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Créditos da imagem: Dicas do Hessel/Reprodução

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Dicas do Hessel #014: Sete filmes mais complicados que Dark

Confira recomendações de confundir a cabeça

Marcelo Hessel
03.07.2020
18h51

A terceira temporada de Dark está aí, e muita gente continua confusa com a continuidade da série, especialmente depois do finalzinho do ano dois. Precisa mesmo de papel e caneta para assistir, ou é só dedicar atenção à TV sem distrações? O fato é que tem muita obra que faz da "confusão" uma ferramenta narrativa. Ficções científicas como Primer levam ao limite os desdobramentos de viagem no tempo. Dramas como Ano Passado em Marienbad implodem o que entendemos como trama não-linear. Ao mesmo tempo há toda uma tradição de cinema surrealista que propõe uma experiência muito mais sensorial do que narrativa.

Abaixo eu seleciono sete filmes, disponíveis nos streamings brasileiros, que propõem um jogo com o espectador que às vezes é bem mais complicado que o de Dark. Não entendeu algum deles? Escreva para o Dicas do Hessel!

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Império dos Sonhos

Foto de Império dos Sonhos
Divulgação

Como o cinema de David Lynch (e sua incursão na TV com Twin Peaks) frequentemente flerta com o surrealismo, sem deixar a narrativa tradicional, sua obra gera muito curto-circuito no público. Império dos Sonhos veio depois de Cidade dos Sonhos e Lynch dobrou a aposta no clima noturno de pesadelo. As relações de causa e efeito são mais soltas do que no longa anterior, e não é por acaso que Lynch não tenha feito mais nenhum longa depois deste: o cineasta parece chegar no auge do seu comentário sobre a natureza enganosa do cinema, em geral, e da natureza massificadora da indústria hollywoodiana, em particular.

Disponível no Belas Artes À La Carte.

Bastardos

Foto de Bastardos
Divulgação

Este filme francês sobre um marinheiro que volta pra casa e descobre uma série de desarranjos familiares é mais desconcertante do que complicado. O espectador é colocado diante de uma série de situações de suspense e violência que obviamente estão conectadas, mas o filme faz as ligações de forma arrojada, com vaivéns temporais impactantes. Normalmente os filmes da cineasta Claire Denis apostam num fluxo de ação que deixa a causalidade bem solta, para que essas histórias ganhem vida a partir da força de cada cena, isoladamente. Bastardos está muito longe de ser complicado como O Intruso (o filme de Denis mais difícil de ligar os pontos) mas, ainda assim, exige atenção para não parecer só uma sucessão de turbulências.

Disponível no Globoplay.

The End of Evangelion

Foto de The End of Evangelion
Divulgação

Quando Neon Genesis Evangelion chegou ao fim, em 1996, a escolha do diretor Hideaki Anno por um desfecho metalinguístico (que desconstrói não só o espaço como a própria existência do protagonista Shinji enquanto criação de um deus-autor) deixou um grande ponto de interrogação desenhado na cabeça das pessoas. Anno se viu numa situação em que deveria elaborar melhor o final, e o resultado, este longa-metragem lançado em 1997, não tem as batalhas que os fãs esperavam e na verdade se aprofunda mais nos desdobramentos metafísicos. The End of Evangelion basicamente pega as metáforas bíblicas que estão na origem da série e as transforma em um espetáculo apocalíptico de sincretismo e cosmologia.

Disponível na Netflix.

Pi

Foto de Pi
Divulgação

Os filmes mais espiritualizados do cineasta Darren Aronofsky, como A Fonte da Vida, Noé e Mãe, foram todos antecipados por Pi, a sua estreia como diretor de longas, de 1998. É o típico filme do estudante de cinema que coloca todos seus ovos numa cesta só: fotografia em preto e branco, filmagem em locações, narrativa não convencional. Pi é complicado na medida em que convida o espectador a participar nesta trama de conspiração e loucura das reflexões que o protagonista faz sobre religião e matemática. De repente deixamos uma rotina inofensiva de partidas de xadrez e estamos diante de respostas para as equações do mistério da vida.

Disponível no Amazon Prime Video.

Preso na Escuridão

Foto de Preso na Escuridão
Divulgação

O filme espanhol que deu origem a Vanilla Sky não é tão diferente do remake, inclusive Penélope Cruz refaz seu papel na versão americana com Tom Cruise. Talvez a repetição ajude então o público a assimilar melhor essa trama de tons surrealistas do tipo nem-tudo-é-o-que-parece. Mais do que M. Night Shyamalan, o diretor Alejandro Amenábar - que quatro anos depois de Preso na Escuridão estreou com impacto em Hollywood fazendo Os Outros em 2001 - acabou refém da expectativa das pessoas que passaram a esperar reviravoltas engenhosas de seus filmes, e seu trabalho não teve mais a projeção internacional daquela época.

Disponível no Amazon Prim Video.

Solaris

Foto de Solaris
Divulgação

Quem acha 2001 - Uma Odisseia no Espaço complicado então vai se esbaldar com a "versão russa" da viagem solitária de autodescoberta do homem nos limites do espaço. Solaris está longe de ser o filme mais difícil de Andrei Tarkovski (é bem mais econômico nas cenas de delírio e licenças poéticas do que O Espelho e O Sacrifício, por exemplo), mas a trama metafísica sobre o astronauta que testemunha a volta da amada morta até hoje desconcerta as pessoas. O livro de Stanislaw Lem que deu origem ao filme se embrenha em conceitos científicos que Tarkovski desconsidera; para o cineasta, o que importa é o drama humano, e entendê-lo é mais uma questão de identificação e empatia.

Disponível no Belas Artes À La Carte.

Só Deus Perdoa

Foto de Só Deus Perdoa
Divulgação

Depois de realizar Drive com Ryan Gosling, o diretor Nicolas Winding Refn tenta nesta violenta história de vingança retomar um pouco do maneirismo e da narrativa sensorial de outros filmes seus, como O Guerreiro Silencioso. O resultado confunde porque fica no meio termo entre o narrativo e o sensorial. O espectador se vê envolvido numa série de elipses, que nem sempre têm ligação, e para entender o que está acontecendo frequentemente é preciso acompanhar a evolução dos hematomas na cara do personagem principal vivido por Gosling. Um filme de caprichos de estilo.

Disponível no Amazon Prime Video.