Divulgação/20th Century Fox

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Como Borat mudou minha 7ª série - e possivelmente minha vida

Falso documentário de Sacha Baron Cohen me ensinou a reconhecer sátiras e preconceitos

17.10.2020, às 18H30.
Atualizada em 21.10.2020, ÀS 16H10

O ano era 2009. A música se despedia de Michael Jackson enquanto era apresentada a Justin Bieber; Avatar e Harry Potter dominavam as bilheterias; Ronaldo Fenômeno garantia uns títulos para o Corinthians, meu time do coração. As coisas iam bem, no caso tão bem quanto poderiam ir para um moleque de 12 anos, cujas grandes preocupações eram tirar notas boas e zerar o game Batman: Arkham Asylum. Até que na noite de 26 de outubro a Rede Globo exibiu Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América na Tela Quente, e o filme mudou minha vida para sempre.

É claro que como todo evento de proporções gigantescas, só fui perceber as consequências depois. Exatamente um dia depois. Por puro acaso, minha sala quase inteira havia assistido às peripécias do repórter vivido por Sacha Baron Cohen e o resultado não poderia ser outro que não um bando de pré-adolescentes relembrando alguns dos momentos mais absurdos do filme e recitando suas falas. Sério, foi difícil desaprender a repetir “uau uau ui ua”.

No primeiro momento, a gente estava rindo do humor absurdo encontrado no filme. Desde a cena em que Borat (Cohen) e seu empresário Azamat (Ken Davitian) lutam pelados em um hotel, passando pelo absurdo de comprar um urso, até o clímax em que o repórter tenta sequestrar a atriz Pamela Anderson em um pedido de casamento bizarro. Tudo era tão, mas tão surreal, que era simplesmente hilário.

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Digo com 100% de certeza que a gente não sonhava com as polêmicas que o filme criou com o governo do Cazaquistão no mundo real ou seu sucesso nas bilheterias. Sinceramente não sei nem dizer se a gente tinha sacado que partes do documentário falso eram, de fato, verdadeiras. As vaias no rodeio, a sequência da igreja e até mesmo o jantar em que Borat leva uma prostituta como acompanhante realmente chocaram os envolvidos e renderam à Twentieth Century Fox uma vasta lista de processos. E a gente ali, rindo como se fosse só mais uma comédia.

Mas uma coisa que foi de entendimento geral foi o fator sátira. As piadas de Sacha Baron Cohen seguem uma estrutura que torna praticamente impossível confundir seu alvo. Quando Borat diz algo machista/homofóbico/antissemita, ele está claramente dizendo para o espectador que ridículo é quem fala e concorda com tais preconceitos.

Mais do que “lacração” - já que esse termo ainda nem existia -, essa escolha tinha um fator denúncia como o próprio ator relembrou ao New York Times. “Em 2005, você precisava de personagens como Borat, que era misógino, racista e antissemita para fazer as pessoas revelarem seus preconceitos internos”. E posso dizer por um punhado de moleques na 7ª série que funcionou.

Eu estaria mentindo se dissesse que 100% da ironia foi captada naquele momento. Há toda uma camada dedicada ao fato de que Borat vêm de uma cultura completamente diferente que - em sua versão caricata - ainda acredita em absurdos que os norte-americanos, que se consideram tão evoluídos e superiores, também concordam. A forma condescendente como muitas das pessoas reais o tratam se vira contra eles mesmos quando concordam com ideias tão primitivas e retrógradas.

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Mas uma porcentagem disso tudo certamente foi absorvida de imediato, e hoje vejo quão importante foi aprender a reconhecer discursos preconceituosos. Na vida real atos de intolerância não são nada engraçados, mas a mensagem de que são atitudes ridículas se faz mais presente do que nunca.

Ainda ao NY Times, Cohen refletiu que os preconceitos internos que o primeiro filme do Borat denunciava estão mais aparentes quase 15 anos depois. “Racistas sentem orgulho de ser racista”, afirmou. Por isso, ele decidiu retomar o bigode e o microfone em Borat: Fita de Cinema Seguinte, a aguardada sequência do filme de 2005. “Meu objetivo aqui não foi expor o racismo e o antissemitismo. O objetivo é fazer as pessoas rirem enquanto revelamos a perigosa queda para o autoritarismo”.

Ainda não sei dizer se o nosso querido repórter do Cazaquistão retorna em um filme à altura de seu antecessor. Mas espero do fundo do coração que esse longa tenha a coragem e o humor necessários para que mais e mais crianças da 7ª série possam ser influenciadas pela mente genial de Sacha Baron Cohen e sua insaciável fome por rir de quem merece.