Doctor Who - 11ª Temporada

Créditos da imagem: Doctor Who/BBC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Doctor Who - 11ª Temporada

Jodie Whittaker combina a autoridade e compaixão dos Doutores clássicos com o carisma dos recentes para dar nova e otimista identidade ao seriado da BBC

Arthur Eloi
30.12.2018
15h01

Regenerações são facilmente os momentos mais empolgantes de Doctor Who. A troca de intérpretes do protagonista abre inúmeras possibilidades de novas histórias e novos personagens. A chegada de novidades nunca foi tão forte quanto na 11ª temporada, já que o seriado teve a entrada de Chris Chibnall (Broadchurch) no posto de showrunner e, claro, um novo rosto para comandar a TARDIS: Jodie Whittaker como a 13ª Doctor.

Não é de agora que a BBC tentava emplacar uma nova era para a série: ainda que Peter Capaldi seja o ator mais experiente a assumir o posto a partir de 2005, seu Doutor sofreu com roteiros inconsistentes e pouco impactantes - o que se tornou ainda mais agravante por se passar após a fase altamente popular de Matt Smith. O 10º ano tentou recomeçar, colocando a vasta mitologia do programa de plano de fundo e guiando o espectador pela perspectiva de Bill (Pearl Mackie), uma nova companion, mas o fim iminente da jornada do 12º Doctor impediu que isso servisse como ponto de partida para novas aventuras de Capaldi, já que tudo que foi conquistado não seria utilizado futuramente.

A produção utiliza fórmula parecida para Whittaker. A Doutora não carrega nenhum dos companheiros, inimigos ou pontas soltas de seu antecessor. O universo do programa é apresentado novamente, mas sem o tom explicativo que marcou a temporada de Christopher Eccleston, de 2005. Para o padrão atual de Doctor Who, essa nova era tem uma abordagem minimalista ao conceito do seriado: a protagonista junta colegas para viajar o espaço-tempo, sem o gancho de uma grande ameaça ao universo, questões misteriosas ou sequer um vilão principal - apenas o espírito aventuresco dos personagens e o desejo de fazer o bem. É uma temporada que funciona quase como um procedural, em que a Doutora e seus amigos semanalmente viajam pela história ou por civilizações alienígenas resolvendo problemas que aparecem em contos isolados.

Como ano introdutório, isso funciona muito bem. A Doutora é consistente ao longo de todos os episódios, sempre deixando claro ser contra a violência e tendo como objetivo a resolução pacífica. É uma caracterização mais puxada às versões originais do personagem - o Doutor só foi mesmo virar um "herói de ação" a partir da era de Eccleston -, mas combinando essa autoridade clássica com o bom-humor e sagacidade dos atores mais recentes.

Essa combinação dá certo pelo talento de Whittaker. A atriz passa aos espectadores a curiosidade e bom-humor da viajante espacial, mas também não deixa a desejar na carga dramática e emocional que momentos delicados pedem. A produção entendeu com quem está lidando, e faz bom uso de sua experiência teatral ao colocá-la em cenas mais longas, com poucos cortes. Whittaker acerta o raro equilíbrio entre talento puro e personalidade marcante e divertida.

Olhando Pelo Lado Positivo

Na última década a televisão passou a explorar personagens complexos em tramas sombrias e realistas, e Doctor Who puxou algumas dessas características. Por mais que Eccleston, Tennant, Smith e Capaldi fossem extremamente carismáticos, suas versões do Doutor eram homens atormentados pela guerra entre os Time Lords e os Daleks - e muitas das suas jornadas ressaltaram o conflito interno do herói que quer fazer o bem enquanto carrega o peso do passado. Mas o mundo mudou bastante desde 2005, e como resposta a televisão está entrando em uma nova tendência de explorar o otimismo em meio ao caos, visto o sucesso de séries como Brooklyn Nine-Nine e This is Us.

Nesse ponto, o entusiasmo da 13ª Doutora e suas aventuras são especialmente certeiros. Os capítulos exploram diversas situações de injustiça e intolerância, cujas mensagens são altamente necessárias para os dias de hoje: o ótimo capítulo "Demons of Punjab", por exemplo, mergulha no contexto histórico da partição da Índia para discutir família e coexistência entre diferentes religiões; já "Rosa", outro destaque da temporada, ressalta a importância de resistir à opressão e como essa luta influencia as gerações futuras. Isso, combinado com o carisma de Whittaker e a disposição de sua personagem em arriscar-se pelo próximo, tornam a série, mais do que nunca, algo reconfortante, educativo e apaixonante de se assistir.

A ideia de reintroduzir a personagem para um novo público pode ser um pouco cansativa para os espectadores veteranos - ainda mais não sendo a primeira vez que acontece - mas é algo que deu bastante resultado em termos de audiência. Renovar o público é fundamental para a continuidade de qualquer série, e Doctor Who, em especial, tem a habilidade de fazer isso sem deixar de ser intrigante para os fãs estabelecidos - afinal, ficar no ar por mais de meio século não é para todos.

A 13ª Doutora tem um começo muito bom nas mãos. Chibnall e sua equipe estabeleceram cuidadosamente seus personagens ao longo da temporada. Ainda que nenhuma de suas aventuras tenha sido grandiosa, foi o bastante para despertar a curiosidade de ver como a protagonista e seus companions lidarão com todo tipo de desgraça que o universo jogará em seus caminhos - com certeza, enfrentando-as com compaixão e um sorriso no rosto.

A 11ª temporada de Doctor Who está disponível no catálogo do serviço de streaming Crackle, que transmite o seriado no Brasil.

Nota do Crítico
Ótimo