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Créditos da imagem: Cam/Netflix/Divulgação

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Crítica

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Terror da Netflix explora o cotidiano da internet com o cinismo de um episódio de Black Mirror banhado em neon

Arthur Eloi
28.11.2018
14h39
Atualizada em
29.11.2018
15h19
Atualizada em 29.11.2018 às 15h19

É impossível fugir da tecnologia. Você pode deletar todas as suas contas em redes sociais ou jogar fora todos os seus dispositivos, mas a forma como cultura, política e sociedade estão ligadas pela internet e pelas redes sociais é simplesmente inegável. O consumo diário, constante e desenfreado das plataformas digitais criaram uma dependência quase obsessiva do meio virtual. Cam, terror queridinho de festivais que chega à Netflix, explora as consequências de quando alguém decide manipular e explorar esse vício.

A trama acompanha Alice (Madeline Brewer), uma camgirl que toca sua carreira com planejamento intensivo para alcançar os primeiros lugares do site em que se apresenta. Isso é conquistado através de limites bem estabelecidos - não misturar sua vida pessoal com a profissional, não iludir seus espectadores e nem se relacionar fisicamente com eles. Tudo isso vai por água abaixo quando ela perde o acesso a sua conta e vê sua plataforma tomada por uma réplica disposta a quebrar todas as suas regras pelos cliques - mesmo que isso a coloque em perigo.

O longa cria tensão constante e crescente a partir do medo mundano de ver a vida online, rodeada de incertezas e desconhecidos, desmoronando ao ponto de contaminar o cotidiano. Ainda que tenha o mesmo olhar cínico que Black Mirror, por exemplo, o que torna Cam tão eficiente é que o filme não trabalha em cima das possibilidades negativas do que a tecnologia pode um dia se tornar - mas sim a partir da ansiedade que ela já desperta atualmente. Com cada vez mais e mais histórias sobre violações de privacidade, manipulações de dados e ataques virtuais, isso parece mais aterrorizante no momento.

O conto de horror pelo qual Alice passa tem algumas particularidades pelo ambiente em que ela trabalha, como seu público pervertido e obcecado pela garota. A utilização desse cenário cria um contraste com a "normalidade", que ressalta o quão disfuncionais são as relações com o meio virtual. É uma sacada inteligente por parte de Isa Mazzei, ex-camgirl que assina o roteiro. Ela argumenta que quanto maior a dependência da internet na sua vida pessoal e profissional, pior será a queda: é um lugar onde sua exposição abrirá espaço para ataques maldosos, frequentemente sem motivo válido, capazes de destruir sua sanidade - e mesmo assim, no fim das contas, você voltará para mais. É impossível de escapar.

O que complementa a tensão é a excelente atuação de Brewer, atriz que já provou seu potencial com personagens inusitados ao viver Janine em The Handmaid's Tale. Aqui, ela assume a identidade de três versões muito diferentes da protagonista: a ambiciosa Alice, focada em alcançar objetivos e pouco mais reservada por não ter contado sobre o trabalho para seus familiares; a confiante Lola, alter-ego virtual da garota que hipnotiza o público com seu carisma; e a réplica, que ganha inúmeras visualizações pela falta de limites e sensualidade perversa. Brewer leva todas as personagens ao ápice, com complexidade e fisicalidade - algo que fica ainda mais visível no confronto final.

Além da atriz, o destaque fica para a impressionante fotografia. Esse é o primeiro longa-metragem do diretor Daniel Goldhaber, mas o visual não deixa a desejar em qualidade: o filme é inteiramente fechado, sufocante e intenso, espelhando a jornada emocional da protagonista e do espectador. A estética é particularmente marcante pelo excesso de cores, um verdadeiro banho de neon que dá uma aura surreal de pesadelo à trama. É como se Goldhaber recriasse a tradicional técnica do diretor Nicolas Winding Refn, conhecido por Drive (2011), mas adicionando seus próprios toques para entregar algo que soa como uma versão mundana de O Demônio de Neon (2016), voltada para os meros mortais que não frequentam o mundo da moda, mas sim a internet.

Cam mergulha em todos os aspectos que tornam o ambiente online tóxico e perigoso, mas reconhecendo que isso não deve mudar tão cedo - seja por negligência dos administradores das plataformas ou por nós mesmos. É essa impotência quanto aos problemas estruturais que dão peso e relevância ao conto. O cinismo quanto à natureza das interações digitais do longa serve como a melhor representação do ciclo de agressões que frequentemente acontecem nesses ambientes: começa com ato de violência psicológica, que viraliza e destrói algumas vidas no processo. Logo isso fica no passado, sem explicações ou consequências. É o ponto de partida para mais uma vítima em potencial.

Nota do Crítico
Ótimo