Cena de The Walking Dead/ Reprodução/ AMC

Créditos da imagem: Cena de The Walking Dead/ Reprodução/ AMC

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The Walking Dead está viva: o adeus de Rick Grimes é um retorno às origens

"What Comes After" resgatou os elementos que fizeram da série um fenômeno no passado e ofereceu a The Walking Dead um futuro

Rafael Gonzaga
05.11.2018
03h02
Atualizada em
05.11.2018
11h51
Atualizada em 05.11.2018 às 11h51

Poucos eventos foram tão comentados em The Walking Dead como a anunciada saída de Andrew Lincoln, o protagonista Rick Grimes, no quinto episódio do nono ano, intitulado "What Comes After". A série vinha passando por temporadas de qualidade discutível e de medidas radicais questionáveis - não era menos que normal o público ficar com o pé atrás sobre a saída do protagonista. Contudo, apesar das dúvidas sobre se a despedida do ex-xerife seria a última pá de terra que o programa precisava, Angela Kang, a nova showrunner, conseguiu fazer desse momento, ao contrário, uma lufada vigorosa de ar em uma série que vinha se enterrando lentamente. A despedida - ou o até logo de Rick - foi digna de um final de temporada.

Todo o episódio do adeus de Rick fez magistralmente algo que a série, nos últimos três anos, vinha fazendo de forma homeopática e, portanto, quase imperceptível: brincar com o emocional do público. Durante muito tempo a série se apoiou em coisas como cenas onde personagens irrelevantes corriam risco de vida, portanto, foi bom ver a série apostado onde de fato há drama. O episódio inteiro se desenvolveu em uma montanha-russa de sensações sem se restringir, é claro, somente ao medo da perda do seu personagem mais importante. Para quem sobreviveu à queda de qualidade que, infelizmente, acabou se tornando padrão nas temporadas mais recentes do drama de zumbis da AMC, foi um alento ver tantos rostos queridos sendo tratados com merecido respeito em seus breves retornos.

Shane (Jon Bernthal), Hershel (Scott Wilson) e Sasha (Sonequa Martin-Green) ficaram marcados por protagonizarem algumas das mortes mais trágicas dos nove anos de The Walking Dead - foi catártico para o público vê-los em paz, ainda que em um delírio de Rick, após o último contato com o público ter acontecido em despedidas tão dolorosas. Depois da revelação de que o ex-melhor amigo do ex-xerife não seria a única presença vip do episódio, é claro que um gostinho amargo começou a brotar na boca da audiência: seria bom ter reencontrado também figuras icônicas como Glenn (Steve Yeun), Carl (Chandler Riggs), Andrea (Laurie Holden) nessa viagem alucinógena do xerife. Mas o que foi oferecido já foi um prato acima da média; querer mais é justo, mas é também reclamar de barriga cheia.

Um acerto do episódio, aliás, foi não focar apenas na despedida de Rick, como era de se imaginar. O público aprendeu, ao longo dos anos, a esperar episódios absolutamente monotemáticos da atração da AMC - sabe aqueles episódios onde uma única cena realmente importante fica espremida no meio de várias outras que não levam a lugar nenhum? Exatamente, é disso que estamos falando. The Walking Dead - ou Angela Kang, que resolveu colocar um pouco de bom senso na mistura - aprendeu que prender o público durante minutos a fio na expectativa de algo isolado não é realmente bom quando a série tem a opção ser uma sucessão de eventos impactantes. Isso é basicamente não subaproveitar suas subtramas - ponto para a nova showrunner.

É interessante - e quase inacreditável, diga-se de passagem - ver The Walking Dead trilhando um caminho extremamente independente ao dos quadrinhos (Carl morto, Rick desaparecendo em um helicóptero - what, Robert Kirkman?) sem deixar de dar presentes para os fãs do material original. A série consegue se distanciar das HQs por um lado e, por outro, se manter fiel ao que aconteceu por lá. A cena de Maggie (Lauren Cohan) com Negan (Jeffrey Dean Morgan, que, verdade seja dita, não apresentou seu melhor desempenho em uma cena que exigia um pouco mais de emoção dele) foi um presente para os fãs dos quadrinhos e todo o contexto que levou a ela foi coerente e bem trabalhado.

Muito foi falado sobre a nona temporada ser dominada pelo protagonismo feminino e, pela primeira vez até agora, isso ficou claro. No episódio anterior o público já tinha matado brevemente a saudade da Michonne (Danai Gurira) de antigamente - parece que a personagem voltará às origens que fizeram dela uma dos personagens mais fortes do mundo de The Walking Dead -, mas "What Comes After" deu boas cenas para Carol (Melissa McBride), para Jadis (Pollyanna McIntosh) e, é claro, para Maggie. Ainda que a líder de Hilltop também esteja de saída, ter pontuado a força dessas mulheres na série justo no episódio de despedida de Rick Grimes mostra que a série ficará em boas mãos na ausência do ex-xerife.

Ausência que, é claro, não deverá durar muito: Andrew Lincoln falou repetidas vezes que estava largando o papel para viver outras coisas e passar mais tempo com a família. Basicamente, ele estava precisando de férias. The Walking Dead conseguiu fazer um alarde substancial com sua saída de cena e, daqui algumas temporadas, voltará a colocar seus holofotes na potência máxima na hora de trazê-lo de volta. É claro que, nesse meio tempo, muita coisa vai acontecer: o episódio terminou com mais um salto temporal, onde Judith agora tem a idade que Carl tinha quando tudo começou e os Sussurradores finalmente entrarão em cena. Até Lincoln sentir saudade de dar machadadas em algumas cabeças mortas ambulantes, muita água deve rolar. E se mantiver a qualidade que vem apresentando desde o retorno em sua nona temporada, valerá a pena sobreviver para assistir.