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Por que a saída de criadores do live-action de Avatar é um péssimo sinal

Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko deixaram adaptação da Netflix por “diferenças criativas”

13.08.2020, às 17H25.
Atualizada em 28.07.2022, ÀS 09H59

Diferenças criativas talvez sejam a maior praga da indústria do entretenimento. Nos últimos anos, diretores como Edgar Wright, Tim Miller, Patty Jenkins, Danny Boyle, Phil Lord e Chris Miller deixaram franquias bilionárias por causa de produtores que não aceitavam as visões que os cineastas traziam ao set. Tentando amenizar os danos, estúdios e agentes constantemente alegam “carinho” pelos nomes demitidos e reforçam que a produção simplesmente seguirá “um caminho diferente”. O caso mais recente aconteceu nesta quarta-feira (12), quando Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko anunciaram sua saída da adaptação em live-action de Avatar: A Lenda de Aang, uma das melhores e mais influentes animações do século XXI, criada pela dupla no começo dos anos 2000.

Diferente de outros casos, no entanto, os idealizadores do desenho saíram atirando da série da Netflix. Em um post no Instagram, Konietzko foi além das diferenças criativas e acusou a gigante do streaming de não respeitar o espírito e a integridade da franquia. Em seu perfil, DiMartino também comentou a saída do projeto, afirmando que o que quer que seja levado às telas, não será o que eu e Bryan planejamos ou tínhamos a intenção de fazer”.

Como jornalista de entretenimento, não vi a saída da dupla como algo incomum. Como disse no começo do texto, nenhum nome da indústria é “indemissível”. Agora, como fã de Avatar, não tinha como receber essa notícia sem um gigantesco sinal de alerta. Não que eu estivesse 100% confiante no live-action, mas o envolvimento de DiMartino e Konietzko me permitia imaginar uma produção no mínimo mais fiel do que O Último Mestre do Ar de M. Night Shyamalan. Com os posts dos criadores, esse pensamento foi pro buraco.

De uma vez só, traumas do filme de 2010 e das adaptações fraquíssimas que a Netflix produziu de Punho de Ferro e Death Note voltaram à minha cabeça. Para mim, parece que o streaming está ligando só e apenas para o título da franquia, abrindo mão do encanto que os criadores proporcionaram à série. Nas redes sociais, vi fãs e críticos que, já desconfiados do live-action, deixaram qualquer esperança de uma adaptação fiel para trás.

Essa reação é inteiramente justificável quando se leva em conta que as “diferenças criativas” questionam escolhas dos próprios criadores da franquia, que passaram os últimos 12 anos expandindo o mundo de dobradores em gibis, jogos e na subestimada sequência televisiva A Lenda de Korra. DiMartino e Konietzko respiram Avatar há quase duas décadas e, mais uma vez, têm suas decisões negadas por um estúdio que até então nunca se envolveu com a franquia. A barreira imposta pela Netflix preocupa não só para esta adaptação, mas para qualquer outro remake produzido pelo selo.

Como Shyamalan bem sabe, adaptar Avatar não é uma tarefa fácil. Enquanto a trama da série é cheia de nuances, proporcionadas não só pelo criador, mas pelo showrunner Aaron Ehasz, a animação tem cada detalhe visual extremamente bem planejado. Sem DiMartino e Konietzko, recriar o encantamento do desenho original se torna quase impossível.

Não que Avatar seja intocável, mas é preocupante saber que um título que marca a vida de crianças e adultos há 17 anos pode ser descaracterizado mais uma vez porque chefões de estúdio não quiseram ouvir aqueles que mais entendem sobre a franquia. Se de fato o live-action está seguindo uma direção oposta do espírito e a integridade da franquia, a série está fadada a repetir o erro de O Último Mestre do Ar e incontáveis outras adaptações que não entenderam o significado das obras originais.

Preocupados mais com a integridade de sua obra do que com uma possível relação futura com os grandes estúdios de Hollywood, DiMartino e Konietzko deixam um alerta para qualquer outra mente criativa que vá ceda seus trabalhos à Netflix. Embora facilite o acesso de fãs à Lenda de Aang, a plataforma está um passo mais perto de desperdiçar a chance de apresentar Avatar para uma nova geração.