Kristen Stewart e Robert Pattinson em Crepúsculo

Créditos da imagem: Crepúsculo/Summit Entertainment/Reprodução

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Quem diria? Sol da Meia-Noite é mais divertido do que eu esperava

Por mais problemático que possa ser revisitar a saga pelos olhos de Edward, é inegável que repassar a história que marcou a minha adolescência tantos anos depois tem algo de hilário

Mariana Canhisares
12.08.2020
16h47
Atualizada em
12.08.2020
21h54
Atualizada em 12.08.2020 às 21h54

Minha primeira reação ao saber que teríamos um novo livro da Saga Crepúsculo em pleno 2020 foi um misto de empolgação e curiosidade. Era como se a Stephenie Meyer soubesse que eu reassisti os cinco filmes em busca de algum conforto no início da quarentena e quisesse me dar um presente, uma nova chance de revisitar aquele romance brega que tanto amei na minha adolescência para me distrair de todo o caos do mundo. Na sequência, porém, bateu uma preocupação. Se a obsessão do Edward pela proteção da Bella ficou inegavelmente problemática para mim agora, quase 10 anos depois do lançamento do último longa, ler seus pensamentos e acompanhar seu desejo assassino assim de perto seria uma boa ideia de verdade?

Tendo lido 100 páginas de Sol da Meia-Noite, posso afirmar categoricamente que sim. Veja bem, o paternalismo obsessivo do Edward está lá e é impossível ignorá-lo. É bizarro, injustificado e nada saudável. Logo, romantizar qualquer coisa minimamente parecida com isso na vida real é uma má ideia. Mas, ainda assim, não consigo evitar: acompanhar essas neuroses do vampiro tem sido muito engraçado.

Eu sei, talvez não seja a resposta mais lógica para a relação complicada que eu acabei de descrever. Talvez não seja sequer responsável. Mas, sério, duvido que você não esboce pelo menos um sorriso lendo um capítulo que seja do livro. Primeiro, pela arrogância do Edward. Ele começa a história com uma soberba, falando como os humanos são previsíveis, e como ele é perigoso, um observador experiente - afinal, décadas aí no ofício de predador - e nada pode o abalar nesta cidadezinha fria. Isso, por si só, já é cômico, sabendo o que vem pela frente.

Então, como era esperado, em questão de páginas o seu mundo rui. Toda aquela confiança dá espaço para inquietudes, porque a menina que ele julgara comum se provou, na verdade, uma ameaça. Quer dizer, ele não admite isso de cara. Ele chega a gargalhar da ideia de que Bella é perigosa, mesmo ele tendo fugido dela não muito tempo antes - fugiu mesmo, correu para outra cidade e se escondeu. Porém, essa resistência em admitir sua fraqueza torna os momentos tapa na cara do personagem muito mais divertidos. Seguindo a mesma lógica, ficam mais irônicas as cenas em que ele pensa extensivamente sobre coisas mundanas, como com quem a Bella vai no baile, quando dias antes considerava tudo na experiência Ensino Médio insignificante. Quando ele, o especialista em humanos, se dá conta que está apaixonado então? Bom demais!

A indecisão dele sobre como agir com a adolescente também é bem engraçada. Ao mesmo tempo que ele a rejeita porque acha que é o certo a fazer, é obcecado em saber o que a Bella pensa dele, se ela sabe o quanto ele se importa. Bom para a gente ver que você pode ter 17 anos durante um ano ou durante décadas, não importa. As inseguranças adolescentes são para sempre.

Claro que se eu e outros leitores por aí estamos dando gostosas risadas é porque Stephenie Meyer tomou a esperta decisão de suavizar o lado assassino do vampiro. Ele está lá, nas primeiras páginas, quando Edward sente o cheiro inebriante de Bella pela primeira vez. Ele considera algumas estratégias para matá-la, mas a descrição não traz nada de muito gráfico ou chocante. Conforme ele nota que tem um instinto protetor com relação à garota - e aí vale tanto para situações de risco à vida, quanto para o olhar invejoso da Jessica -, o “monstro”, como ele mesmo chama, perde cada vez mais espaço. Assim, a gente pode focar no fator adolescente da história, o que é mais agradável e, mais importante, preserva a nossa memória como fãs.

A verdade é que ler Sol da Meia-Noite é uma experiência comparável a reassistir aos filmes. Você reconhece que tem algo de muito errado ali naquele namoro, mas se pega sorrindo quando o Edward joga um galho para provar toda a sua força. Ou, então, quando os dois vão para o meio da floresta e rola toda aquela revelação dramática sobre o que ele é. A gente cresceu e, agora, encara as coisas de modo diferente. Talvez de um jeito mais cínico? Talvez. Mas enquanto eu me entretenho com o brega da história - e eu digo isso como o maior dos elogios -, a Mariana adolescente, que leu todos os livros e era obcecada pela discussão Time Edward ou Time Jacob, está com o coração quentinho de ter em mãos mais um pedaço dessa história. Ela, aliás, não vê a hora de terminar esse texto para poder voltar a ler...