Sandman

Créditos da imagem: DC Comics/Divulgação

Netflix

Artigo

Podem reclamar, mas a escalação de Sandman da Netflix faz jus à HQ original

Desde sua publicação, obra de Neil Gaiman abordava visibilidade trans, identidade racial e protagonismo feminino

Nico Garófalo
01.06.2021
16h15

Como fã de comédia, eu obviamente tenho alguns momentos favoritos do gênero que revisito em minha mente sempre que preciso dar uma risada. A “ressurreição” de Chicó (Selton Mello) ao som da gaita abençoada em O Auto da Compadecida, o coelho raivoso em Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, a troca circular de socos de O Grande Hotel Budapeste… Embora eu considere todas essas cenas hilárias, nenhuma delas jamais me preparou para o grande absurdo da vida real que venho presenciando desde a última quarta-feira (26), quando Neil Gaiman e a Netflix anunciaram mais uma parte do elenco de Sandman, série que adaptará o magnum opus do escritor publicado pela DC/Vertigo. Em um momento que só pode ser definido como o auge da comédia nonsense, autointitulados fãs saíram de todos os cantos da internet para questionar o criador da obra sobre as escalações, afirmando, com convincente seriedade, que ele não havia entendido o próprio quadrinho. Sejam ou não irônicos, esses comentários são hilários, no sentido mais ridículo da palavra.

Digo isso porque já é de conhecimento geral dos fãs que Gaiman é extremamente protetor de Sandman. Ao longo dos últimos 30 anos, o premiado roteirista barrou filmes, séries e animações que julgou não fazerem jus à história que criou para Sonho dos Perpétuos, seja por cortar personagens e tramas que julgava essenciais, ou por limitações orçamentárias. Quando enfim aceitou adaptar sua obra prima para o live-action na Netflix, o escritor assegurou o controle criativo da série, o que o permite não só que o público veja o seu Morfeu quando a produção enfim estrear, mas também que ele possa reparar conceitos que, dada a evolução de debates após três décadas, ficaram datados. Mas, o que exatamente isso tem a ver com as mensagens recebidas por Gaiman nos últimos dias?

Em sua busca por uma representação de um mundo atualizado e mais plural do que aquele que levou às páginas nas décadas de 1980 e 1990, Gaiman se preocupou em escalar um elenco mais eclético e com uma maior presença feminina. Dessa forma, personagens como Rose Walker, Unity Kincaid, Caim e Abel, todos caucasianos nos quadrinhos, serão vividos respectivamente por Kyo Ra, Sandra James, que são negras, Sanjeev Bhaskar e Asim Chaudhry, do sudoeste asiático. Isso sem contar a Morte dos Perpetuos, cuja forma mais famosa é uma jovem de pele branca como giz, que será vivida por Kirby Howell-Baptiste, de The Good Place, Cruella e Barry. Gaiman também inverteu o gênero de duas personagens relativamente presentes na narrativa. Seu andrôgeno Lúcifer será vivido por Gwendoline Christie, de Game of Thrones, enquanto o bibliotecário Lucien se tornará Lucienne nas mãos de Vivienne Acheampong, de Convenção das Bruxas.

Narrativamente, essas mudanças não afetam Sandman em absolutamente nada. Aliás, elas aproximam a história da realidade da sociedade cada vez mais plural. Ainda assim, há uma parcela pequena, mas relativamente barulhenta e, apesar da minha graça inicial, nem um pouco cômica, que afirma que a escalação de pessoas negras trai o quadrinho original em prol de uma “agenda progressista”. Gaiman, o mesmo homem que passou anos negando milhões de estúdios pelos direitos de adaptar seu grande xodó, é acusado de se vender à “geração mimimi” e de “deturpar o significado de Sandman”. Esses comentários, direcionados ao autor e a veículos que noticiaram as escalações, vêm sempre acompanhados de argumentações rasas que (mal) escondem preconceitos de gênero, raça e classe. A necessidade de criticar e expor ideias retrógradas era tanta que, na pressa de reclamar, os especialistas de plantão chegaram a questionar a escalação de Jenna Coleman como Johanna Constantine, definida pelos twiteiros inflamados como uma "versão feminina de Constantine". Ironicamente, essa reclamação em específico depõe contra esses fãs, já que Johanna é na verdade uma antepassada do Constantine criado por Alan Moore e personagem de uma das histórias mais famosas de Sandman.

Paciente e educado, Gaiman, acompanhado de alguns fãs, tem respondido centenas destes guerrilheiros dos teclados, explicando caso a caso as mudanças, lembrando que Sandman contou com ilustradores, letristas e coloristas mulheres, negros, LGBTQIA+ e que suas histórias foram escritas para tocar pessoas de todos as crenças, cores e gêneros. Mesmo quando fica claro que estava falando com as paredes - paredes estas que provavelmente nem sequer perceberam quem ele era -, Gaiman não perde a compostura e, ao invés de fazer o fácil e bloquear a legião de pessoas preguiçosas demais para interpretar texto que o questionam, ele estende um convite: releiam Sandman e assistam a série quando ela estrear na Netflix.

Sandman além do texto

Dizer que escalar atrizes negras para viver personagens que eram brancas há trinta anos, especialmente em Sandman, mostra uma incapacidade quase absoluta de interpretação de texto. Sim, Sonho é representado, majoritariamente, com uma pele marfim, mas isso não quer dizer que ele seja literalmente um homem branco. Em poucas edições, Morfeu muda de forma diversas vezes quando se depara com o Caçador de Marte, Nada e Bast, entre elas, aliás, está a de um homem negro.

Essas passagens em específico têm uma interpretação simples: cada um de nós tem nossa própria visão da divindade. J’onn J'onzz, por exemplo, via uma enorme caveira em chamas. Por que é absurdo, em pleno 2021, que a personificação divina da Morte seja interpretada por uma das atrizes jovens mais requisitadas dos últimos anos - independentemente de sua etnia? Identidade faz parte de Sandman desde sua primeira edição, não importa qual rosto seus personagens usem. Sejam eles mortais ou imortais, suas ações são o que tornaram a HQ uma obra lendária e não as cores com que foram pintados.

A relação de Sandman com identidades de gênero também sempre foi extremamente fluida. Como citei no início do texto, a escalação de Christie, que criou uma intimidadora Brienne em Game of Thrones, condiz perfeitamente com o Lúcifer inspirado na fase mais andrógina de David Bowie que foi para as páginas.

Um dos irmãos de Sonho, Desejo, é desde sua primeira aparição apresentade como gênero fluido, com pronome neutro e características tanto masculinas quanto femininas. Compreendendo a delicadeza da personagem, Gaiman escalou uma pessoa não-binária, Mason Alexander Park, de iCarly, para o papel e, assim como fez com seu personagem nos quadrinhos, apresentou-e com seu pronome de preferência no anúncio oficial nas redes sociais. E, bom, houve reclamações aos montes sobre o uso do pronome neutro, novamente como se isso ferisse o significado de Sandman. Tal qual os parentes de Wanda, que preferiram enterrá-la sob seu dead name ao vez de aceitá-la como uma mulher trans - aliás, uma das primeiras personagens transexuais de uma grande editora -, os “grandes defensores" da obra original estão tão presos à tradução literal de quadros únicos que não percebem que não compreenderam absolutamente nada do que Gaiman passou décadas tentando impedir que grandes estúdios tentassem apagar.

Na ânsia de disfarçar seus preconceitos como nostalgia, opositores da série apenas mostram que não absorveram nada do que Gaiman e seus colegas criaram, se é que realmente leram Sandman em algum momento. Fingindo-se de “guardiões da chama” da cultura pop, racistas e homofóbicos mal conseguem esconder mais suas reais intenções e, cada vez, se perdem em sua própria ignorância e hipocrisia.

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