Cena da estreia de The Walking Dead/ Divulgação/ Jackson Lee Davis/AMC

Créditos da imagem: Cena da estreia de The Walking Dead/ Divulgação/ Jackson Lee Davis/AMC

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The Walking Dead retorna apresentando mundo novo, mas na velocidade antiga

Após salto temporal, Rick apresenta o mundo na versão mais próxima de seu sonho utópico

Rafael Gonzaga
08.10.2018
12h05
Atualizada em
09.10.2018
11h08
Atualizada em 09.10.2018 às 11h08

A nona temporada de The Walking Dead estreou com a promessa de mudanças significativas. Dois dos elementos mais importantes da atração anunciaram suas saídas: Andrew Lincoln, o Rick Grimes desde o episódio de estreia, deixaria o posto de protagonista em algum ponto da nova remessa de episódios e Scott Gimple passaria o bastão de showrunner para Angela Kang, que já atuava como co-produtora desde 2011. “A New Beginning” mostra Rick e os demais sobreviventes um ano e meio após a guerra encerrada no fim do oitavo ano e se propõe basicamente a situar o espectador nessa nova realidade - ao contrário dos famosos episódios explosivos de estreia, The Walking Dead retorna sem pressa de jogar na mesa suas melhores cartas.

Vale pontuar que 18 meses, em The Walking Dead, é muita coisa - ainda que o espectador esteja acompanhando Rick e os demais já há alguns bons anos, o tempo corre diferente na série e o próprio Robert Kirkman, autor dos quadrinhos que servem de base para a trama, já disse que menos de cinco anos se passaram desde a estreia para os sobreviventes. Nesse salto temporal inédito, Rick, Michonne (Danai Gurira), Daryl (Norman Reedus), Carol (Melissa McBride) e todos os personagens tiveram tempo de, pela primeira vez provavelmente desde que a série começou, se acalmar um pouco e relembrar como é a vida sem estar lutando a cada segundo para não morrer. A estreia mostrou Rick e Michonne vivendo como uma família funcional, Carol em um relacionamento com Ezekiel (Khary Payton) e Maggie sendo mãe - é o mais próximo de uma vida normal já visto na série.

É inegável que a nova temporada inaugura uma nova era em The Walking Dead. Até então, o público era presenteado com uma trama fundamentalmente sobre sobrevivência em sua forma mais bruta. Seja lutando contra os mortos-vivos ou contra outros grupos, Rick e seu grupo precisavam se conectar com seus instintos mais primitivos para manter a própria vida e a de quem mais pudesse importar. Após uma jornada de oito temporadas que reproduziu em velocidade acelerada a trajetória humana em seus estágios iniciais - o nomadismo errante lutando dia após dia contra ameaças externas, as tentativas de voltar ao estilo de vida sedentário, os confrontos por território e poder com outros grupos organizados.

Agora, a fase é outra: se o primeiro episódio for um indicativo claro do que vem por aí na atração, The Walking Dead se aproxima mais de House of Cards do que daquilo que era em sua primeira temporada. Os zumbis são um velho inimigo que os sobreviventes já desenvolveram a expertise, a guerra que unia sobreviventes em prol de um objetivo comum já foi solucionada e conflitos tribais parecem ter ficado no passado. O problema agora vem de dentro: como estruturas organizadas, Alexandria, Hilltop e todas as demais comunidades passam a ser solo fértil para que floresçam todos os problemas habituais de sistemas políticos modernos. Em seu novo formato, The Walking Dead deverá ter mais espaço para problemas internos, conflitos nos bastidores do poder e dificuldade de manter a unidade.

Danai Gurira, Lauren Cohan - que, assim como Lincoln, deixará a série durante o nono ano - e Norman Reedus já tinham adiantado que a nova temporada seria focada no protagonismo feminino. De fato, o único evento realmente enérgico que acontece na estreia é protagonizado pela Maggie de Cohan. Se destacando do ritmo do restante do episódio, o momento enérgico teve começo - ainda que a semente já tivesse plantada desde a primeira aparição de Gregory (Xander Berkeley) -, meio e fim em apenas um capítulo. Não dá para afirmar com certeza que a velocidade imprimida no conflito entre Maggie e Gregory seja fruto da necessidade de agilizar a trama da líder de Hilltop, já que a atriz está se despedindo, mas, sem isso, a estreia teria sido essencialmente monótona.

Há uma mudança aparente de prioridades em The Walking Dead: o público sabe que grandes eventos se aproximam, com a inserção de Alpha (Samantha Morton) e dos Sussurradores na jogada - o produtor executivo Greg Nicotero já disse, aliás, que ela será a maior vilã já vista na série -, mas isso não foi a aposta do novo ano. Sob o comando de Kang, parece que The Walking Dead evitará meter os pés pelas mãos e tentará entregar um produto que não soe esbaforido ao público, elencando a melhor hora de cada evento de acordo com a narrativa, e não exclusivamente pelo medo da recorrente queda de audiência. Se isso funcionará, não se sabe - o primeiro episódio do nono ano não foi perfeito e teve muitos momentos cansativos, como o destaque dado à morte de personagens irrelevantes. Contudo, a lufada de ar fresco é perceptível: com sorte, a franquia dos mortos-vivos pode ter encontrado sua chance de sobrevida.