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Artigo

Os X-Men de Chris Claremont e John Byrne

Conheça a dupla que revolucionou os mutantes da Marvel Comics

Pedro Hunter
09.05.2003
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h48
Atualizada em 29.06.2018 às 02h48


A reformulação mutante, por Wein e Cockrun. O desfecho da edição foi sugestão de Claremont.

Claremont assume em X-Men 94...

... e cria a Fênix é criada em X-Men 101.

Byrne entra na edição 108...

... e começa a dar relevância ao Wolverine.

Os X-Men viram Atrações de circo...

... e logo depois enfrenta Magneto.

Viajando pelo mundo, chegam ao Japão. Aparece Mariko Yashida pela primeira vez.

Confronto com o Arcade... calmaria antes das maiores sagas!

Surge Proteus!

É criado o Clube do Inferno e a Saga da Fênix Negra tem início

Estamos no distante ano de 1977. Guerra nas Estrelas é um sucesso no cinema. Nos quadrinhos, a veterana DC Comics luta para sobreviver enquanto sua principal rival Marvel Comics domina o mercado com séries como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e Vingadores. No meio desses gigantes, uma obscura publicação chamada X-Men, que nunca fizera grande sucesso em seus quase quinze anos de existência, estava para iniciar a escalada que a levaria ao topo da indústria de quadrinhos dos Estados Unidos.

Depois de anos sobrevivendo com reimpressões, X-Men tinha recebido nova vida em 1975, com uma reformulação promovida pela dupla Len Wein (escritor) e Dave Cockrun (desenhista). Ainda assim, continuava a ser uma revista bimestral de baixa vendagem, com míseras dezessete páginas por edição (o ponto mais baixo de páginas nas HQs americanas até hoje!). Wein seria substituído logo a seguir pelo então jovem escritor Chris Claremont, que conseguiu aumentar as vendas a ponto da editora tornar o título mensal. Nesse momento, surgiu uma nova dificuldade: Cockrun era lento demais para desenhar até mesmo aquela merrequinha todo mês! Um novo desenhista seria necessário.

Não foi preciso procurar muito tempo. Um artista já tinha se oferecido para a tarefa, o anglo-canadense John Byrne, fã da série desde seus primórdios e que já trabalhara com Claremont anteriormente em publicações como Marvel Team-Up e Punho de Ferro, nas quais demonstrara sua habilidade em desenhar os mutantes. Como arte-finalista, Byrne desejava utilizar seu parceiro em Marvel Team-Up, Dave Hunt, por acreditar que o nanquim deste lhe dava um estilo mais rústico, similar ao de seu predecessor Cockrun. O editor Archie Goodwin, porém, insistiu sabiamente no mais refinado arte-finalista Terry Austin, que trabalhara com a dupla em Punho de Ferro (revista cancelada por baixas vendas - irônico considerando o que estava por vir). E a equipe criativa se completou assim.

PATRÍCIOS SE AJUDAM

Na época, as personagens do título eram os veteranos Professor X, Ciclope, Jean Grey (então como Fênix) e os novatos Wolverine, Noturno, Colossus e Tempestade. Um antigo coadjuvante da série original - Banshee - fechava o elenco. Parece estranho nos dias de hoje dizer isso, mas o menos popular era... Wolverine! Nem Claremont nem Cockrun gostavam muito do nanico criado por Wein para uma história do Hulk. O mutante canadense estava prestes a sair da publicação! Foi salvo apenas pela entrada de Byrne, que não queria ver seu conterrâneo chutado da equipe.

A primeira revista em que a dupla trabalhou, Uncanny X-Men 108 (no Brasil, Almanaque Marvel 14, da Rio Gráfica Editora), era o final de uma longa saga em que os mutantes salvavam o universo da destruição. Aliás, a Fênix salvava o universo praticamente sozinha, exibindo poderes que relegavam seus colegas ao papel de meros coadjuvantes. Este acabaria se tornando o principal problema a assombrar os autores no futuro. O roteiro foi exclusivamente de Claremont, que o deu a Byrne todo pronto sem espaço para o ilustrador propor modificações. Com o tempo, os dois começariam a escrever a quatro mãos, o que resultaria nos atritos que levariam à futura dissolução da parceria.

A primeira sugestão de Byrne viria exatamente na edição seguinte. Como de hábito, ela envolvia Wolverine. A idéia era fazer o governo do Canadá enviar um super-herói local para levar o baixinho de volta a seu país na marra. O herói - James Hudson, o Arma Alfa - foi posto para correr pelos X-Men, mas voltaria depois com ajuda. Essa história finalmente chamou a atenção dos leitores para Wolverine e seu passado misterioso, característica que se tornaria um dos maiores atrativos do herói por muitos anos.

A próxima revista não seria de Byrne e Austin, mas sim uma de arquivo de Cockrun, encomendada tempos antes e precisava ser publicada para não ser jogada fora.

A CONQUISTA DOS FÃS

Depois dos primeiros passos hesitantes, a dupla Claremont/Byrne ganhou fôlego e iniciou uma seqüência de aventuras que deu impulso à série.

Depois de serem seqüestrados pelo vilão Mesmero para serem exibidos como atrações circenses, os X-Men travaram combate mortal com seu principal adversário, Magneto, e, após serem convenientemente separados de Fênix, iniciaram uma jornada pelo mundo que os levaria à Terra Selvagem, ao Japão e, finalmente, ao Canadá, onde enfrentariam a superequipe de Hudson (agora chamado Víndix), a Tropa Alfa.

É nestes arcos que a parceria se desenvolve. Os dois escritores se complementam com habilidade: Claremont administra com eficiência um grande elenco de personagens e tramas longas, enquanto Byrne contém os piores exageros de seu colega, garantindo que as histórias tenham conclusão e que os enredos das edições individuais sejam interessantes o bastante para os leitores desejaram acompanhar as sagas maiores. Byrne também era grande fã dos antigos X-Men e consegue que quase todos os integrantes da equipe original protagonizem participações especiais.

A prova do talento da dupla é que a Tropa Alfa, equipe criada apenas como um grupo de adversários para os X-Men, conseguiu ter mais de cem edições publicadas de seu próprio título; muito embora os dois criadores a considerassem um grupo de heróis menores, que não merecia revista própria (o que não impediu Byrne de trabalhar nela...).

Artisticamente, a publicação também estava em boas mãos. Os desenhos fugiam do padrão mais conservador que dominava as HQs americanas da época para um trabalho mais cartunesco, um pouco como o de Jack Kirby anos antes quando ajudou a criar a Marvel moderna, mas sem seus exageros. A arte-final de Austin dava ao lápis uma limpeza e precisão sem paralelo até então. Mesmo com todos esses méritos, foi necessário um longo tempo para os quadrinhistas conquistarem os fãs, tradicionalmente conservadores. Cartas pedindo o retorno de Cockrun seriam uma constante no decorrer das primeiras edições. Talvez por isso a Marvel tenha insistido durante muito tempo em usar outros ilustradores (Cockrun por norma) nas capas. Um desperdício, visto que Byrne, quando teve a oportunidade, mostrou-se um brilhante capista.

O único defeito da série, sempre presentes nas HQs de Chris Claremont, é o volume de diálogos. O roteirista incorpora muito da velha escola de escritores da Era de Prata, que joga volumes enormes de diálogos redundantes nas páginas. Vocês conhecem o estilo: a personagem fala eu estou escorregando em uma casca de banana enquanto o desenho a mostra... escorregando em uma casca de banana! Como os diálogos eram território exclusivo de Claremont, este manteve seus vícios. No entanto, era um problema menor em uma obra habitualmente excelente.

VIAGEM AO REDOR DO MUNDO E A DEFINIÇÃO DOS INTEGRANTES

Durante esse arco de histórias, estabeleceu-se outra característica: as brigas entre Ciclope, o líder super-herói mais tradicional e certinho da equipe, e Wolverine, o novato que detesta receber ordens e se prender aos padrões de comportamento tradicionais dos super-heróis. Além de brigarem pela mesma mulher, Jean Grey, e de seguirem filosofias diferentes, os oponentes também estavam de certa forma competindo para serem os protagonistas do gibi! Ciclope era o integrante de maior destaque desde a criação do título e seu status nunca fora ameaçado, mas Wolverine estava competindo pela popularidade dos fãs, com a ajuda de Byrne (que, na verdade, preferia o Ciclope, mas adotara Wolverine por motivos patrióticos) e de Claremont (que preferia Tempestade, mas acabou desenvolvendo maior afinidade pelo canadense do que pelo mais tradicional caolho). Como eram os heróis de maior destaque, sua rivalidade tornou-se parte essencial da revista, sendo, inclusive, adotada nas adaptações de X-Men para o cinema e animação.

Wolverine levava vantagem porque, diferente de Ciclope, tinha mais terreno inexplorado a percorrer. Ele matava (ou pelo menos tentava matar) seus inimigos, chamava a atenção revelando seu verdadeiro nome (Logan, tirado de uma montanha canadense), sabia falar japonês, apaixonava-se por uma jovem do Japão (em uma época em que nipônicos nas HQs americanas eram raridade). O heroizinho tinha muito mais espaço para revelações do que qualquer outro integrante da equipe e o ritmo constante delas mantinha o interesse dos leitores sem cansá-los.

Tempestade também recebeu bastante destaque nestas edições. Claremont revelou detalhes de seu passado como ladra nas ruas do Cairo, incluindo seu primeiro encontro com o Professor X. Porém todos os esforços do roteirista ainda não foram suficientes para colocá-la no mesmo patamar da dupla Wolverine/Ciclope. Os outros eram predominantemente secundários, em especial Banshee, que não era apreciado por nenhum dos dois criadores e logo sairia da equipe, e Noturno, que tivera muito destaque no tempo de Cockrun (do qual era a personagem favorita) e foi colocado em segundo plano deliberadamente por uns tempos.

UM INIMIGO REALMENTE SANGUINÁRIO

Depois de rodar o mundo, os X-Men voltam para casa, mas não encontram nem Fênix (ainda uma fonte de incerteza para os criadores) nem o Professor X. Ciclope, julgando que Jean Grey estava morta, flerta com a idéia de namorar Coleen Wing (coadjuvante da revista Luke Cage/Punho de Ferro, também escrita por Claremont e, por um breve período, desenhada por Byrne). Essa seria uma solução interessante para o problema Fênix. Afinal, se Jean não é mais a namorada de Ciclope, ela não precisa aparecer na série. A idéia, porém, é logo descartada (quem sabe por intervenção editorial). O ritmo das histórias sossega um pouco, com uma edição intimista centrada na caracterização dos heróis e um combate com o inexpressivo vilão Arcade (criado por Claremont e Byrne em Marvel Team-Up). Era apenas a calmaria que antecedia as maiores sagas da equipe.

A primeira destas grandes aventuras seria o enfrentamento com Proteus, um mutante que possuía corpos - descartados logo após sugar todas as suas energias - e manipular a realidade. Embora nada de excepcional nos dias de hoje, em que o típico herói do cinema deixa atrás de si um rastro de corpos maior do que a maioria dos vilões de antigamente, a trama foi tremendamente violenta para os padrões da época. Os X-Men já haviam enfrentado assassinos antes, mas eram típicos vilões de quadrinhos. Antes de matar alguém, faziam todo um teatro. Isso quando conseguiam matar, já que os heróis habitualmente os impediam. A maior parte das mortes acontecia off-camera (Fulano explodiu um prédio! Dezenas de pessoas foram soterradas!, mas não se via um único corpo...). Podia-se contar nos dedos até o número de vítimas que o terrível Magneto realmente matara.

Não era o caso de Proteus. Esse mutante matava para continuar vivo. Deixava uma trilha de corpos por onde passava e tinha como propósito matar os próprios pais! E não vivia dramas de consciência. Nesta saga, os X-Men enfrentam seu primeiro inimigo realmente sanguinário e, em um desfecho ainda mais heterodoxo para os padrões de então: matam-no deliberadamente como último recurso. E não foi um super-herói heterodoxo como Wolverine o responsável, mas o gentil Colossus, sob orientação do certinho Ciclope!

Ora, super-heróis tradicionais não matavam deliberadamente desde os anos 40 (quando Batman jogava bandidos do alto de prédios, e mesmo o bom e velho Super-Homem chegou a arremessar um meliante no caminho das balas!). Mortes acidentais de bandidos aconteciam muito raramente e, via de regra, eram fontes de angústia para os heróis envolvidos (o exemplo clássico foi a morte de Norman Osborn, o Duende Verde). Super-heróis não matavam e ponto. No entanto, Proteus foi morto, e os quadrinhos de super-heróis nunca mais seriam os mesmos. No futuro, com a ajuda de Hollywood e seus genocidas, o número de heróis que matam foi aumentando e levou à ascensão de anti-heróis como Justiceiro, Cable e a superequipe Authority.

Não é de surpreender que a história de Proteus seja a única que o amante da polêmica, Mark Millar, escritor do título Ultimate X-Men (uma versão modernizada dos mutantes), tenha adaptado para sua revista com razoável fidelidade à trama original...

A saga de Proteus também levou a uma nova mudança no elenco da equipe. Banshee, privado de seus poderes, afastou-se e Fênix retornou. Mas por que recolocá-la na equipe se seus poderes ainda estavam muito maiores que os dos outros X-Men? Porque, desta forma, ela era uma heroína pouco interessante, mas uma excelente vilã! Começava a Saga da Fênix Negra, história preferida de nove entre dez fãs dos mutantes.

INTERFERÊNCIAS EDITORIAIS


Surge Cristal, a mutante disco.

A forma com que se deu a transformação de Fênix de heroína para vilã é um exemplo textual de como fazer roteiros de longo prazo em uma HQ mensal.

Jean Grey começou a sofrer flashbacks do que ela julgava ser a vida de uma ancestral sua do século XVIII, integrante do Clube do Inferno e mulher de um dos líderes do clube, Jason Wyngarde. Na verdade, Wyngarde era um antigo inimigo dos X-Men, o ilusionista conhecido como Mestre Mental, que estava tentando escravizar a jovem mutante para utilizar seus vastos poderes em proveito próprio. Pistas sutis (e outras nem tanto) alertaram os leitores veteranos e observadores para o fato, mas estes eram minoria.

Nesse meio tempo, o progressivo sucesso da publicação (principalmente no incipiente mercado direto de quadrinhos) chamara finalmente a atenção dos caciques da Marvel. Então, duas imposições editoriais caíram na cabeça dos criadores. Primeiro o gibi teria de justificar o nome da Mansão X (Escola para Jovens Superdotados do Professor Xavier) e ter algum aluno. Além disso, o título teria de servir de plataforma de lançamento para a personagem Cristal, uma mutante cantora de discoteca (baseada, segundo dizem, em Bo Derek!) que a editora pretendia lançar em um gibi exclusivo para o mercado direto. Isso em 1979, com a disco music já em franca decadência...

Claremont e Byrne encarregaram-se habilmente da tarefa. Fizeram o Professor X retornar à equipe, preocupado com os poderes de Fênix, e detectar duas novas mutantes, que seus discípulos deveriam contactar (como nos velhos tempos da equipe). Todavia, no rastro delas, já estava o Clube do Inferno, acarretando assim o confronto entre as duas agremiações. As mutantes em questão eram a já mencionada Cristal e uma nova criação que faria história nos X-Men, a adolescente Kitty Pryde.

Uma das primeiras adolescentes a se comportar como tal nas HQs de super-heróis, Kitty foi baseada por John Byrne em uma ex-colega homônima da Escola de Arte de Alberta, no Canadá. Também foi a primeira heroína de origem judia dos quadrinhos (religião era, até então, tabu nas HQs de heróis. Quase nenhuma personagem tinha religião declarada e nenhum praticava). Posteriormente, ela se tornaria extremamente popular, um dos raros parceiros adolescentes dos quadrinhos a fazer sucesso em uma época em que mesmo o pioneiro do gênero - Robin - estava com baixa popularidade.

APELO SEXUAL


A Rainha Branca

Prisioneiros do Clube do Inferno...

... são salvos pelo Wolverine, em seu momento mais antológico!

No caminho dos X-Men, estava uma nova vilã, que também viria a se tornar presença marcante no gibi, a Rainha Branca.

A Rainha Branca era uma telepata amoral que integrava o Círculo Interno do Clube do Inferno. Loura, linda e trajando roupas fetichistas, era diferente de qualquer supervilã vista até então e feita sob medida para atiçar a libido dos leitores adolescentes. Sem a pretensão de fazer uma análise freudiana da sua popularidade, ressalto como significativo que, ao longo dos anos, ela passou de inimiga à aliada dos X-Men e, mais recentemente, integrante da equipe. Registre-se que quem a incluiu foi o escritor Grant Morrison, que considera o apelo sexual uma dos fatores de sucesso dos X-Men.

Ainda no que diz respeito ao apelo sexual, logo após derrotarem a Rainha Branca, Ciclope e Fênix mantêm um tórrido encontro amoroso em um platô no Novo México. Embora bastante inocente (ainda mais para padrões atuais), a cena traz conotações óbvias. Novamente, Claremont e Byrne estavam desafiando os cânones estabelecidos e é surpreendente que essas imagens tenham escapado ilesas ao crivo do famigerado Comics Code, o código de ética dos quadrinhos nos Estados Unidos. Todavia, nem isso, nem a violência acima do normal da revista pareciam despertar a ira daquela instituição. Apenas uma cena foi cortada em todo o período Claremont/Byrne: uma seqüência em uma das primeiras edições que mostrava Tempestade tomando banho nua na piscina da mansão. Segundo declarações posteriores de Byrne, estava longe de ser uma ensaio da Penthouse, mas o censor vetou assim mesmo. Os outros X-Men chegam a fazer piada com isso em uma das edições.

NO CLUBE DO INFERNO

Momentaneamente livres de interferências externas, Claremont e Byrne voltaram ao que faziam melhor.

Os X-Men decidem se infiltrar no Clube do Inferno para descobrir por que eram caçados pelos integrantes da seleta agremiação. Toda a passagem é marcante. Artisticamente Byrne dá um show ao retratar o ambiente arcaico e decadente do prédio, cujos membros se vestem com trajes vitorianos (as mulheres - como a Rainha Branca - com uma preferência por roupas fetichistas). Na história, os heróis são derrotados depois que a Fênix é completamente dominada por Wyngarde, tornando-se a Rainha Negra.

Todos? Não! Um pequeno mutante canadense sobrevive e tem que enfrentar sozinho os adversários para resgatar seus colegas. A cena de Wolverine surgindo nos esgotos disposto a vingar seus colegas é talvez a mais marcante da sua carreira.

E, em Uncanny X-Men 133 (no Brasil, Superaventuras Marvel 30, da Editora Abril), o herói vive seu momento de glória, derrotando os assassinos que o Clube mandara em seu encalço em uma das melhores seqüências de ação dos quadrinhos enquanto seus colegas permanecem indefesos nas garras do Círculo Interno. Só mais um X-Man tem destaque nessa edição: seu rival Ciclope, que, em outro momento memorável, tenta libertar Jean Grey do controle do Mestre Mental e é derrotado.

Metaforicamente, este é o fim da luta entre os dois rivais. Eles ainda continuariam tendo atritos, mas, naquele momento, Wolverine havia definitivamente conquistado o coração dos fãs. Tornou-se, sem sombra de dúvida, o integrante mais popular da equipe, status que mantém até hoje, apesar dos esforços em contrário (destaque para o próprio Chris Claremont, que tentou, o quanto pôde, fazer de Tempestade a personagem mais popular da série).

DAS CINZAS, A FÊNIX NEGRA


Surge a Fênix Negra!

Tem início o desfecho da maior saga dos mutantes.

"A Fênix tem que morrer"!

O jogo acabou. O Clube do Inferno foi derrotado e a Fênix, liberta do controle do Mestre Mental, lançou sobre este sua terrível vingança.

Mas ainda não era o fim. Com tudo o que aconteceu, Jean Grey perdeu definitivamente o controle e assumiu a identidade de Fênix Negra. Os X-Men haviam encontrado seu mais temível oponente.

A toda poderosa criatura esmagou os mutantes como insetos e partiu rumo ao espaço a fim de se alimentar. A natureza dessa alimentação mudaria o curso dos quadrinhos americanos para sempre.

Por essa altura, Claremont e Byrne já partilhavam tanto a criação do roteiro que pouca coisa era definida com detalhes. Claremont, então, sugeriu para Byrne que a Fênix devorasse uma estrela. O desenhista, por sua vez, achava que devorar uma estrela não teria impacto algum se não houvesse um planeta habitado nos arredores. Daí, retratou um mundo, habitado por alienígenas que tinham aparecido antes em uma história clássica dos Vingadores, sendo destruído no processo. Claremont aprovou a idéia, a revista foi mandada ao editor, que também não fez objeções (assim como o Comics Code), e daí para a gráfica.

Feito isso, foram todos trabalhar nas edições seguintes. Nestas, a Fênix Negra voltava à Terra e derrotava os X-Men, reforçados dos antigos membros Fera e Anjo especialmente para a ocasião, mas o Professor X, com a ajuda do próprio lado bom de Jean Grey, acabou sobrepujando a entidade e reduzindo o poder dela aos seus antigos níveis de Garota Marvel. Tudo muito belo, exceto que a imperatriz Shiar, Lilandra, interveio e decidiu julgar a Fênix por seus crimes. Acabou sendo proposto um julgamento por combate entre os X-Men e a poderosa Guarda Imperial de Shiar, que é vencido facilmente por esta. Em seguida, os cientistas de Lilandra executam uma espécie de lobotomia em Jean Grey que perde seus poderes para sempre. A trama a seguir seria uma recapitulação dos principais acontecimentos da equipe, do ponto de vista de Ciclope, que se licenciaria para se casar com sua amada. A edição também marcaria a entrada de Kitty Pryde na franquia mutante.

No entanto, as coisas aconteceram de forma bem diferente.

OLHO POR OLHO: ALGUÉM TEM DE MORRER

O editor-chefe Jim Shooter finalmente lera a revista que mostrava a Fênix Negra destruindo um planeta habitado. E não gostou nada do que viu!

Imediatamente, deu ordens para mudar o desfecho da saga. Jean Grey teria de ser punida pelo que fizera! A idéia de Shooter seria, de acordo com Byrne, aprisioná-la em um asteróide distante onde seria torturada pelo resto da eternidade (!). Não era uma solução que agradava a equipe criativa. Então, ficou decidido que matá-la seria um meio termo mais aceitável.

De última hora, a edição que mostrava a luta com a Guarda Imperial teve de ser modificada. Muitos diálogos foram alterados (Claremont ainda aproveitou para adicionar novas redundâncias...) e as últimas páginas foram descartadas, com seis outras sendo adicionadas. Byrne teve apenas três dias para desenhá-las! O resultado final ficou surpreendentemente bom, como pode ser comprovado por aqueles que tiverem acesso à publicação que a Marvel lançou, anos depois, com a versão original (Phoenix: The untold story).

Mais importante, o desfecho caiu como uma bomba sobre os fãs.

Super-heróis já tinham morrido antes. O exemplo mais conhecido era a Patrulha do Destino, uma superequipe da DC Comics que tinha sido toda morta no último número de sua série. Mesmo os X-Men já haviam perdido integrantes, como o Pássaro Trovejante. No entanto, este era um destino reservado para personagens obscuras e impopulares, nunca para astros em evidência como Fênix. X-Men tornou-se o título em que as inovações aconteciam (na verdade, já havia algum tempo, mas os fãs ainda não tinham percebido). A edição da morte esgotou-se rapidamente e, nos meses seguintes, as vendas dispararam. A revista até voltaria a ter 22 páginas de quadrinhos.

O preço, porém, foi alto demais. A equipe criativa nunca mais voltaria a trabalhar harmoniosamente e, antes mesmo das vendas espetaculares que seguiram o evento serem constatadas, ela já estaria desfeita.

DESAVENÇAS CRIATIVAS


O funeral de Jean Grey

As edições seguintes seriam uma verdadeira queda de braço entre os dois criadores. A imediatamente posterior, ainda com o flashback, haveria de se tornar o funeral de Fênix com poucas alterações na arte já produzida. Ciclope ainda se licenciaria da equipe (por razões diversas) e Kitty ainda se tornaria integrante nesse mesmo número. Todavia, nos seguintes, os choques entre os artistas seriam mais evidentes.

Nas duas edições subseqüentes, Wolverine e Noturno encontravam novamente a Tropa Alfa. Byrne escreveu-as praticamente sozinho. Elas preparariam terreno para a futura revista própria da Tropa. Mesmo assim, o abismo entre os parceiros só aumentava.

Na primeira página de Uncanny X-Men 140, Colossus está arrancando uma árvore morta do chão. A arte mostra o mutante fazendo isso com enorme facilidade, enquanto os recordatórios, escritos por Claremont, davam a entender que o mutante realizava o maior esforço de sua vida. Era óbvio que a comunicação havia se perdido.

Outro ponto polêmico era a presença ou não do Anjo na equipe. Claremont não gostava do herói, mas Byrne não queria abrir mão de um de seus adorados X-Men originais, especialmente logo depois da morte de um deles e do afastamento de outro.

A tensão chegaria ao auge nas duas edições seguintes: uma das melhores, se não a melhor saga da equipe: Dias de um futuro esquecido.

O FUTURO QUE NÃO DEVERIA TER SIDO


Dias de um futuro esquecido

A história começava no futuro. A América fora subjugada pelos Sentinelas, robôs caçadores de mutantes. Os filhos do átomo tinham sido quase exterminados, com os poucos sobreviventes aprisionados em campos de concentração. O fim do mundo estava próximo, uma vez que os remanescentes da humanidade pretendiam usar armas nucleares para deter as máquinas, a qualquer preço. Nesse ambiente desesperador, os últimos sobreviventes dos X-Men formularam um plano para impedir tal desenlace. O estratagema consistia em enviar a consciência da Kitty Pryde adulta do futuro para seu corpo adolescente a fim de que ela convencesse os X-Men a impedirem que uma nova Irmandade dos Mutantes assassinasse um influente político antimutante, o senador Robert Kelly.

A trama, então, divide-se em duas vertentes. Enquanto os X-Men do presente enfrentam a Irmandade para tentar salvar a vida do senador, os do futuro travam uma luta desesperada pela sobrevivência contra os Sentinelas. No fim, o esforço é inútil. Porém os X-Men do passado têm sucesso e salvam a vida do senador, que decide trabalhar pela reativação dos Sentinelas...

Um trabalho brilhante. Perfeito epílogo para toda a saga dos mutantes da Marvel. O Ragnarok da superequipe. Grant Morrison, atual escritor dos X-Men, declarou que esse foi o final da série para ele, tudo o que veio a seguir foi anticlimático (o que, claro, não o impediu de assumir os roteiros da franquia décadas mais tarde...).

Também foi o momento da ruptura definitiva entre Claremont e Byrne.

A RUPTURA


A conclusão de Dias de um futuro esquecido: Byrne decide jogar a toalha

A dupla não concordou em quase nada na criação da saga. Claremont queria que os Sentinelas do futuro fossem controlados por humanos anti-mutantes radicais, enquanto Byrne achava que as máquinas tinham saído de controle e, no melhor estilo Exterminador do futuro (que esta história precedeu em alguns anos) tinham subjugado a humanidade. Byrne venceu essa, mas, em aventuras posteriores no mesmo futuro, Claremont fez prevalecer a sua idéia.

Não foi o único ponto de discórdia.

A líder dessa nova Irmandade, uma mutante transmorfa chamada Mística (que, mais tarde, seria uma das vilãs mais populares dos X-Men e participaria dos dois filmes da equipe ao lado do muito mais antigo Magneto), tinha uma grande semelhança física com Noturno. Claremont pretendia explicar o fato, alegando que a transmorfa era o pai do Noturno (a mãe seria sua colega de Irmandade, a mutante precognitiva Sina), haja vista que suas capacidades mutantes permitiam a mudança de sexo! Byrne não quis nem ouvir falar nisso e teve o apoio de todo o corpo editorial da Marvel. O assunto não voltaria a ser abordado pelo resto da fase de Claremont no título, e outros quadrinhistas acabariam dando a explicação mais convencional de que Mística apenas seria a mãe do herói.

O pomo da discórdia mais acalorado parece ter sido algo bem menos importante.

Em dado momento, os X-Men do futuro resolveram invadir o Edifício Baxter (antigo QG do Quarteto Fantástico), que se tornara o centro de operações dos Sentinelas. O edifício era guardado por um dos robôs gigantes de dez metros de altura. Desnecessário dizer que o trambolho foi prontamente neutralizado. Nesse momento, publicado em Uncanny X-Men 142, oitava página (no Brasil, Superaventuras Marvel 46, página 64), Claremont decidiu incluir, como adorava, uma seqüência em que Tempestade usava suas habilidades de arrombadora para abrir a porta. Byrne não gostou. Afinal, por que os Sentinelas trancariam uma porta (que, pelo tamanho, não poderiam utilizar!) se já tinham um robô gigante servindo de porteiro? Então Claremont passou por cima de Byrne e pediu para que Terry Austin redesenhasse o quarto quadrinho da página, substituindo Wolverine pela Tempestade. Além disso, adicionou diálogos que descreviam a cena como ele desejava.

Foi a gota d’água para o desenhista, que decidiu jogar a toalha. Claremont ficaria com os X-Men, enquanto Byrne trabalharia em outra série, o Quarteto Fantástico. Desta vez sozinho.

O RÉQUIEM DA PARCERIA


X-Men 143 - O Réquiem

Todavia, a dupla ainda teria uma história pela frente. Uncanny X-Men 143 (no Brasil, Superaventuras Marvel 42), uma edição bem menos marcante do que suas antecessoras, era um conto de natal que mostrava Kitty Pryde tendo seu batismo de fogo contra uma das criaturas demoníacas chamadas Nagarai, que haviam enfrentado os X-Men anos antes.

Nesta aventura, ao contrário das anteriores, Claremont e Byrne parecem ter trabalhado em completa harmonia e sem qualquer incidente, o que faz pensar se não se tratava de um episódio de arquivo. Qualquer que seja a resposta, embora competente, a aventura é tão inócua que foi publicada, no Brasil e na França, antes de sua ilustre precedente. Outros países simplesmente a ignoraram, uma vez que Dias de um futuro esquecido era uma conclusão bem mais atraente para a já lendária fase de Claremont e Byrne.

O abrupto final da parceria, no auge de seu prestígio e logo após suas melhores histórias, causou grande impacto entre os fãs. As vendas dispararam até o ponto em que ela assumiu a liderança das vendas de quadrinhos dos Estados Unidos, posição que manteve, com ocasionais exceções, até muito recentemente. A fase dos dois seria a mais influente saga de quadrinhos americana até o surgimento de Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, exercendo, ainda hoje, uma enorme sombra sobre seus sucessores. Também seria a principal fonte de roteiros para o bem-sucedido desenho animado dos mutantes. E os dois criadores seriam alçados ao patamar de superestrelas dos quadrinhos durante a década de 80.

Os dois, porém, só trabalhariam juntos (e nas mesmas personagens) uma década depois, em uma curtíssima seqüência de três páginas em uma edição com diversos quadrinhistas, a pedido do desenhista de X-Men da época, Jim Lee. Os outrora amigos e parceiros agora não conseguiam mais se entender.

A VIDA APÓS A UNIÃO

Após a saída de Byrne, Claremont ainda permaneceu no título por mais de dez anos; primeiro em uma parceria renovada com Dave Cockrun. Logo, porém, ficou evidente que seria impossível um retorno ao período pré-Byrne. Além do mais, Cockrun continuava lento, necessitando da ajuda de diversos colegas para cobrir seus atrasos. Foi, então, substituído pelo ótimo Paul Smith, que inspirou Claremont a realizar suas melhores aventuras no período pós-Byrne, mas abandonou a revista quando ganhou dinheiro o bastante para comprar uma moto e sair pelo país. Com o tempo, voltaria aos quadrinhos, mas nunca mais teria o mesmo sucesso.

Os desenhistas que se seguiram eram competentes em sua função, mas não escritores, e Claremont ficara demasiado dependente de seus parceiros. A qualidade dos roteiros caiu na mesma proporção em que a popularidade do escritor aumentava. Claremont manteve-se na publicação mais por reputação do que por méritos. Todavia, no auge do sucesso, quando um segundo título dos X-Men foi publicado, com vendagem recorde, ele foi demitido a fim de permitir que o ilustrador de então, Jim Lee, escrevesse suas próprias histórias.

Ironicamente, o escritor foi substituído por seu ex-parceiro John Byrne. O anglo-canadense, agora naturalizado cidadão dos Estados Unidos, nos anos seguintes à sua partida, tornara-se o maior nome dos quadrinhos americanos ao escrever e desenhar uma longa fase no Quarteto Fantástico e ao promover uma polêmica reformulação do primeiro dos super-heróis, o Super-Homem. Embora com a popularidade em decadência a essa altura, Byrne estava no auge do seu talento ao assumir os títulos.

Entretanto, ele comprara gato por lebre. Os desenhistas das duas séries, Jim Lee e Whilce Portacio, eram os responsáveis pelas histórias e Byrne se viu fazendo a função que reservara para Claremont na época da velha parceria: escrever os diálogos! Pior, Lee e Portacio não tinham a disciplina profissional que Byrne tivera em seu tempo. As tramas que criavam eram demasiado desconexas e a arte chegava às suas mãos atrasada demais para que ele pudesse sequer redigir os textos de forma satisfatória. O roteirista, que já estava sobrecarregado, escrevendo Homem de Ferro e produzindo inteiramente Namor e Mulher-Hulk, queixou-se ao editor, cobrando maior disciplina dos seus colegas ou uma autorização para escrever os roteiros ele próprio. Tal qual Claremont, foi demitido sumariamente.

NOVAS TENTATIVAS

Os dois criadores, entretanto, ainda retornariam.

Claremont seria chamado mais tarde, pelo mesmo editor que o demitira (agora promovido a editor-chefe), para escrever as duas publicações dos X-Men novamente. As vendas (e a qualidade) de ambas haviam despencado nas mãos de seus sucessores e esta era a última cartada de um editor desesperado para manter o emprego. O escritor aceitou e iniciou uma reformulação drástica. Não deu certo. Ele já não era popular como antes e sua escrita tinha todos os vícios de outrora, com poucas das qualidades. As vendas caíram ainda mais e, pior ainda, não subiram nem mesmo quando do lançamento do bem-sucedido filme dos mutantes.

O editor-chefe da Marvel foi substituído pelo atual, Joe Quesada, e Claremont perdeu as duas revistas, mas recebeu, à guisa de consolação, um terceiro título dos heróis mutantes, X-Treme X-Men, com direito até a escolher os protagonistas. Evidentemente, trouxe para si sua amada Tempestade. Até hoje, escreve a série. Embora seja a menos vendida dos X-Men, a publicação é a que tem as vendas mais estáveis e os fãs mais dedicados.

John Byrne teve menos sorte.

Ele também fora chamado de volta pelo mesmo editor-chefe. A razão era uma antiga proposta sua, uma série que mostrasse as aventuras dos X-Men originais durante o longo período em que o título publicara apenas reimpressões. Era um sonho antigo poder dar seguimento às histórias desenhadas por seu ídolo Neal Adams em parceria com o escritor Roy Thomas. A Marvel ainda lhe permitiu colaborar com o antigo arte-finalista daquela fase, o veterano Tom Palmer.

Infelizmente, Byrne e a Marvel superestimaram o interesse do público nessas personagens, que, afinal, nem tinham conseguido manter sua revista nos anos sessenta! O próprio autor também estava longe da popularidade de antes. As vendas de X-Men: hidden years (no Brasil, X-Men: anos incríveis) decepcionaram. Ainda assim, foi um gibi lucrativo, mas não o bastante para impedir que o novo editor-chefe Joe Quesada, que abomina super-heróis tradicionais e jamais gostou da idéia de uma revista nostálgica, cancelasse a publicação. Byrne teve de lutar para que as muitas edições já prontas chegassem às lojas especializadas e que a trama tivesse um desfecho condizente. Por fim, retaliou desistindo de um projeto que a Marvel planejara para reuni-lo com Claremont em uma última história dos X-Men feita pela dupla.

Nenhum dos criadores parecia ter gostado muito da idéia, e essa foi uma boa justificativa para ambos pularem fora. A Marvel recebeu muito mal a decisão e atualmente John Byrne é persona non grata na Casa das Idéias.

Dado o fim da amizade entre os dois autores, a impopularidade de ambos entre os fãs de quadrinhos atuais e a inimizade de Byrne com a atual administração da Marvel Comics, é muito improvável que, algum dia, voltem a trabalhar juntos nos X-Men (ou mesmo em outra publicação).

Ainda assim, enquanto durou, a parceria de ambos gerou trabalhos que marcaram os fãs dos heróis mutantes para sempre.