Garth Ennis relembra icônica HQ do Justiceiro e comenta polêmica com policiais: "ninguém quer ser o Justiceiro"

Créditos da imagem: Brad Barket/AFP

HQ/Livros

Entrevista

Justiceiro | Garth Ennis relembra HQ icônica e comenta polêmica com policiais

Escritor se juntou ao artista Leandro Fernández para revelar os bastidores da fase Marvel Max

Gabriel Avila
18.11.2020
19h15

Não é de hoje que o Justiceiro causa polêmicas no mundo real, já que policiais de todo o mundo colocam a famosa caveira do vigilante em seu uniforme no dia a dia. Mas a apropriação do símbolo não agrada um dos artistas que já comandaram as HQs de Frank Castle. Conhecido por escrever uma das melhores fases do personagem nos quadrinhos, o escritor Garth Ennis diz que acha “desonesto” o uso do símbolo por policiais.

“Qualquer policial que vista a caveira do Justiceiro em seu uniforme está realmente se enganando. Ele não quer ser o Justiceiro, só quer usar um símbolo assustador para assustar as pessoas e então viver sua vida normal com esposa e filhos”, afirma Ennis, que é um dos convidados da CCXP Worlds, versão digital do evento, que acontece entre 4 e 6 de dezembro.

A questão já foi tratada pelo criador do personagem, nas próprias HQs e até pela Polícia de São Paulo, que emitiu um comunicado relembrando a proibição da utilização de símbolos que não fazem parte da instituição em uniformes e viaturas.

Para Ennis, é fácil entender por que ninguém quer de fato ser como o Justiceiro na vida real: “Ninguém quer ir para a guerra, ver sua família ser massacrada na sua frente e então devotar a vida à uma perseguição miserável de vigilantismo e assassinato. Acho que um policial vestir o símbolo do Justiceiro é desonesto, bobo. Ele ou ela deve estar apenas enganando a si próprio”.

De volta ao início: como Garth Ennis chegou ao Justiceiro

Capa de Justiceiro: Bem-vindo de Volta, Frank
Divulgação/Panini

No início dos anos 2000, Ennis foi responsável por fazer o Justiceiro cair no gosto do público novamente depois de um período em baixa. Após uma explosão de popularidade na década de 1990, o personagem entrou em uma rota bizarra, chegando a se tornar um anjo caçador de demônios - apelidado por Ennis de “Justiceiro Caça-Fantasmas”. Para o autor, parte de seu sucesso se deve às demandas pela volta à essência do personagem. “Acho que as pessoas estavam desesperadas pelo retorno do Justiceiro básico. Há poucos personagens mais simples que o Justiceiro, e as pessoas gostam disso”.

O início da longa trajetória de Ennis com o personagem começou com Bem-Vindo de Volta, Frank, HQ em doze partes que serviu como prelúdio para a fase conhecida como Marvel Knights, que durou 37 edições e tinha uma abordagem mais voltada ao humor absurdo. Porém, para o autor, o grande divisor de águas foi o Justiceiro do Marvel Max, selo voltado ao público adulto. “Acho que trouxe o personagem de uma forma que nunca havia sido feita. Era a mesma essência, mas em um mundo muito mais violento e realista, que de alguma forma cumpre o que o personagem promete, sem todas as coisas do Universo Marvel”.

Durante a fase na Marvel Max, Ennis contou com um grande time de artistas que inclui Leandro Fernández, quadrinista argentino que também vai participar da CCXP Worlds. Revelando que já era fã do escritor por causa de Preacher, o desenhista conta que o mundo construído para o Justiceiro foi o que chamou sua atenção logo de cara. “Garth trabalha muito no mundo em que o Justiceiro vive, não tanto o personagem. Nós já sabemos quem ele é, então a pergunta é ‘como ele fica em um mundo mais real, sombrio e assustador’? Essa é a parte interessante, não é uma HQ para crianças”.

Montagem com foto de Leandro Fernández e uma arte do Justiceiro
Reprodução/Leandro Fernández/Instagram;Divulgação/Marvel

Ennis relembra que sua intenção era realmente criar histórias de crime que deixassem o Justiceiro no lugar em que ele pertence. O roteirista elogiou Fernández, que, em sua opinião, fez um trabalho admirável ao desenhar grandes histórias, incluindo Os Escravistas, arco que o autor irlandês guarda com muito carinho. “Para muitas pessoas, e eu incluso, é a história definitiva da HQ Justiceiro Max. Nela, levei o personagem em uma jornada ainda mais sombria do que havia feito antes”.

Fernández lembra desse período com carinho, especialmente por ter sido um de seus primeiros trabalhos para a Marvel. “Quando você começa algo muito novo, e está no meio do processo, não percebe quão bom pode ser. Os roteiros eram muito interessantes e incríveis. Grandes histórias e situações para desenhar. Foi muito divertido e, mesmo que faça muito tempo, ainda sou muito feliz com aquelas histórias”.

A importância dos vilões em Justiceiro Max

Outro ponto que coloca a fase de Ennis como uma das melhores na trajetória do Justiceiro é sua impressionante galeria de vilões. Para o roteirista, um personagem tão perigoso quanto Frank Castle precisa de oponentes que causem problemas, para tornar sua vida mais difícil. Um dos grandes exemplos é Barracuda, ex-militar que seguiu uma carreira criminosa ao voltar da guerra. “Ele é fisicamente mais capaz do que Frank. A combinação de agressividade e inteligência para fazer coisas que pessoas normais não conseguiriam era talvez até maior do que a do Justiceiro”.

O autor revela que o processo de criar tantas nêmesis partiu de uma regra pessoal: “os vilões não poderiam sobreviver a mais de dois encontros com o Justiceiro. Poderiam sobreviver ao primeiro por muito pouco, mas da segunda vez ou você mata ele, ou ele te mata. E obviamente, o segundo é mais provável”.

Ennis afirma que essa regra é fortemente inspirada por quadrinhos clássicos que lia na infância, como Juiz Dredd. Para ele, não reutilizar vilões é bastante útil para o processo criativo: “se você mata personagens que criou, significa que você não está ficando preguiçoso ao trazê-lo de volta uma dúzia de vezes. Te estimula a criar outros e, com sorte, ainda melhores”.

Após encerrar sua clássica fase à frente do Justiceiro Max, Ennis ainda voltou ao personagem diversas vezes em quadrinhos como O Pelotão e O Soviético. Atualmente, o escritor trabalha em Get Fury, nova aventura do vigilante. Questionado sobre o projeto, Ennis fez mistério: “Não posso falar muito sobre isso porque estamos nos estágios iniciais. Já escrevi a história, mas com muitos títulos da Marvel sendo suspensos este ano por causa da pandemia, só conseguimos voltar a trabalhar nisso agora. Mas tudo vai bem, você poderá ler até o final do próximo ano”.

Justiceiro luta contra Barracuda na HQ Justiceiro Max
Reprodução/Marvel

Para quem quiser conferir a participação de Garth Ennis e Leandro Fernández na CCXP Worlds: A Journey of Hope, a primeira edição 100% digital do maior evento de cultura pop do mundo será realizada entre os dias 4 e 6 de dezembro de 2020. Os ingressos já estão disponíveis no site www.ccxp.com.br.

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