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Crítica

A Garota Invisível | Filme teen da quarentena falhou em ser brasileiro

Reproduzindo clichês de filmes adolescentes americanos, produção da Netflix gravada na pandemia não convence

05.03.2021, às 17H28.
Atualizada em 05.03.2021, ÀS 18H34

Até que você dê play em A Garota Invisível na Netflix, é possível acreditar que este é um filme teen americano. Nome, marketing, pôster e até a caracterização dos personagens se assemelham muito a outros títulos na plataforma, como Para Todos os Garotos que Já Amei e O Date Perfeito. Estranhamente, depois de começar a assistir e perceber que se trata de uma produção brasileira, tudo na história continua soando “muito estrangeiro”.

É preciso, primeiramente, reconhecer o esforço do diretor Maurício Eça e de toda uma equipe trabalhando durante uma pandemia e rodando um filme remotamente. A maioria dos cenários são reais - os apartamentos dos atores - assim como as interações, boa parte por telefone ou chamadas de vídeo montadas na história. Como se o cinema nacional já não tivesse suas dificuldades, não é mesmo?

Mas a falta que se sente assistindo a A Garota Invisível é justamente da brasilidade. Não seria preciso nada caricato (na verdade, nunca é), já que a história se passa em torno de adolescentes de classe média-alta, com acesso a internet e vivendo em grandes cidades. Esse é mesmo um público que consome filmes americanos e se influencia pela globalização online.

Inclusive, é online que as confusões começam para a protagonista Ariana (Sophia Valverde, de As Aventuras de Poliana). Ela acaba se declarando sem querer para o crush da escola, Khaleb (Guilherme Brumatti), que acabou de terminar com a garota popular da escola, Diana (Mharessa Fernanda).

Ariana comemora a notícia do término, que obviamente está por todos os cantos das redes sociais, e inicia, sem perceber, uma transmissão ao vivo que mostra toda a sua empolgação com Khaleb. O desastre acaba virando uma oportunidade para ela sair com o carinha dos sonhos, ao mesmo tempo em que não percebe que o amigo Téo (Matheus Ueta) está apaixonado por ela.

O conceito de friendzone já passa como batido e desconexo com a realidade - as garotas das novas gerações já sabem que não têm obrigação alguma de ficar com um garoto porque ele é legal com ela, assim como eles deveriam saber que tratar bem as amigas é o mínimo. Mas esse clichê até pode ser perdoado quando se descobre que Khaleb não é um candidato páreo para Téo.

Há outras estranhezas, como uma personagem mirim que aparece sem ser introduzida e é capaz de resolver muitos conflitos entre personagens, ou ainda números musicais que começam sem nenhum preparo para a audiência.

Mas o que realmente tira A Garota Invisível de um contexto próximo à realidade de jovens brasileiros como os descritos são os diálogos do filme. Tudo parece muito ensaiado - talvez até ensaiado demais - e tirado de filmes dos anos 1980, com uma linguagem forçada e desconexa.

Perto disso, o fato de que o filme termina sem um único beijo acaba não sendo estranho, principalmente considerando o contexto de distanciamento social que estamos vivendo. Mas nada disso deveria justificar a linguagem engessada presente em A Garota Invisível, já que muitas outras produções já vinham usando recursos que reproduzem as interações online em suas narrativas.

Nota do Crítico
Regular