Desejo Sombrio/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Desejo Sombrio - 1ª Temporada

Produção mexicana com ex-RBD une de forma peculiar o drama novelesco e a estética seriada

20.07.2020, às 12H02.

Em todos os inícios de episódio da série Desejo Sombrio um teaser de poucos minutos prepara o espectador para o que está por vir. São sequências, em sua maioria, contemplativas, que olham para a narrativa com um objetivo analítico. No que abre o episódio dezoito, último da temporada, a protagonista Alma (Maite Perroni) fala sobre como a ideia de completude está sempre tão ligada ao sucesso afetivo, principalmente para algumas mulheres, que se deixam afetar terrivelmente por esse estruturalismo cultural. É quase uma espécie de mea culpa. A vida de Alma vira de cabeça para baixo justamente porque ela – mesmo sendo uma estudiosa do assunto – não consegue evitar o impulso.

Desejo Sombrio chega até a Netflix com dois grandes atrativos: o erotismo de sua linguagem e a presença de Maite Perroni, ex integrante da novelinha mexicana Rebelde. No primeiro caso a série revela ser somente mais um braço da correnteza que populariza produções de língua espanhola ao redor do mundo. De fato, são muitos os códigos narrativos que a aproximam de outros títulos como Elite, Vis a Vis, Toy Boy e La Casa de Papel, por exemplo. Sexo, violência e um mistério a ser desvendado, um crime a ser esclarecido. Embora os países de origem sejam diferentes, todos esses títulos compartilham de uma realidade: nunca as produções latinas foram tão populares em solo internacional quanto agora. E em time que está ganhando não se mexe.

A presença de Maite Perroni no elenco pode não agradar os fãs de RBD. Além da atração ser extremamente adulta, a atriz não está determinada a conquistar a audiência como geralmente acontece em produções teen. Ela construiu uma protagonista tensa e muitas vezes antipática, o que em muitos momentos atrapalha os espectadores na tarefa necessária de se torcer por alguém. Todo mundo em Desejo Sombrio está sob suspeita e dessa reunião de tipos dissimulados, provavelmente apenas Zoe (Regina Pavón), filha da personagem de Maite, escapa. Esse é outro ponto importante da série: a necessidade de abordar o mistério afasta os personagens do público.

O mistério em questão envolve a morte de Brenda (María Fernanda Yepes), melhor amiga de Alma. Desconfiada de que está sendo traída pelo marido Leonardo (Jorge Poza), Alma vai passar um fim de semana com a amiga e lá conhece o misterioso Dario (Alejandro Speitzer), com quem acaba tendo uma noite de bebedeira e sexo casual. O problema é que logo que o fim de semana acaba, Brenda aparece morta na banheira, depois de ter aparentemente cometido suicídio. A série, então, começa um vai e volta de suspeitas que insinuam que a morte de Brenda está ligada a Alma, Dario, Leonardo e também a Esteban (Erik Hayser), cunhado de Alma, que perdeu a carreira na polícia após um tiro na perna que o deixou manco.

Sombrios

Do título ao texto muitas vezes brega, Desejo Sombrio flerta com o folhetim. Isso, contudo, não atrapalha o desenvolvimento visual da série, que constrói uma estética que não fica devendo nada a produções americanas. Embora a temporada seja longa, com 18 episódios, cada capítulo tem no máximo 30 minutos e isso ajuda a manter o ritmo em alta. A questão é que estamos falando de uma narrativa muito dependente do mistério e isso sempre é um problema para todo título que se apoia no gênero. Sempre temos quatro ou cinco viradas realmente originais e o restante são tentativas muitas vezes toscas de manter os ganchos vivos.

A criadora Leticia Lopéz Margalli está segura do que quer dizer, tem uma história sobre feminicídio que é consciente de tudo que está em vigência nas discussões sócio-políticas sobre o assunto. A resolução do mistério da morte de Brenda, inclusive, transmite uma imensa tristeza justamente porque muitas vezes a mulher não precisa ser morta pelas mãos de um homem. As mulheres podem ser mortas pouco a pouco, dia após dia. Desejo Sombrio cavuca de modo intrigante esses códigos, nos provoca com a ideia de inevitabilidade, critica os personagens por ignorarem o próprio discurso. Mas, as artimanhas para surpreender o público são tantas, que o tiro acaba saindo pela culatra.

Mesmo que possamos dizer com segurança que a edição é ousada, ela também pode ser confusa. As muitas versões da mesma história tem suas sequências apresentadas e em muitos casos se misturam com a versão original. Pedaços de acontecimentos passados ou futuros são misturados a sonhos e devaneios, em montagens que desafiam a atenção do público, ainda que enganem, deliberadamente, algumas expectativas. Um dos grandes problemas (e que As Telefonistas, da Espanha, também tem em comum com os outros títulos já citados) é a quantidade absurda de vezes em que as mortes são forjadas pelo final do episódio, só para serem anuladas no seguinte. Depois de dar certo algumas vezes, o recurso fica rapidamente cansado.

As portas para a segunda temporada ficam abertas, mas com viradas absolutamente impossíveis e esdrúxulas. Desejo Sombrio é uma série com muito potencial, mas totalmente escravizada aos mistérios que propõe. Esperta ao falar sobre relações tóxicas e abusivas, a produção não percebe que está intoxicando a si mesma.

Nota do Crítico
Bom