Doctor Who | Inimigo clássico e novas dúvidas surgem no especial de ano novo

Créditos da imagem: Doctor Who/BBC/Divulgação

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Doctor Who | Inimigo clássico e novas dúvidas surgem no especial de ano novo

Episódio esclarece abordagem do novo showrunner à mitologia do seriado

Arthur Eloi
03.01.2019
19h32

Jodie Whittaker teve um bom começo em Doctor Who, onde apresentou sua personagem, criou proximidade com seus companions e explorou partes da história humana e do restante do universo. Foi uma temporada que serviu para apresentar o programa para um público novo, portanto a extensa mitologia do seriado foi deixada de lado - mas isso não poderia ficar assim por muito tempo. "Resolution", especial de Ano Novo, mostra o primeiro encontro da 13ª Doutora com um inimigo clássico da franquia.

[Cuidado! Spoilers do episódio especial abaixo]

O 11º ano não tocou em nada do passado da protagonista, mas qualquer fã de longa data sabe que a série não poderia escapar disso por muito tempo. O grande atrativo das regenerações, além de repaginar o programa, é mostrar como a nova versão lidará com mais de 50 anos de história nas costas. De certa forma, a única maneira de trazer isso para as telas sem desnortear os novatos seria com os Daleks.

Os Daleks sempre foram o inimigo principal do Doutor ao longo de todo o programa. Ainda que o viajante tenha confrontado outros Time Lords e criaturas, os robôs-fascistas são representativos da maior ameaça que o protagonista pode combater. Para trazê-los de volta, "Resolution" brinca com a revelação de quem é o vilão do episódio ao colocá-lo literalmente como um fantasma do passado retornando para aterrorizar os dias de hoje: na trama, um único Dalek de reconhecimento chegou à Terra durante a Idade Média, tendo tamanho poder destrutivo para motivar uma guerra capaz de unir três povos conflitantes contra o inimigo em comum. Após finalmente derrotá-lo, eles concordam em separar suas partes e enterrá-las nos lugares mais remotos, sob vigia constante. Já na virada de 2019, um casal de arqueólogos ingleses encontra o corpo da criatura e, acidentalmente, a revive.

O reencontro da Doutora com seu inimigo mortal é bem menos dramático do que quando Christopher Eccleston deu de cara com um no excelente "Dalek", da primeira temporada. Isso traz um certo estranhamento para quem já acompanha o seriado - afinal, ver todo o dano que a raça causou na vida do personagem ser deixado de lado é, no mínimo, inconsistente. Ainda que isso não faça tanto sentido quando visto no contexto maior, é muito condizente com a forma que a protagonista foi estabelecida nos demais episódios: ela ironiza a situação, mas deixa bem claro sua experiência, tudo enquanto planeja uma forma de salvar o dia.

Mesmo com o confronto, o especial também aproveita para desenvolver Ryan Sinclair (Tosin Cole), o companion que teve menos destaque durante a temporada: Graham (Bradley Walsh) teve a oportunidade de enfrentar seu desejo de vingança em "The Battle of Ranskoor Av Kolos", e a família de Yaz (Mandip Gill) foi o foco de "Demons of the Punjab", mas nada parecido aconteceu com Ryan. Aqui, ele ganha voz ao manifestar todo o seu luto e traumas ao seu pai (Daniel Adegboyega), que reaparece em sua vida tentando compensar o abandono.

Utilizar lado-a-lado esses dois arcos narrativos no mesmo episódio passa bem a sensação do que o showrunner Chris Chibnall quer fazer com Doctor Who: reconhecer que o passado da série existe, ocasionalmente trazendo elementos de volta, mas sem colocá-los no pedestal, como Steven Moffat fez com o Master nas últimas temporadas de Peter Capaldi. Ao invés disso, ele quer focar no que está por vir: as aventuras, os inimigos e, claro, os dramas pessoais que os personagens enfrentarão. A comparação com a era de Moffat, até o momento, é inevitável justamente pelo novo showrunner estar favorecendo o extremo contrário de seu antecessor - mas, assim como tramas inteiramente baseadas em fan service não funcionaram, rejeitar tudo que a série construiu ao longo das décadas também pode não ser a melhor das decisões.

É preciso equilíbrio, bons roteiros e histórias interessantes, combinando o frescor da novidade com o prestígio e força narrativa do que já está estabelecido. Agora, só ficará claro se Chibnall alcançará esse balanço entre inovação e respeito ao passado quando o seriado retornar em 2020.

Doctor Who é transmitido no Brasil pelo serviço de streaming Crackle.