Séries e TV

Crítica

Loki batalha e vence a ironia em temporada provocativa

Seriado faz da defesa da imaginação toda a sua razão de ser

14.07.2021, às 10H16.
Atualizada em 14.07.2021, ÀS 13H49

Como numa boa metanarrativa, eventualmente algum personagem falaria em Loki que o importante não é o destino, e sim a jornada. Isso acontece no sexto e último episódio desta primeira temporada, que monta num mezzo reboot a base para que o Multiverso se estabeleça no MCU, o que pode levar a Guerras Secretas como uma próxima grande saga e justificar no futuro a apresentação dos X-Men e do Quarteto Fantástico.

Que antes de Loki a possibilidade de ramificações da timeline principal já estivesse na cabeça dos fãs (quantos desfechos de histórias possíveis Steve Rogers alterou ao voltar ao passado em Ultimato?) é basicamente um atestado dessa natureza cíclica da narrativa. Reclamar que na Marvel nada muda no final é desconhecer essa natureza, pela qual reza toda a cultura dos quadrinhos americanos de super-heróis. Dizer que o destino é menos importante que a jornada é uma forma de justificar décadas de histórias que vivem suspensas no tempo, com personagens que não envelhecem, e que periodicamente precisam recomeçar de onde vieram.

Loki começa explicando uma guerra multiversal, na primeira tour que recebemos pela TVA, e ao final voltamos a esse mesmo ponto. O que aprendemos, portanto? Ora, para o fã que já aguarda o Multiverso com o calendário do MCU nas mãos, talvez a temporada tenha sido mesmo uma reiteração do óbvio, repleta de diálogos de divã e uma ou outra brincadeira de gênero, como a corrida no fim do mundo ou a fantasia medieval contra o dragão de fumaça. A questão é saber o que Loki, o personagem de Tom Hiddleston apresentado como vilão e redimido como herói, aprendeu com tudo isso.

E nesse ponto a temporada exercitou de forma bastante consistente, e até empolgante, a tal metanarrativa. A partir do momento em que Loki se descobre um peão num tabuleiro muito maior que os Nove Reinos - em que ele se descobre um personagem de ficção, em outras palavras - e a própria busca pelo livre arbítrio se torna o seu objetivo, o seriado não poderia ser outra coisa senão um grande comentário sobre a jornada. 

Numa era do consumo pós-irônico, é preciso que personagens se vacinem primeiro contra a ironia e se dispam da descrença antes de voltar a pleitear um lugar no drama, no ficcional. É por isso que tantos seriados animados hoje, como o recente Midnight Gospel, precisam primeiro acessar a comédia antes de abraçar o drama. Quando a ironia é desarmada - um processo invulgar que Loki realiza corajosamente em dois ou três episódios sem eventos com Mobius e Loki testando-se e trocando mentiras até a exaustão - aí então a coisa se abre de fato. O que vem depois são pontos de virada feitos essencialmente de momentos em que os personagens reconhecem e reconquistam sua capacidade imaginativa (“Talvez a gente possa fazer mais do que pensávamos”, diz Loki no clímax do quinto episódio).

Esses diálogos parecem tirados de alguma cartilha de auto-ajuda, sim, e a própria ideia de recorrer à metalinguagem no subgênero da viagem no tempo está bastante batida hoje em dia (não se espante se você se lembrar de De Volta para o Futuro ou Twin Peaks na última cena de Loki). No fim, reconhecer esses lugares-comuns e enxergar as cordas que estão puxando a marionete só valorizam o que Loki mostrou de melhor, que é a crença realmente nas convenções da ficção e da Jornada do Herói. É uma crença de que essas convenções, quando usadas com convicção, são imunes à ironia e se aplicam nas situações mais variadas - e isso permite ao fim que Loki fale sobre empoderamento feminino sem precisar recorrer a memórias de abuso e seja ao mesmo tempo um romance de cavalaria idealizado em que o mocinho pode se apaixonar, conquistar a donzela e ter seu coração partido de forma convincente, verdadeira. 

Nota do Crítico
Ótimo