Batman

Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação

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O Batman não sorri, mas o filme é cheio de humor

Roteiro de Matt Reeves e Peter Craig brinca com os absurdos da vida do vigilante e usa comédia para trabalhar tensões

Omelete
6 min de leitura
Nico Garófalo
08.03.2022, às 16H58
ATUALIZADA EM 09.03.2022, ÀS 08H39
ATUALIZADA EM 09.03.2022, ÀS 08H39

[Spoilers de Batman à frente]

Batman é um grande sucesso. Já registrando uma bilheteria impressionante em sua primeira semana em cartaz, o longa comandado por Matt Reeves também vem conquistando a crítica especializada ao redor do mundo, registrando 86% de aprovação no agregador do Rotten Tomatoes. Enquanto a esmagadora maioria elogia a veia detivesca e a atmosfera de suspense da produção, há um consenso entre os 14% restantes de que o Cavaleiro das Trevas de Robert Pattinson não sorrir torna o novo longa pesado e sem humor - o que não é exatamente verdade.

Antes de realmente entrar na questão da comédia trazida no roteiro de Reeves e Peter Craig, é necessário contextualizar o momento vivido por Bruce em Batman. Embora ainda esteja em seu segundo ano como vigilante, o Morcegão deixa claro em diferentes momentos que tem dedicado toda a sua vida desde a morte dos pais a lutar contra o crime. Recluso, ele nem mesmo se envolve nos negócios da família, com Alfred (Andy Serkis) inclusive alertando Wayne que ele corre o risco de perder toda a fortuna que herdou. Para o Batman, as coisas também não estão exatamente fáceis. Apesar de contar com o apoio de Gordon (Jeffrey Wright) e já ter se tornado sinônimo de terror para os bandidos de Gotham, a criminalidade em sua cidade cresce exponencialmente, assim como o número de dependentes de Gota, droga que domina as ruas. Em poucos minutos, fica claro que o Battinson simplesmente não tem razões para sorrir.

Mas, mesmo que o protagonista não sorria, é necessário dizer que Batman é sim um filme lotado de humor. Embora o domínio da indústria por parte de produções de super-heróis tenha, de certa forma, “normalizado” esse tipo de história, é impossível não ver graça no absurdo proporcionado pelo gênero. Afinal, o que é o Batman se não um bilionário desajustado que pratica parkour vestido de morcego? Cientes disso, Reeves e Craig cercaram sua versão do herói de personagens que constantemente apontam para a hilaridade de sua vida como vigilante.

Com frequência, o Battinson é alvo de comentários irônicos de policiais, vilões e aliados, brincam com o visual do vigilante e com sua frase de efeito, “eu sou a vingança”. Em Batman, quem mais zomba dessa teatralidade do Cruzado Encapuzado é o Pinguim. Ciente de que é intocável por causa de seu status no submundo criminoso de Gotham, o vilão passa o filme chamando o Batman de “docinho”, “burro” e “ignorante”. Mesmo após uma perseguição alucinante (mais sobre ela em breve), o dono do Clube do Iceberg ironiza as capacidades investigativas do Cruzado Encapuzado e de Gordon. A atuação propositalmente exagerada de Colin Farrell ainda soma uma camada de paródia aos diálogos do personagem que, embora se encaixe perfeitamente em Batman, não pareceria deslocado na série estrelada pelo Morcegão nos anos 1960.

O Charada de Paul Dano também traz ótimos momentos de comédia para o filme. Embora seus trajes sugiram uma aura ameaçadora, a linguagem corporal cheia de maneirismos do vilão o aproximam do retrato berrante das páginas e de outras adaptações. Esse humor ganha ainda mais profundidade quando Reeves mostra as diferentes maneiras como o personagem se dirige aos cidadãos de Gotham e aos seus seguidores igualmente desequilibrados. Ao falar para outros membros revoltados de uma comunidade online, o Charada controla sua persona psicótica e escandalosa, passando a usar um tom de voz e uma linguagem muito mais amenos para conquistar seus seguidores.

O que não é dito

O humor de Batman está presente até nas mais improváveis cenas, inclusive naquelas em que o diálogo é quase inexistente. Mesmo não sendo proferidas com um tom sarcástico ou zombeteiro, pequenas piadas visuais lembram que, acima de tudo, estamos assistindo a uma adaptação de histórias em quadrinhos, em que muitas vezes o humor é transmitido 100% apenas pelas imagens. Durante a perseguição do Batman ao Pinguim, por exemplo, Reeves e Michael Giacchino sincronizam as manobras do Homem-Morcego à trilha sonora, que sobe em tom ameaçador sempre que o imparável batmóvel surge no retrovisor do gângster. Por mais que esteja inserida em uma sequência cheia de adrenalina, essa combinação passa a impressão de que é o possante do Battinson, e não seu motorista, que está atrás do personagem de Farrell. Não bastasse criar uma versão automobilística do clássico “aqui está o Johnny” de O Iluminado, a cena ainda conta com algumas coincidências hilárias, como uma rampa muito bem colocada que permite que o Batman salte por cima de caminhões no melhor estilo Dom Toretto em Velozes e Furiosos.

Esse tipo de humor sem falas, quase inteiramente visual, dá as caras em diferentes momentos do filme. Ao longo de Batman, vemos o estrago no rosto dos capangas de Falcone (John Turturro) que tiveram o azar de cruzar o caminho do Morcegão, trocadilhos em campanhas eleitorais e trocas de socos completamente repentinas.

O humor tenso de Batman

Mas se o filme é assim tão hilário, por que ninguém tem gargalhado nos cinemas? Apesar de simples, a resposta é também um reflexo do ótimo trabalho de Reeves e Craig no roteiro. Ao contrário do que aconteceu em produções como O Esquadrão Suicida, Aves de Rapina ou Aquaman, Batman não usa o humor como forma de aliviar a tensão, mas sim de acentuá-la.

Conforme dito anteriormente, o Pinguim se vê no direito de ser extremamente irônico e zombeteiro com toda e qualquer figura de autoridade que o cerca, simplesmente por saber que é intocável enquanto ocupar uma posição de prestígio na quadrilha de Falcone. Ao invés de se tornar motivo de risada, o escárnio que o vilão faz daqueles à sua volta, incluindo o Batman, passa ao espectador uma sensação de raiva, direcionada à impunidade que domina Gotham.

O mesmo acontece com o Charada. Mesmo que seja por vezes exagerado ou patético, a noção de que uma figura tão desequilibrada e cômica é capaz de atrair seguidores dedicados a concluir seu plano para afundar Gotham é assustadora, especialmente quando nos lembramos que, poucos segundos antes, ríamos de sua figura mascarada.

Embora seja bem mais ameaçador do que o que nos acostumamos a ver em blockbusters de heróis, não se pode negar que o humor é parte vital da experiência de Batman. Bem mais do que levar leveza ao filme, os momentos cômicos proporcionados por Reeves e sua equipe contribuem para a construção do clima tenso e desesperador instaurado nesta nova encarnação de Gotham.

E, sim, o Battinson pode muito bem passar a sorrir nos cinemas. Reeves já deixou claro neste primeiro filme que entende como adaptar as páginas da DC para as telonas e provavelmente seguirá o arco dos gibis, em que Bruce precisou fazer amizade com heróis como Superman e Mulher-Maravilha e constituir uma extensa família antes de se sentir à vontade para sorrir e fazer uma ou outra piada. Assim como nos quadrinhos, o protagonista de Batman precisará encontrar leveza em sua vida fora das sombras antes de se permitir ser feliz com e sem o capuz.

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