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Crítica

Pam & Tommy seria ótima se não fosse tão hipócrita

Para compensar falta de autorização de Pamela Anderson, série faz da atriz um anjo - e desumaniza a maior vítima de sua história

09.03.2022, às 11H49.
Atualizada em 09.03.2022, ÀS 12H08

Comecemos pelo fácil: Pam & Tommy é, narrativamente, ótima. A trama da “maior história de amor já vendida”, focada na fita de sexo vazada de Pamela Anderson e Tommy Lee, é uma produção estilosa, com um ótimo elenco, boas direções e incita um sentimento de curiosidade imediato. Complementada pelo apelo da nostalgia dos anos 1990, traduzido naqueles elementos mais claros - moda e trilha sonora - mas também em ritmo e linguagem, Pam &  Tommy é uma produção certeira, quase fácil. É uma pena, no entanto, que ela seja tão hipócrita. 

Sim, e aqui, um parágrafo depois de encher a produção de elogios, chegam as partes difíceis de engolir de Pam & Tommy. Sua pretensão de bondade, aspiração de verdade (sem nenhum aviso de ficção, diga-se de passagem), e sua completa prepotência sobre os sentimentos da figura a quem mais busca agradar: Pamela Anderson. Isso acontece porque Pam & Tommy é, indiscutivelmente, um produto que tira vantagem do crime que aconteceu em 1995. E sem a autorização da figura principal da série (Pamela Anderson, supostamente, não quis reviver um dos piores acontecimentos de sua vida), Pam & Tommy rapidamente colapsa em si mesma, e se torna um produto paradoxal. 

O problema principal aqui - no que se refere ao que prejudica a produção, e não em termos morais - não é exatamente a falta de consentimento ou a distorção da realidade. Mas sim o descolamento que a falta de autorização de Anderson causa na história. Talvez por reparação, ou por busca de simpatia, Pam & Tommy faz de Pamela (Lily James) uma figura perfeita, em um contexto em que ao ladrão da fita Rand Gauthier (Seth Rogen) e para Tommy Lee (Sebastian Stan), figuras muito mais controversas, são permitidas diversas facetas. Aqui, a protagonista acaba como o indivíduo menos real de Pam & Tommy, e enquanto Gauthier e Lee têm permissão para brincar com todas as cores, Pam é restringida ao cor de rosa e azul claro.

A unidimensionalidade de Pam

No sexto episódio, acompanhamos a dolorosa audiência que Pamela Anderson precisou passar em seu processo contra a Penthouse, que ameaçou usar as imagens de seu vídeo roubado em seu conteúdo pornográfico. É uma cena brutal (em parte, novamente, pela boa direção de Hannah Fidell e atuação surpreendente de James), que transmite o soco na barriga que Anderson deve ter sentido ao responder tantas perguntas intrusivas e injustas. Este é o momento mais trágico de Pam & Tommy. Aqui, Pam é retirada de todos os seus direitos e privacidade, para apenas ser rejeitada no fim do processo e forçada a encarar sua nova realidade, uma com a qual viveria para sempre. 

E é precisamente neste momento que a hipocrisia de Pam & Tommy se torna inescapável. A série busca, insistentemente, durante os seus oito episódios, criar uma imagem inocente de Anderson, uma mulher injustiçada, a primeira vítima gigante de um vídeo íntimo roubado, ou, em palavras claras, de revenge porn. Acontece que, em 2022, a realidade de Pamela é quase a mesma. A atriz de Baywatch nunca recebeu compensação válida pelo que passou, e este ano, ela segue como testemunha de sua própria vida e sofrimento, utilizados para entretenimento novamente. E você pode retratar Anderson com a mais pura bondade, mas tentar demonstrar sua tristeza ao mesmo tempo que se tira proveito da mesma sensação é insustentável. 

E para completar o que a série faz com a profundidade de Pam, nesta mesma cena, depois de todos os advogados terem deixado a sala, Anderson é deixada sozinha quando uma faxineira entra no escritório. “Desculpe pela bagunça que fizemos”, diz a atriz à funcionária. É claro que Anderson pode ser uma pessoa angelical como Pam & Tommy pretende retratar. Mas sua perfeição absoluta neste contexto não deixa de soar como acentuação de injustiça, como se uma mulher precisasse ser bela, recatada e perfeitamente educada para merecer empatia. E o que aconteceu com Anderson seria absurdo independentemente de sua personalidade ou boa educação. 

É uma pena. Existem diversos acertos na série do Star+, e é preciso tirar um momento aqui para falar da atuação sensacional de Sebastian Stan. Sua entrega a um personagem tão polêmico e tão adorável é, em parte, pelo leque de sentimentos que foi lhe dado (e o mesmo não pode ser dito para Lily James), mas Pam & Tommy estabelece Stan como um dos grandes de sua geração. Ainda, o romance e a química entre os protagonistas, que nos leva para uma época de polêmicas, de amor rock n’ roll, é também um dos triunfos da produção, que entende perfeitamente o apelo do romance controverso. 

Mas retornando a outra das qualidades de Pam & Tommy, sua habilidade de incitar curiosidade, a série também, claro, coloca o vídeo íntimo novamente em evidência. Em determinado momento, a ex-esposa de Gauthier, Erica (Taylor Schilling), faz um discurso sobre o valor artístico da fita, das decisões de direção de Pamela Anderson, e sob a camada de boas intenções a série retoma o interesse, novamente, em um conteúdo que deveria ser privado. É um bom exemplo do paradoxo aqui: no fim das contas, não há como escapar do buraco em que Pam & Tommy se enfia.  

Nota do Crítico
Bom