Ben Affleck e Ezra Miller em Liga da Justiça

Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação

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The Flash | Por que focar na relação entre Barry e Bruce pode ser um erro

Por mais que o diretor Andy Muschietti garanta que esta é uma história do Velocista Escarlate, peso dado à figura do Batman pode desequilibrar a narrativa e frustrar fãs

Mariana Canhisares
22.08.2020
20h00

Ver um filme solo do Flash tomando forma parece até sonho. Desde que entrei no Omelete, em julho de 2017, foram tantas chegadas e partidas de diretores e roteiristas, tantas diferenças criativas que fizeram desmoronar projetos inteiros, que por um momento cheguei a pensar que talvez esse longa não fosse sair tão cedo - e, cá entre nós, peguei a história pelo caminho, teve muito mais treta... Então, dias antes do DC FanDome, todo o esboço do filme veio à tona, pegando o mundo de surpresa. Sob a direção de Andy Muschietti e com roteiro de Christina Hodson, a Warner confirmou que se propunha a adaptar Ponto de Ignição (Flashpoint), o arco icônico das HQs em que Barry Allen viaja no tempo tentando impedir o assassinato da mãe, mas acaba bagunçando toda sua linha temporal. Uma jornada bastante emocional para o herói, e certamente uma aventura que os fãs da DC Comics ansiavam e muito para ver nos cinemas.

Porém, em meio à minha alegria de ver Barry Allen recebendo a atenção que merece, uma notícia neste turbilhão de novidades me deixou com o pé atrás: o retorno de Ben Affleck. Veja bem, eu gosto bastante da versão dele do Batman e genuinamente fiquei feliz com o estúdio dando uma nova chance para ele ter, talvez, uma despedida digna do papel - considerando a chegada de Robert Pattinson no projeto de Matt Reeves. Logo, o motivo da minha apreensão não tem a ver com o ator e sua performance. Meu receio está no objetivo da sua inclusão no filme.

Segundo Muschietti, a relação entre Barry e Bruce Wayne é um dos pilares emocionais do filme. “[...] os personagens estão mais relacionados do que imaginamos. Ambos perderam a mãe em assassinatos”, lembrou o diretor à Vanity Fair. De fato, há algo de interessante neste duo que pode ser explorado para impulsionar a jornada do protagonista. O problema é: e se o Batman roubar os holofotes?

Eu sei, nessa mesma entrevista Andy Muschietti disse com todas as letras que “o filme é do Barry”. E, sim, Bruce pode ser só um mentor que vai tentar impedir ou ajudar o jovem herói a não fazer muita besteira nessa viagem no tempo. Mas, se você olhar para a editora concorrente, você vai encontrar um precedente meio ruim na construção de uma relação de mentoria não muito diferente da planejada para Flash e Batman. Um Vingador veterano que se tornou o centro de não um, mas dois filmes de um personagem novato. Ai, vai lá, me xinga, mas não sou a maior fã da relação entre Homem de Ferro e Homem-Aranha.

O conceito é ótimo. Em vez de apresentar pela terceira vez a relevância da morte do Tio Ben para a ascensão do Peter como um herói, algo que o público compreende tendo pego na mão uma HQ do Homem-Aranha ou não, você coloca um dos personagens mais adorados do universo cinematográfico para cumprir essa função. Em outras palavras, une o útil ao agradável. Porém, a maneira como a Marvel construiu esse relacionamento foi na base da dependência. Peter precisa do Stark para tudo, inclusive para motivar os dois vilões que enfrenta.

Talvez toda essa minha comparação fosse irrelevante se a Warner não tivesse espelhado tanto o Barry Allen de Ezra Miller no timing cômico do Peter Parker de Tom Holland. Quer dizer, se essa não foi a intenção, foi o que ficou parecendo em Liga da Justiça - aliás, uma tentativa frustrada disso. Então, como fã, me dá medo pensar que talvez a referência seja novamente a Marvel, principalmente porque toda vez que a DC tentou repetir os passos da concorrente, os resultados não foram dos melhores.

Somado ao histórico, minha insegurança vem ainda do fato de que Ben Affleck não será o único Batman dessa história. Michael Keaton, o Homem-Morcego do clássico de 1989, também está confirmado e, segundo um jornalista do Hollywood Reporter, ele será um mentor a la Nick Fury. Obviamente, esta é uma participação incrível e que deve ser celebrada. Porém, ao mesmo tempo, é mais um mentor, possivelmente mais uma referência à Marvel e mais um elemento em potencial para tirar o foco da jornada do personagem que realmente importa.

O filme tem previsão de estreia para junho de 2022, ou seja, ele está longe de ser um projeto fechado e, mais importante, meus medos e receios definitivamente não são fatos concretos. São apenas reflexões baseadas no pouco que foi revelado até aqui. É claro que Andy Muschietti e sua irmã, a produtora Barbara Muschietti, provaram com as duas adaptações de It: A Coisa que respeitam o material-base, fazendo alterações sem mexer na essência da obra. Mas, para mim, é crucial que os dois deem o peso adequado aos Batmans, sejam eles quantos forem. Por melhor que seja o easter egg, ele não pode desequilibrar a narrativa. Quando eu for ao cinema - até lá tudo tem que estar normal, não pode ser -, eu quero ver uma aventura do Barry Allen. Com participações especiais? Claro, mas sem perder o DNA do Flash.