Mandip Gil, Tosin Cole, Jodie Whittaker e Bradley Walsh em Doctor Who/BBC

Créditos da imagem: BBC/Divulgação

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12ª temporada de Doctor Who estreia com ótima ação e reviravoltas

Retorno de vilão clássico e homenagem à franquia James Bond marcam boa volta de Jodie Whittaker e companhia à série

Nicolaos Garófalo
04.01.2020
10h52

Apesar de boa, a décima-primeira temporada de Doctor Who, a primeira de Jodie Whittaker no papel principal, precisou lidar com alguns problemas ao longo de seus episódios, o último deles transmitido em janeiro de 2019. Mesmo com capítulos de 50 minutos, os roteiristas da série, liderados pelo showrunner Chris Chibnall, tiveram dificuldade em desenvolver Ryan (Tosin Cole), Yas (Mandip Gil) e Graham (Bradley Walsh), além de não conseguirem definir uma identidade única para a Doutora de Whittaker que, até o especial de ano novo transmitido em janeiro passado, mais parecia um amálgama das versões de David Tennant e Matt Smith do que uma nova encarnação.

A vontade de Chibnall de criar algo único, se recusando a usar vilões já conhecidos dos fãs, também foi vista como teimosia por muitos críticos e whovians – apelido dado a membros do fandom da série -, que não se sentiram envolvidos com as histórias transmitidas pela BBC. Felizmente, quase todos os erros apontados ao longo da temporada anterior foram corrigidos em “Spyfall – Part I”, primeiro episódio do décimo-segundo ano, que, além de servir como uma boa paródia e homenagem à franquia 007, dá fôlego o bastante para calar, por enquanto, os críticos mais vocais da última leva de episódios.

[Spoilers de “Doctor Who – Spyfall Part I” à frente]

Mantendo a bela fotografia cinematográfica da temporada passada, “Spyfall – Part I” começa mostrando diversos agentes secretos de diferentes nacionalidades sendo assassinados por alienígenas sem rosto ao redor do mundo. Como resposta, o MI6, serviço secreto britânico, convoca a Doutora e seus companheiros para investigar a nova ameaça. Logo nesses primeiros minutos, a nova temporada de Doctor Who já mostra um novo foco na ação, com o carro que leva o grupo sendo dominado pelos vilões e quase assassinando a Equipe TARDIS.

Além da “perseguição” alucinante, a cena também evita, pela primeira vez desde a saída de Russel T. Davies como showrunner em 2009, usar a Chave de Fenda Sônica como um deus ex machina, com o apetrecho sendo inútil para a Doutora durante o ataque, com a protagonista tendo que lidar com a ameaça usando seu rápido raciocínio e habilidade para salvar seus protegidos.

Nos momentos seguintes, Doctor Who introduz sua primeira leva de participações especiais da temporada: Stephen Fry (V de Vingança), como C, líder do MI6, pede para a Doutora e sua equipe investigarem Daniel Barton, dono de uma versão fictícia do Google interpretado por Lenny Henry (Broadchurch), suspeito de se aliar aos vilões interplanetários. Para ajudar em sua missão, a Doutora pede a ajuda de O, ex-agente demitido por C, vivido de maneira espetacular por Sacha Dhawan (Punho de Ferro), único ator não anunciado com antecedência pela produção da série.

Com diversas referências aos filmes clássicos de James Bond (incluindo os inúmeros apetrechos e armas disfarçados como peças de roupas), o restante do episódio transita de maneira extremamente fluída entre ação, comédia e terror, algo que não é visto na série desde “Blink”, episódio de 2007. Enquanto cenas como a festa-cassino de Barton mostram a personalidade mais desenvolvida da Doutora, que se mostra mais colorida, divertida e carismática – e, graças à atuação de Whittaker, única – que no ano anterior, o ataque dos vilões a Yas e Ryan expõe um pouco mais seus personagens, que deixam de ser receptáculos de explicações expositivas e passam a demonstrar maiores emoções, como medo, ansiedade e arrependimento.

Ainda com todas as suas qualidades, que vão das atuações à fotografia, passando por roteiro e efeitos especiais, o ápice de “Spyfall – Part I” acontece graças à grande reviravolta do episódio. Em seus momentos finais, O revela ser, na verdade, o Mestre, Senhor do Tempo rival da Doutora e vilão clássico da série, tendo enfrentado diversas encarnações do protagonista desde sua estreia, em 1971. A mudança na atuação de Dhawan, que de repente incorpora diversas versões do antagonista em seu personagem, estabelece uma ameaça que deve continuar não só no resto da temporada, mas também por todo o reinado de Whittaker como protagonista.

Com roteiro competente e atuações brilhantes, “Spyfall – Part I” faz com que a décima-segunda temporada moderna de Doctor Who já comece em um ponto alto, prometendo um ano cheio de ação e emoções fortes para a tripulação da TARDIS em 2020. Graças a uma correção de curso necessária, essa nova viagem pelo tempo e espaço deve seguir sem grandes turbulências.