Batman: Urban Legends 6

Créditos da imagem: DC Comics/Divulgação

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Por que se assumir bissexual enriquece, e não apaga, a história do Robin

Saída do armário de Tim Drake rima perfeitamente com a sua trajetória nos quadrinhos

Caio Coletti e Nico Garófalo
19.08.2021
14h30
Atualizada em
19.08.2021
20h24
Atualizada em 19.08.2021 às 20h24

Criado em 1989 por Marv Wolfman e Pat Broderick, Tim Drake tem uma das trajetórias mais bonitas dos heróis da DC Comics. Desde que foi criado, o garoto descobriu sozinho as identidades secretas de Batman e Robin, assumiu pessoalmente o posto de Menino Prodígio após a morte de Jason Todd, liderou a Justiça Jovem e os Novos Titãs, viajou pelo multiverso e trocou de nome algumas vezes. Ainda assim, um de seus maiores feitos nos quadrinhos aconteceu em agosto de 2021, quando ele se assumiu bissexual após perceber sua atração por Bernard, um velho amigo de escola que reencontra depois de anos em uma história de Batman: Urban Legends assinada por Meghan Fitzmartin e Belén Ortega.

A descoberta, importante tanto para a história de Tim quanto para a representatividade saudável da comunidade LGBTQIA+ nos quadrinhos, foi extremamente celebrada por muitos leitores que acompanharam o personagem ao longo de sua história. Mas, como acontece com qualquer passo significativo que destoe de princípios conservadores e tradicionalistas, as redes sociais também se encheram de comentários preconceituosos, que acusavam a DC de “apagar a história do personagem” e desrespeitar os relacionamentos que Drake teve no passado. Com a desculpa de serem “fãs das antigas”, usuários - e alguns criadores de conteúdo - expuseram sua ignorância e falta de empatia em relação a outros leitores, além da incapacidade de compreender a dificuldade que pessoas bissexuais passam para aceitar quem são.

Uma vida no limbo

Na vida real, a experiência bissexual frequentemente passa por uma “saída do armário” (tanto de si para si mesmo quanto de si para o mundo) tardia, como a de Tim. Isso acontece porque, mesmo em círculos mais progressistas, a sexualidade nos é apresentada, desde pequenos, em uma concepção binária. Nas mecânicas do bullying adolescente, da representação midiática, da cobertura jornalística do movimento LGBTQIA+, homossexualidade e heterossexualidade são mostradas como opostos complementares, que abarcam toda a condição sexual humana.

Daí vêm os termos apagamento ou invisibilização bissexual, tipos específicos de opressão enfrentados pelas pessoas bis, localizados sob o guarda-chuva do que chamamos de bifobia - que pode, como outros preconceitos, ser internalizada pelas pessoas que se encaixam no grupo afetado por ela. Para os homens bissexuais, esse processo passa mais marcadamente pela contestação da masculinidade, uma vez que “ser homem” é um conceito social tão marcado pela atração sexual por mulheres que um dos insultos homofóbicos quintessenciais é dizer que o homem gay “não é homem de verdade”.

Por isso, entender a atração por homens como parte da sua própria forma de masculinidade é uma luta diferente para homens gays e para homens bissexuais. Para os primeiros, o confronto é inevitável - e, muitas vezes, violento e traumático. Para os bissexuais, enquanto isso, há o instinto de se apegar a uma passabilidade que só mais tarde o indivíduo descobre que é falsa: viver no armário, negando uma parte de si mesmo para ser aceito, é psicologicamente insustentável; e nem todo homem bissexual se encaixa na heteronormatividade e é lido como heterossexual, mesmo quando está se relacionando com mulheres.

Tá, mas como isso corresponde à história de Tim Drake?

Assim como a própria DC argumentou em um comunicado oficial, a vida de Tim se baseou em se adequar às necessidades daqueles ao seu redor. Foi porque “o Batman precisa de um Robin” que ele assumiu o posto de terceiro Menino Prodígio. Foi pelo bem de Conner Kent/Superboy e Bart Allen/Impulso que ele ajudou a fundar a Justiça Jovem e mais tarde aceitou liderar os Novos Titãs. Ele até mesmo tentou, relutantemente, substituir o Bruce como Cavaleiro das Trevas após Dick inicialmente se opor a assumir a capa - tudo porque Gotham precisava do morcego.

Tim sempre teve mais problemas para se encaixar na vida de super-herói que a maioria de seus companheiros, algo que se refletiu em sua constante mudança de nomes: Robin, Robin Vermelho, Drake e de volta para Robin. Essa troca constante acontecia pela necessidade que ele sentia de se provar como herói, filho, líder e amigo, sempre colocando aqueles à sua volta como prioridade e esquecendo de cuidar de si mesmo.

Sua convivência com a comunidade LGBTQIA+ também sempre foi extremamente binária. Kate Kane/Batwoman, Miguel Barragan/Bunker e Renee Montoya/Questão, com quem Tim mais teve contato em sua carreira heróica, sempre foram abertamente homossexuais, com o terceiro Robin raramente encontrando outro personagem bissexual que o ajudasse a entender seus próprios sentimentos. Justamente por isso, a epifania de Tim sobre sua própria sexualidade só acontece depois que Bernard, retratado como um rapaz relativamente mulherengo nos quadrinhos do começo dos anos 2000, lhe conta acidentalmente que os dois estavam num encontro antes do ataque do Monstro do Caos.

Se perceber bissexual finalmente dá a Tim um estalo sobre si mesmo e lhe permite, pela primeira vez em anos, fazer uma escolha baseada em seus próprios desejos. Ao mesmo tempo, essa autodescoberta lhe dá espaço para repensar seus relacionamentos passados com Stephanie Brown/Spoiler e Cassie Sandsmark/Moça-Maravilha, e entender porque sempre houve um sentimento de não pertencimento mesmo em seus momentos mais felizes - um namoro em que você não sabe inteiramente quem é, e não expressa isso ao seu parceiro, é sempre, na melhor das hipóteses, um namoro disfuncional.

A sexualidade de Tim, aliás, em nada afeta a realidade dos sentimentos envolvidos nessas relações. Embora tenha havido grande confusão (para não dizer “má vontade”) entre alguns leitores, a bissexualidade do Robin não anula a afeição e atração que ele sentiu pelas ex-namoradas, apenas abre as portas para novos relacionamentos diferentes, com homens e mulheres. Possivelmente, relacionamentos menos conturbados.

Analisando as principais histórias de Tim é fácil perceber que os sinais sobre sua sexualidade sempre estiveram lá, embora escondidos por camadas profundas de dúvida e insegurança. Graças a Fitzmartin e Ortega, que narraram sua “saída do armário” com uma delicadeza louvável, o Robin pode enfim se aceitar. Diferente do que alguns comentários menos receptivos afirmam, Tim assumir sua bissexualidade permite que ele cresça, como personagem e como símbolo, com um conflito a menos para resolver e um peso a menos para carregar.

Isso sem contar que ver um personagem que sempre foi visto como ícone queer, mas apenas nas entrelinhas e implicações, modelar uma versão saudável, destemida e explícita da experiência bissexual é uma fonte de esperança para qualquer leitor que se identifica como ele. E esperança, afinal, sempre foi todo o ponto do Robin.

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