Imagem de Desejo Sombrio

Créditos da imagem: Desejo Sombrio/Netflix/Divulgação

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5 motivos para o sucesso de Desejo Sombrio

Série mexicana se revelou um dos maiores fenômenos de streaming no Brasil

Henrique Haddefinir
29.07.2020
12h00
Atualizada em
29.07.2020
12h11
Atualizada em 29.07.2020 às 12h11

Desejo Sombrio, criação da mexicana Leticia López Margalli, já carrega em seu título uma grande parte de seu DNA. “Desejo Sombrio” poderia ser o título de qualquer novela importada para a programação do SBT em tardes ou noites diárias.

É um título que carrega a obviedade da própria linguagem, que informa de maneira direta ao espectador que aquele é um produto que reúne elementos misteriosos e sexuais. Talvez, então, esse seja um dos primeiros pontos cruciais que justificam o sucesso da atração que, desde que ficou disponível no Netflix, não saiu das primeiras posições entre os mais vistos da plataforma. Mas, de onde veio tanto apelo?

É claro que devemos considerar o momento que estamos vivendo no comércio de produções latinas propostas pelo streaming. Desde La Casa de Papel as portas se abriram de maneira surpreendente e o interesse do público por séries faladas em espanhol cresceu consideravelmente.

Logo em seguida, As Telefonistas, Elite e Toy Boy foram mais alguns dos títulos com números impressionantes. Contudo, diante de um conteúdo dramaticamente muito forte, é notório que a popularidade de Desejo Sombrio se tornou um tópico intrigante. Pensando nisso, vamos analisar a produção a partir de cinco motivos que podem estar por trás desse imenso sucesso.

Erotismo

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Desejo Sombrio/Netflix/Divulgação

Talvez essa seja um dos pontos principais do apelo da série. Sabemos que, historicamente, o sexo sempre foi usado para atrair espectadores em todo tipo de gênero narrativo. Muitas vezes, roteiros frágeis são disfarçados com o recurso erótico, que entra em cena como uma espécie de elipse dramatúrgica: tudo que acontece antes de uma explosiva cena de sexo pode ser perdoado diante da exibição dos corpos padronizados dos astros de uma produção. E o erotismo é usado de maneira muito calculada dentro do universo de Desejo Sombrio.

O que dá o pontapé para a trama é a noção de que o casamento da protagonista Alma (Maite Perroni) está em crise. Desconfiada de que o marido a está enganando, Alma decide dar vazão a uma fantasia de sexo casual durante um fim de semana com um amiga. Isso estabelece o tom de tudo desde o começo. As relações de Alma com todos os homens da trama estão pautadas em questões físicas. Ela fez sexo fora do casamento porque achou que o marido fazia sexo fora do casamento.

Em torno disso, está Brenda (Maria Fernanda Yapes), a amiga que incentiva a indiscrição e que tem sua morte constantemente atribuída a interferência de um homem. O cenário está pronto: a partir daí o roteiro tem uma base para justificar uma infinidade de sequências eróticas que precisam estar ali para manter a ligação entre desejo e castigo, um dos maiores pilares da nossa cultura desde o início da era cristã.

Surpresas

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Desejo Sombrio/Netflix/Divulgação

Dentro do jargão seriado a palavra “cliffhanger” tem grande importância. Nesse momento em que a televisão está em plena ebulição e as séries se espremem nas grades em busca do mínimo de atenção, quem souber usar os cliffhangers a próprio favor sai na vantagem. O público precisa não resistir a esperar que a contagem regressiva até o próximo episódio chegue ao final. E se o erotismo pode ser uma muleta eficiente para uma história pobre, ele pode ser um bônus precioso para tramas que consigam equilibrá-lo com boas reviravoltas. Desejo Sombrio faz desse equilíbrio a sua grande missão. E muitas vezes peca pelo excesso.

Em uma temporada de 18 episódios – considerada longa para os padrões atuais – segurar a atenção do espectador é uma tarefa complicada. Contudo, ninguém pode culpar a série de não buscar isso com respeitável afinco. De fato, um de seus problemas é justamente a necessidade de surpreender a cada novo ato, o que nem sempre funciona para a fluidez da história.

Mortes que não acontecem ou suspeitas que ficam pulando de um personagem para o outro a esmo, são alguns dos elementos que se cansam na temporada. O mais curioso é que, ainda assim, a série se estrutura de uma forma que torna quase impossível não continuar assistindo, episódio após episódio, numa ânsia de tentar desvendar o labirinto em que estão os personagens, mesmo que você saiba que 99% daquelas saídas são deliberadamente falsas.

Quem matou?

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Desejo Sombrio/Netflix/Divulgação

Muitos desses mistérios propostos pela narrativa de Desejo Sombrio estão focados na morte de Brenda e isso carrega a trama até o seu final. O recurso já é um velho conhecido nosso. As novelas brasileiras são campeãs e o tornaram clássico depois que o país parou para saber “quem matou Odete Roittman”. De lá pra cá, não importa o quanto o público reclame da recorrência, no dia da revelação do assassino todos estão diante da TV querendo saber se apostaram nas suspeitas certas ou se foram enganados pelo enredo. Por tradição, poucas vezes os autores se preocuparam com a coerência. O mais importante era a surpresa.

O “Quem Matou Brenda” é uma parte importante de Desejo Sombrio. Do jeito que tem que ser, as suspeitas vão passando de mão em mão, muitas vezes nas mesmas mãos em pontos diferentes da temporada. Mas, sua resolução é um dos grandes acertos da série. Ver os personagens se aproveitando do mistério para seus próprios interesses não deixa de ser original, uma vez que o segredo que envolve a morte da personagem está ligado a questões que vão além do mero suspense.

O sombrio do desejo

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Desejo Sombrio/Netflix/Divulgação

Ainda que o mistério e o sexo sejam elementos de apoio para a série, existe vida além desse apelo mercadológico e que reside principalmente na maneira como Brenda é descrita e justificada na temporada. Alma sempre aparece falando com seus alunos sobre o feminicídio, mas não só sobre a natureza obscura das relações de abuso. Existe uma presença constante da ideia de que tudo aquilo de ruim que está acontecendo surgiu como uma punição contra uma mulher que decidiu fazer sexo casual, fora do casamento. Ao final a série corrige esse curso quando revela os motivos que estão por trás das ações de Esteban (Erik Hayser). Porém, fica por ali um resquício de que o tal desejo sombrio é o de Alma pelo jovem Dario (Alejandro Speitzer). De que o desejo sexual feminino está na obscuridade.

De forma inteligente, mas que poderia ser muito mais aprofundada, a série faz constantes analogias da relação entre relacionamento e sucesso pessoal, colocando em discussão a pressão cultural que existe sobre as mulheres para que elas preencham esse aspecto das próprias vidas – e da forma mais tradicional possível. É essa pressão que persegue Brenda, que persegue Zoe (Regina Pavón) e que coloca sobre Alma a responsabilidade pelas mazelas que vive por causa daquela noite. A falha talvez esteja em não ter dado a esses pontos o mesmo destaque que foi dado ao mistério e ao erotismo. Em alguns momentos parece que a série presta um serviço sem saber que está fazendo isso, o que é uma pena. O potencial é imenso.

Rebelde

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Desejo Sombrio/Netflix/Divulgação

O fato de Maite Perroni ter sido uma ex-RBD ficou por último porque quando todo esse entorno é colocado em perspectiva, esse histórico fica parecendo um detalhe menor. Contudo, é inegável que para o público da atriz que a conheceu por conta da novelinha, essa nova presença tão adulta e sensual desperta uma curiosidade natural.

Maite é um rosto que atrai a atenção de uma geração inteira, mas o desafio que é feito com a presença dela é justamente o de mudar sua imagem, é o de não fazer qualquer ponte com seus trabalhos anteriores, o que, inclusive, ela consegue fazer.

Enfim, todo o sucesso que a produção conquistou não deixa de ser uma importante plataforma que está disponível por todas essas razões e que merecia ser mais atenciosa também por causa de todas elas. Desejo Sombrio é sim uma novela com bastante verniz visual, mas se uma segunda temporada realmente acontecer, há muito mais o que se falar.