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Créditos da imagem: Divulgação/Omelete

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Banca de HQs | Kevin Eastman relembra o inusitado sucesso das Tartarugas Ninja

Criador falou ao Omelete sobre as HQs, desenhos animados, filmes e revelou qual Tartaruga mais se parece com ele

Gabriel Avila
19.05.2021
16h09

Com quase 40 anos de estrada, As Tartarugas Ninja se mantém firmes como um dos maiores fenômenos da cultura pop. O quarteto formado por Leonardo, Raphael, Michelangelo e Donatello segue marcando diferentes gerações através de quadrinhos, desenhos animados e filmes que são verdadeiros sucessos de bilheteria. Por tudo isso, é até curioso pensar que o quarteto foi uma tentativa desesperada de dois fãs entrarem no mercado de HQs.

Em entrevista ao Omelete, o criador Kevin Eastman relembra que os heróis surgiram da dificuldade de conseguir trabalho de verdade em grandes editoras como Marvel e DC:

“Nós tivemos essa ideia boba: já que não conseguíamos trabalho fazendo quadrinhos ‘de verdade’, por que não juntar nossas coisas favoritas da cultura pop? Amávamos Batman, Demolidor, Novos Mutantes e até Planeta dos Macacos e seus animais mutantes. Pegamos tudo isso, colocamos em um liquidificador pensando ‘as pessoas provavelmente vão odiar’ e nos divertimos fazendo isso”.

Capa da HQ Tartarugas Ninja: Coleção Clássica

Capa de Tartarugas Ninja: Coleção Clássica: vol. 1 da editora Pipoca & Nanquim

Divulgação/Pipoca e Nanquim

O que saiu desse liquidificador foi a primeira edição de Teenage Mutant Ninja Turtles, que por si só foi a realização do sonho de Eastman e seu parceiro Peter Laird. “Juntamos dinheiro e publicamos nós mesmos pensando que só teríamos a chance de lançar uma edição. E estaria tudo bem, ficamos felizes só de fazer”.

A resposta dos fãs foi quase instantânea, esgotando não apenas a modesta tiragem original de 3 mil exemplares, como também a segunda de 15 mil cópias. “Quando as coisas começaram a acontecer e ressoar entre os fãs, nossa cabeça explodiu e começamos a fazer quadrinhos em período integral. Isso em 1985, e 36 anos depois eu ainda desenho Tartarugas. Isso é ótimo”.

Ninjas na televisão

Se as Tartarugas já estavam fazendo barulho no circuito de quadrinhos independentes, elas ganharam o mundo mesmo em 1987 com o lançamento do desenho animado. Amada por gerações, a produção começou com o desafio de transformar um quadrinho sério e violento em um produto para todas as idades. Sobre isso, Eastman lembra que a transição foi fundamental para a franquia dali em diante:

“Quando fizemos as HQs originais, não havia muito humor porque pretendíamos que fosse para um público mais velho. Então quando começamos a produzir o desenho animado, entendemos que o público passaria de ‘adultos mais velhos’ a crianças de seis a oito anos. Nesse momento soubemos que teríamos de mudar algumas coisas para suavizar o tom, então colocamos muito mais comédia”.

Além da comédia, o desenho trouxe mudanças para as Tartarugas, que vão desde detalhes menores, até o desenvolvimento de personalidades distintas. “Foi muito divertido, mas não tínhamos muita certeza de que o desenho animado funcionaria”, relembra Eastman. “Para nós foi fantástico porque participamos no processo de criação e gostávamos de absolutamente tudo, desde as bandanas coloridas aos visuais dos novos personagens”.

Cena do desenho animado das Tartarugas Ninja

Tartarugas Ninja chegam à TV em 1987

Divulgação/DC Comics

“Mas a questão é que ninguém pode dizer a uma criança que ela deve gostar de algo ou não, elas decidem o que é descolado sozinhas (risos). Tivemos muita sorte que os fãs realmente se engajaram porque não dá para manipular o público. Crianças são espertas demais”.

E dá pra dizer que as crianças gostaram muito. Por conta do sucesso na TV, As Tartarugas Ninja se tornaram uma linha de brinquedos que vendia como água e chegou também aos videogames. Uma ascensão que não parou por aí.

Tartarugas invadem Hollywood

Uma HQ de sucesso, um desenho animado popular, brinquedos que vendem como água e até videogames: o que faltava para as Tartarugas Ninja? Um filme, é claro. As Tartarugas Ninja chegou ao cinema em 1990 e desde então a franquia nunca mais foi a mesma. A produção, que uniu a trama sombria dos primeiros quadrinhos ao humor do desenho, se tornou o filme independente mais bem-sucedido até então após lucrar mais de US$ 200 milhões nas bilheterias.

O final feliz e lucrativo da produção só foi possível após muito trabalho duro de seus realizadores. Questionado sobre a produção, Eastman não hesitou ao descrever a experiência como algo “muito assustador”: “Todos nós já vimos filmes com personagens ou elementos horríveis em que você não consegue embarcar. E o nosso só funcionaria se você olhasse para as Tartarugas na tela e acreditasse que elas são reais”.

A resposta para tornar o quarteto e seu mestre Splinter verossímeis foi a participação de um gênio chamado Jim Henson. Responsável por criar marionetes e efeitos especiais para produções como Os Muppets e Família Dinossauro, ele foi responsável por dar vida ao filme. “Logo no começo fomos incrivelmente abençoados por Jim Henson ter subido a bordo e construído esses personagens e a tecnologia para trazê-los a vida de uma forma que nunca poderíamos ter imaginado. Seu trabalho ao lado do diretor Steve Barron foi mágico”.

Empolgado e visivelmente emocionado, Eastman conclui agradecendo aos esforços de um dos mais amados profissionais da indústria. “Ele trabalhava em vácuo entre efeitos práticos e digitais, e tudo funcionava, cara! Acho que esse filme não teria funcionado de outra forma. Deus abençoe Jim Henson”.

Os grandes encontros das Tartarugas Ninja nas HQs

Desde então, as Tartarugas Ninja voltaram a aparecer em diversos filmes e desenhos animados. Porém, isso não quer dizer que elas tenham abandonado os quadrinhos, universo que segue em expansão. Alguns dos projetos mais ousados nas HQs são os crossovers, que colocam o quarteto para se encontrar com grandes franquias que vão de Caça-Fantasmas até Power Rangers e Arquivo X. Porém, nenhum deles fez tanto sucesso quanto Batman/Tartarugas Ninja:

“Foi uma surpresa enorme. Ele foi criado por dois grandes fãs: James Tynion IV, que atualmente escreve a revista principal do Batman, e o desenhista Freddy Williams, que tem um trabalho incrível. Foi fantástico porque eles conseguiram mesclar esses dois mundos perfeitamente. Estávamos preocupados se os fãs iam amar ou odiar, mas acabamos lançando mais duas sequências, então acho que ficou bom (risos)”.

Feliz com o resultado, Eastman refletiu ainda sobre como esses encontros impactam o legado dos personagens. “Quando surgem oportunidades de fazer encontros com personagens icônicos que foram uma grande inspiração, o cérebro congela porque você não os coloca na mesma categoria. Então é bacana contar essas histórias divertidas”.

Montagem com imagens do encontro entre Tartarugas Ninja e Batman

A HQ de Batman/Tartarugas Ninja fez tanto sucesso que foi adaptada em um filme animado

Divulgação/DC Comics

“Nós nunca esperamos por isso. E tem o fato de que continua a crescer e evoluir, sabe? Nunca quis comparar e dizer que estamos no mesmo patamar de Superman, Mulher-Maravilha ou Batman, mas, ao mesmo tempo, as Tartarugas agora têm mais de 35 anos e seguem envelhecendo com um público para elas. Então meio que chegamos nesse nível de ser ‘multi-geracional’, o que é fantástico”, celebrou.

Curiosamente, Eastman se mostra feliz até com os fracassos. Refletindo sobre o estado atual da franquia, o autor encontra pontos positivos até mesmo na recepção pouco calorosa dos filmes live-action produzidos por Michael Bay. “Podemos continuar fazendo filmes e desenhos animados e deixar para que o público decida se querem mais. É um fato de que os filmes de 2014 e 2016 não foram tão queridos pelos fãs. De repente eles queriam as Tartarugas mais ‘clássicas’ ao invés de modernas, então a mudança é constante”.

Hora da verdade: qual Tartaruga mais se parece com Kevin Eastman?

Não é comum conduzir uma entrevista em que o convidado parece tão feliz em falar sobre sua obra, então seria quase um desperdício não fazer uma pergunta mais pessoal. Se Kevin Eastman já havia revelado durante a CCXP Worlds que sua Tartaruga Ninja favorita é o Michelangelo, restou a pergunta: qual dos quatro irmãos mais se parece com ele?

“Sei que soa muito óbvio, e eu não quero parecer político aqui, mas acho que tenho um pouco de cada um deles. Eu e Peter Laird, como pais, amamos todos os nossos filhos, mas cada Tartaruga tem sua própria inspiração”, respondeu o quadrinista tentando sair pela tangente. Ao insistir na questão, ele passou a destrinchar de onde veio cada um dos irmãos.

“Donatello, por exemplo, é como o Peter: um cara da tecnologia. Ele foi o primeiro a comprar um computador e falar que essa seria a ‘nova onda’ (risos). Leonardo é inspirado no arquétipo do líder, enquanto Michelangelo é mais baseado no Robin Williams - que considero a pessoa mais engraçada no planeta”.

Por fim, a verdade: “Então acho que quem mais puxou a mim foi o Raphael. Claro que ele faz coisas que eu não faria, porque ele é totalmente durão e vive num modo quase Wolverine. Mas ele tem uma personalidade exagerada, podendo ficar um pouco mais sombrio ou contemplativo às vezes. E isso é algo que eu tenho e mesmo sem poder dizer que sou ‘completamente Raphael’, acho que ele tem um pouco de mim”.

Foto de Kevin Eastman em entrevista ao Omelete

Kevin Eastman em entrevista ao Omelete

Divulgação/Omelete

Sobre a coluna:

O Banca de HQs é um projeto do Omelete criado por Gabriel Avila, Nicolaos Garófalo e Load Comics, com o objetivo de falar mais sobre o universo dos quadrinhos, desde os grandes clássicos, passando por artistas independentes e novidades desse meio. Após uma primeira temporada na Twitch, o Banca segue no Omelete com entrevistas, reportagens e análises semanais de tudo o que faz parte do universo dos quadrinhos.

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