Quando um filme como Union County se apresenta para o cinéfilo mais experiente, ele sabe exatamente o que esperar. O drama sobre vício, afinal, segue uma cartilha bem definida, na qual é essencial também certo cinismo: especialmente nos últimos anos, a moda acadêmica tem sido propor o vício como beco sem saída, a recaída como nota final de uma sinfonia de miséria. De Réquiem Para um Sonho a Urchin, passando por Querido Menino e O Retorno de Ben, o cinema do século XXI alerta para os perigos das drogas sem mostrar a recuperação como um caminho viável – e a repetição desse padrão não só tem se tornado modorrenta, como também argumentavelmente nociva.
Felizmente, Adam Meeks tem outras coisas em mente. O diretor e roteirista, que expande aqui o trabalho de um curta-metragem também batizado Union County (2020), centraliza a sua história em um grupo governamental de assistência a ex-presidiários viciados, na zona rural do Ohio (EUA), onde um juiz e um grupo de assistentes sociais oferece moradia, direcionamento empregatício e apoio emocional para pessoas que buscam reconstruir uma vida dilapidada pelas drogas. E Meeks ainda utiliza integrantes e funcionários reais do programa para o elenco coadjuvante, povoando o mundo ao redor de atores profissionais como Will Poulter e Noah Centineo. A recuperação, enfim, é a razão de existir do filme.
Daí que a estrutura de Union County é quase o reverso do que vemos nos outros filmes que citamos lá em cima. Conhecemos Cody Parsons (Poulter) e seu irmão adotivo, Jack (Centineo), já na estrada da sobriedade – e a recaída, embora seja parte da história de ambos, acontece não num epílogo desesperançoso, mas no primeiro ato, como maneira de nos levar de volta ao ponto inicial desse caminho, agora já familiarizados com os personagens. O restante do longa acompanha os dois (com foco bem maior em Cody) enquanto navegam com dificuldade os destroços que deixaram, e lutam para aceitar a possibilidade da paz como caminho diferente daquele que conhecem.
O texto de Meeks desenha essa jornada com a propriedade de quem imergiu nela, aproveitando-se do selo de autenticidade emprestado pela ambientação real e pelo elenco não profissional para seguir o comendável tom de “pé-no-chão” da história sem simplificar demais a linguagem. Union County sabe que precisa construir relações dramáticas, apostar no carisma de seus astros, encontrar rimas visuais que o ajudem a se comunicar com o espectador – fazer, enfim, tudo o que faz uma boa história. Ser cinemático não tira dele a contundência, e ser contundente não tira dele o cinemático.
Nesse equilíbrio é que brilha uma performance como a de Poulter, reservada e crível tanto quanto pode ser abertamente dramática, nos momentos em que o filme exige. Mas acima de tudo ele é sólido, um ponto de apoio confiável para colegas de cena rodopiarem em diferentes direções, especialmente as mulheres do filme: Elise Kibler (como Anna, a aspirante a psicóloga com quem Cody ensaia um romance), Emily Meade (como Katrina, a ex-cunhada do protagonista) e Annette Deao (vivendo uma versão de si mesma, assistente de tribunal do programa de recuperação) desenham em Union County retratos pulsantes de dilemas do vício que pouco encontram espaço no cinema.
O filme de Meeks é sobre o que podemos deixar para trás quando “mudamos de vida”, e o que vai nos perseguir para sempre. Sobre a necessidade de ficar, e a ânsia de partir. Sobre quem se compromete com a primeira, e quem cede à segunda. Ao escolher explorar o que acontece depois do momento em que tantos outros dramalhões sobre drogas acabam, Union County encontra impacto, novidade e valor dramático. É mais do que o subgênero tem feito nos últimos tempos.
*Union County foi exibido no Festival de Sundance 2026. Ainda não há previsão de estreia para o filme no circuito comercial brasileiro.