X-Men Grand Design de Ed Piskor

Créditos da imagem: Divulgação/Marvel

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Por que eu te recomendaria a HQ X-Men: Grand Design de olhos fechados

Autor da aclamada HQ Hip-Hop Genealogia, Ed Piskor levou sua paixão para o Universo Marvel e o resultado é igualmente fantástico

Gabriel Avila
11.08.2020
20h10

Poucas coisas me chamam tanta atenção ultimamente quanto obras feitas para um nicho específico - especialmente se eu não faço parte dele. Não digo isso como se lançasse desafio para produções que não tem a mim como público-alvo, mas sim pela esperança de que ela se sustente por si só e, quem sabe, me apresente algo novo. O melhor exemplo disso talvez seja o fato de que nunca assisti a uma partida de basquete e ainda assim fiquei fascinado por Arremesso Final, série da Netflix que narra os anos de glória de Michael Jordan e seu Chicago Bulls. Não foi “curtir basquete” que me fez esperar com ansiedade a estreia de novos episódios toda semana, foi a forma como aquela história incrível foi contada. Bem, disse isso tudo para explicar um pouco do impacto causado por uma genial HQ que narra a trajetória do Hip Hop.

Sempre gostei muito de música, mas como meu foco ficava meio restrito ao rock, demorei um pouco para abrir o leque e ouvir algo que não tivesse guitarras distorcidas e uma bateria nervosa de fundo. Aos poucos fui aprendendo a ouvir uma coisa ou outra de rap, especialmente o rico cenário nacional, mas sempre fiquei com a sensação que faltava um pouco de “teoria”, e foi aí que topei com o quadrinho Hip Hop Genealogia de Ed Piskor. Publicado no Brasil pela Veneta em um formato gigante - que até lembra um disco de vinil -, a HQ despertou aquela coceira de entrar em contato com uma cultura totalmente diferente através de um gibi. O que veio a seguir passou longe de qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado.

Capa da HQ Hip Hop Genealogia
Divulgação/Veneta

Como o título (e a sinopse porcamente descrita acima) indicam, Hip Hop Genealogia monta a “árvore genealógica” do rap, contando desde as festas promovidas por DJ Kool Herc nos anos 1970, passando pela explosão de grandes DJs e MCs como Grandmaster Flash & The Furious Five e até mesmo focando na expansão dessa cultura fora dos palcos, como grafite, dança e mais. O trabalho de Ed Piskor é um espetáculo por conseguir conectar uma infinidade de pessoas e eventos de forma simples em uma narrativa que premia a atenção do leitor com um panorama completo sobre uma cultura que ele claramente ama.

Não que Ed Piskor tenha sido o primeiro a relacionar HQs com a cultura Hip Hop. Como o próprio autor relembra em Genealogia, um dos primeiros grandes hits do gênero nas rádios foi a canção “Rapper’s Delight” da Sugarhill Gang, que tinha um verso de zoação pra cima do Superman. E o contrário também acontece com frequência, com rappers sendo citados em HQs ou até mesmo protagonizando algumas (como é o caso do bizarro crossover entre Justiceiro e Eminem).

Emicida como Miles Morales no projeto Rap em Quadrinhos
Divulgação/Rap em Quadrinhos

Há exemplos desse encontro aqui mesmo no Brasil. O rapper Emicida, que assina a introdução tanto de X-Men: Grand Design quanto de Hip Hop Genealogia, é autor da canção “Pantera Negra”, que faz uma relação entre o herói da Marvel e sua própria história. O projeto Rap em Quadrinhos, de Load Comics e Wagner Loud, imaginou como seriam ícones do rap nacional, como Sabotage, Karol Conka e o próprio Emicida, como heróis da Casa das Ideias. Porém, a quantidade de informações condensadas em um quadrinho tão bem escrito e desenhado se torna um ponto fora da curva ao informar e entreter no mesmo nível.

Depois de aprender o básico sobre as raízes do hip hop (e feliz em conhecer suas ligações com a cena punk), fiquei ansioso tanto pela chegada dos próximos volumes da HQ no Brasil quanto para acompanhar os próximos passos de Piskor. Qual foi minha surpresa quando anos depois ele apareceu com um projeto de organizar a complicada cronologia dos X-Men em uma única HQ? Só que dessa vez ele decidiu mexer com algo que acompanho (e posso dizer que me acompanha) há anos, então imaginei que aquele fascínio ficaria um pouco de lado dessa vez. E não é que ele fez de novo?

X-Men contra Magneto em Grand Design
Divugação/Marvel Comics

Não que eu duvidasse da capacidade criativa do Ed Piskor depois do espetáculo que é Hip Hop Genealogia, mas X-Men Grand Design é um tipo de leitura que eu recomendaria de olhos fechados pra literalmente qualquer pessoa: pra quem ama X-Men, pra quem odeia, pra quem já tá de saco cheio de super-heróis, pra quem nunca tocou numa HQ e por aí vai. Tudo isso porque novamente Piskor construiu com carinho - e o máximo de detalhes possível - uma história inovadora e universal dentro de um dos universos mais revisitados da cultura pop.

Capa de X-Men Grand Design
Divulgação/Panini

Mais do que simplesmente ilustrar um resumo desses quase 60 anos de história, o quadrinho organiza a trajetória dos X-Men desde o princípio. Partindo do surgimento de Namor, o primeiro mutante, passando pela juventude de Charles Xavier e Magneto, até finalmente mostrar formação da equipe imaginada por Stan Lee e Jack Kirby e seus embates diários com grandes inimigos. A HQ brilha especialmente ao levar em conta a participação de personagens e eventos que só seriam oficialmente apresentados no futuro - como o fato de uma jovem Ororo ser vista roubando a carteira de Xavier anos antes de se juntar à equipe como Tempestade.

Se o roteiro cativa por organizar uma das mais confusas cronologias da história dos quadrinhos, a arte encanta por dar uma identidade única para a HQ. Consciente da quantidade de informações que precisa passar em poucas páginas, Piskor cria uma narrativa que depende muito dos detalhes para avançar sem que o leitor se sinta deslocado ou perdido. Ainda que sua estética lembre os clássicos quadrinhos da Era de Ouro, a composição é totalmente ágil e cria um ritmo único que chega ao fim como uma das mais distintas publicações da Marvel.

Formação clássica dos X-Men em Grand Design
Divulgação/Marvel

A essa altura é justo chamar X-Men Grand Design de “aquela HQ dos X-Men que tá todo mundo falando”. É uma fama - ou hype - que se justifica por ser tão particular e ridiculamente competente em tudo o que se propõe. É curioso parar pra pensar que, em Hip Hop Genealogia, Ed Piskor chega a brincar com algumas das “similaridades” entre a cultura Hip Hop e os clichês dos super-heróis, que vão desde batalhas épicas até trajes especiais. Acho que nem ele imaginava que criaria outro ponto de interseção entre essas culturas com a própria obra.