Kristen Steward e Robert Pattinson em Crepúsculo

Créditos da imagem: Crepúsculo/Summit Entertainment/Reprodução

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Como Midnight Sun pode mudar sua memória do romance de Bella e Edward

Ao mostrar o início da relação entre a jovem e o vampiro, a autora Stephenie Meyer terá que se debruçar sobre o instinto assassino e o paternalismo obsessivo do personagem

Mariana Canhisares
07.05.2020
16h22
Atualizada em
07.05.2020
18h22
Atualizada em 07.05.2020 às 18h22

Ainda que você reconheça que há uma breguice divertida no romance de Bella Swan e Edward Cullen, principalmente se você, como eu, andou reassistindo à Saga Crepúsculo nessa quarentena, é difícil não se empolgar com a notícia de que a autora Stephenie Meyer revisitará a nublada Forks em mais um livro. Depois de 15 anos do lançamento do primeiro romance, os leitores terão a chance de ver a improvável e arriscada história de amor se desenrolando pelos olhos não mais da adolescente aparentemente comum, mas do misterioso vampiro.

O apelo de Midnight Sun para a nostalgia é óbvio, ainda mais considerando que essa nova perspectiva deve adicionar elementos inéditos à narrativa, como o acesso aos pensamentos de todos os personagens - esse é o diferencial do Edward, lembra? - e mais detalhes sobre a vida e o histórico da experiência dos Cullen na cidade. No entanto, voltar a este caso de amor significa também dar luz às características mais problemáticas de Edward, suavizadas na visão adolescente de Bella e, na época, dos próprios leitores.

Colocá-lo como narrador da obra é assumir que o instinto dele como vampiro e, portanto, predador não é mais motivo para aquela tradicional euforia do “é perigoso e proibido”, como é tão comum em histórias teens. É realmente mergulhar na vontade dele de matar Bella. O primeiro encontro com a nova estudante, então, precisa evidenciar os impulsos assassinos dele, mostrando, por exemplo, se ele elaborou estratégias para saciar sua sede ali mesmo na cafeteria. Se sim, as descrições destes planos. Tendo em vista como Edward foi resistente para se envolver com a Bella, estes momentos não devem ser poucos, o que torna tudo ainda mais desconfortável.

A autora pode até tentar amenizar os pensamentos violentos do personagem com dilemas morais, já que o vampiro se culpa e muito pelas mortes que causou depois de ser salvo pelo Carlisle, além do fato de se enxergar como uma criatura pecaminosa. Ou, talvez, use como artifício a própria ideia de que se trata de um instinto e, portanto, ele não teria culpa dos seus desejos. Porém, a verdade é que a imagem do “bom namorado” inevitavelmente se quebrará. Senão nas páginas, nas mentes dos leitores.

Após 15 anos, os fãs da saga amadureceram e o mundo mudou bastante, de modo que certos comportamentos não são mais aceitáveis. Logo, cenas como o Edward indo no meio da noite para a casa de Bella vê-la dormir ou, então, sua constante preocupação com a segurança dela pode não mais ser interpretada como um ato romântico, e sim assumir de vez uma faceta obsessiva e controladora.

Se reassistindo aos filmes já ficam claros os elementos problemáticos na relação entre Bella e Edward - assim como a própria noção que os romances inspiraram 50 Tons de Cinza -, entrar de vez na mente do vampiro deve tornar tudo ainda mais óbvio. Deste modo, a memória do encanto adolescente com o namoro improvável sofrerá um golpe e tanto com o lançamento de Midnight Sun. Isso, porém, não é ruim. Na realidade, é sinal que estamos mais informados e atentos para a diferença entre o amor e todo o resto. E certamente há mais do que só afeto entre os protagonistas da Saga Crepúsculo.