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Pi | Crítica

A perturbadora estréia de Darren Aronofsky

Érico "Orph" Assis
04.04.2002
00h00
Atualizada em
01.11.2016
23h02
Atualizada em 01.11.2016 às 23h02

 

O cinema independente norte-americano volta às telas brasileiras com um excelente representante. Pi, primeiro longa-metragem do diretor e roteirista nova-iorquino Darren Aronofsky, chega ao país com quatro anos de atraso, e depois do segundo filme do autor, Réquiem para um sonho (2000), já ter passado pelo circuito alternativo nacional. Quem consegue explicar esses distribuidores?

Com seu título inspirado no símbolo matemático do número que se obtém com divisão da extensão de qualquer circunferência pelo próprio diâmetro, Pi chega, infelizmente, na esteira do sucesso de Uma mente brilhante. Ambos compartilham alguns temas, ainda que as abordagens sejam contrastantes.

No filme, o matemático Max Cohen (Sean Gullette, também co-roteirista) está envolvido em uma pesquisa para encontrar um padrão no vai-e-vem das bolsas de valores. Seu trabalho é financiado por algum enigmático tubarão de Wall Street, que lhe garante um supercomputador. No entanto, o que realmente move Max é uma obsessão por descobrir um padrão matemático supremo, presente em toda a natureza. Para ele, não importa só o movimento das bolsas, mas também a direção do vento ou a forma como o açúcar se espalha pelo café.

Max ainda é atormentado por crises de enxaqueca crônica, que aos poucos vão destruindo seu cérebro. Como parte de sua obsessão, tenta não manter contatos sociais, discutindo suas idéias apenas com seu antigo professor Sol Robeson (Mark Margolis). Ele serve de contraponto humano ao racionalismo extremo de Max.

O filme segue uma espiral pela qual o obcecado matemático vai aos poucos descendo, levando-o a uma grande descoberta, à loucura completa ou a ambas, que talvez sejam a mesma coisa. A busca acaba envolvendo estudiosos judeus da Cabala (antiga disciplina mística hebraica, que busca desvendar o segredo da criação a partir do Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia), filosofia chinesa, teoria do caos... e, por fim, o segredo do universo.

Ao ver o filme, talvez você se lembre do já citado Uma mente brilhante ou de Gênio indomável. Pi, contudo, toma caminhos mais extremos. A belíssima fotografia em preto e branco e o enquadramento que sempre consegue ótima composição distanciam a película dos clichês de Hollywood. O roteiro, por si só, combina idéias inovadoras aos obrigatórios devaneios existencialistas de todo filme independente.

Como curiosidade para o pessoal que curte quadrinhos, o diretor Darren Aronofsky, grande fã de HQs, já foi cotado para dirigir a produção cinematográfica de Watchmen e esteve envolvido na produção de Batman: ano um, filme jamais realizado do Homem-Morcego.

Nota do Crítico
Ótimo