiu dar mais espaço à influência das Bene Gesserit.

Os homens do duque

A diferença mais gritante entre o livro e o novo filme está no retrato dos três principais homens de confiança do duque Leto. A desconfiança de Hawat em relação a Jessica - e o atrito entre eles -, o talento musical de Gurney Halleck e o papel de Duncan Idaho na adaptação dos Atreides em Arrakis são pontos importantes na trama de Duna, não só da obra original, mas da franquia literária como um todo. Villeneuve, no entanto, optou por diminuir a participação dos personagens de Stephen Henderson, Josh Brolin e Jason Momoa.

Quase tudo sobre os Harkonnen

Já no começo do livro, Herbert deixa claro que os planos do barão Vladimir Harkonnen para eliminar o duque Atreides darão frutos. Desde o princípio, é revelado como o vilão tentará recuperar Arrakis, quem de dentro da Casa Atreides trairá Leto e por que. O próprio papel do Imperium de ceder seus Sardaukar que, disfarçados como soldados Harkonnen, ajudaram na invasão a Arrakis. O próprio objetivo de Harkonnen de deixar o sobrinho Raban no comando da exploração da especiaria, apesar de sua crueldade e incompetência administrativa, e o papel que seu outro sobrinho, Feyd-Rautha, teria no futuro de seu clã. O mentat Harkonnen, Piter De Vries, também é essencial na trama do barão, apesar de seu vício nos efeitos psicotrópicos da especiaria.

A nova releitura de Duna, no entanto, não deixa esses pontos claros. Apesar de dar a entender que o barão, vivido por Stellan Skarsgård, já sabia que seus planos dariam certo, Villeneuve preferiu guardar essa reviravolta para o final do primeiro filme. O diretor também preferiu explicitar o envolvimento dos Sardaukar na invasão a Arrakis, com os soldados usando seus uniformes tradicionais e explicitando para Paul, Jessica e os fremen o envolvimento do Imperium na tramóia do vilão. Já Piter (David Dastmalchian) não tem sua dependência explorada. Aliás, o maligno mentat nem ao menos tem seu nome citado.

Passagens preconceituosas

Uma mudança especialmente benéfica na versão de Villeneuve é a remoção quase completa da construção preconceituosa do barão. No livro, Herbert faz questão de pontuar o corpo gordo e a homossexualidade do vilão como características que potencializam sua maldade. Diversas vezes, o autor descreve Harkonnen como uma pessoa asquerosa e usa sua sexualidade e aparência física como agravantes desnecessários para suas ações.

Em seu Duna, Villeneuve opta por limitar qualquer menção à sexualidade do barão e tem o cuidado de criar para ele uma aura ameaçadora independente de sua aparência física, evitando assim a visão gordofóbica e homofóbica criada no livro.

Tudo sobre Liet Kynes

Em Duna, Kynes é o planetólogo imperial, juiz da transição da administração de Arrakis dos Harkonnen para os Atreides e responsável por apresentar o mundo desértico a Paul e Leto. Como ecologista, ele também sonha em transformar o planeta desértico em um local menos inóspito com o uso de plantas. Secretamente, ele é também Liet, misterioso líder fremen considerado um mito por estrangeiros, que, até onde se sabia, jamais tiveram qualquer contato com ele. É graças a Liet-Kynes, que os Atreides conseguem conquistar a admiração dos fremen.

A nova adaptação de Duna traz uma versão bem diferente de Kynes. Além da mudança de gênero, o filme também abre mão da aura misteriosa da planetóloga vivida por Sharon Duncan-Brewster. Embora mantenha em segredo seu envolvimento com os fremen, incluindo sua filha, Chani (Zendaya), ela não tem seu nome sussurrado pelas sombras de Arrakis e muito menos é vista como uma ameaça sombria pelos estrangeiros. Suas experiências e objetivos ecológicos também são deixados nas entrelinhas do filme.

Sua morte também foi construída de forma diferente no longa. No livro, Kynes é capturado pelos Harkonnen e jogado no deserto sem água ou trajestilador para morrer de desidratação. Esse momento ganha ares mais emocionantes no filme de 2021, com a planetóloga atraindo um verme da areia para engoli-la junto dos Sardaukar que a cercaram no deserto.

A especiaria

A especiaria melange também tem algumas diferenças em sua nova versão. Se no livro ela é apresentada como um pó azul de cheiro e gosto de canela, Villeneuve altera sua cor para que ela fique semelhante ao tempero real, usando a semelhança visual para passar a mesma sensação de olfato e paladar sem a necessidade de falas expositivas.

Tempo

A estadia dos Atreides em Arrakis é sem dúvida maior na obra original de Herbert do que no novo longa. Na versão literária de Duna, a família de Paul passa semanas no planeta desértico, tendo tempo de sediar banquetes, formar uma aliança com Stilgar, revogar diversas tradições abusivas propagadas pelos Harkonnen e, graças a Duncan Idaho, treinar os soldados do clã no estilo de batalha dos fremen. Villeneuve encurta esse período para o que parecem ser pouquíssimos dias, abrindo mão de alguns destes acontecimentos e concentrando o restante em cenas rápidas.

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