V de Vingança | Conheça Guy Fawkes, personalidade histórica que inspirou a HQ

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V de Vingança | Conheça Guy Fawkes, personalidade histórica que inspirou a HQ

Cúmplice em um atentado terrorista, revolucionário encontrou um novo significado em protestos do século 21

Ederli Fortunato
05.11.2019
12h55

Hoje é dia de fogueira na Grã-Bretanha. Por todo o reino que um dia foi tão grande que nele o sol jamais se punha, os britânicos vão celebrar a sobrevivência do rei James I e a prisão de Guy Fawkes. Um dos participantes da Conspiração da Pólvora, Fawkes foi capturado no dia 5 de novembro de 1605 quando cuidava de 36 barris do explosivo nos porões do Parlamento com os quais pretendia explodir o prédio matando o rei e uma boa quantidade de políticos. Dois meses depois, Fawkes foi condenado à morte e surgiu a tradição de queimar bonecos do conspirador numa versão piromaníaca da malhação de Judas.

Seria mais uma daquelas coisas tipicamente britânicas como peixe com fritas e Lady Diana, se Fawkes não tivesse ressurgido séculos depois como símbolo de novas gerações de revolucionários. O primeiro passo foi dado quando Alan Moore e David Lloyd buscavam um personagem para sua graphic novel V de Vingança. Inspirados na Alemanha dos anos 30, onde o desemprego, a hiperinflação e o desespero levaram os alemães a buscarem um salvador e encontrarem um dos maiores ditadores da história, Moore e Lloyd ambientaram a narrativa numa Grã-Bretanha distópica, comandada por um governo de força. Contra ele, a dupla criou um personagem em busca de vingança, que havia sido perseguido e torturado, mas ainda sem identidade.

Foi durante uma sessão de brainstorming que Lloyd surgiu com Guy Fawkes e a ideia de que V teria sucesso onde o conspirador de 1605 havia falhado. Lançada em 1988, após a publicação dos primeiros episódios na revista Warrior entre 1982 e 1985, V de Vingança ataca o fascismo e questiona o anarquismo e seus métodos. Ambíguo quanto ao personagem, nunca revela quem de fato é V, deixando para o leitor discutir se os métodos violentos são válidos quando o alvo é o totalitarismo, se a violência é condenável apenas quando originada por um estado injusto ou também por aqueles que lutam contra ele. Anos depois, quando surge o projeto de adaptar a graphic novel para o cinema, a dualidade de V ergue novas discussões, questionando se o resultado não seria uma apologia ao terrorismo sob o rótulo de luta pela liberdade.

Lançado em 2006, a adaptação de V de Vingança para o cinema, embora diferindo do original, levou a narrativa de Moore e as imagens de Lloyd para um público mais amplo, grande parte do qual alheio à existência da graphic novel até aquele momento. Inadvertidamente, o longa criou as condições para que Fawkes assumisse um novo papel ao distribuir e gerar a venda de milhares de máscaras de Fawkes. Dois anos depois, quando o grupo Anonymous organizou protestos contra a Igreja da Cientologia, orientando os participantes a esconderem o rosto, a máscara de Vganhou a preferência por ser barata e encontrada com facilidade em todas as cidades.

Inspirados pela cena final do filme, quando uma multidão mascarada assiste à explosão do Parlamento, centenas de membros do Anonymous se colocaram diante da Igreja da Cientologia em Londres usando a máscara de Fawkes. Logo o rosto sorridente com seu bigode e cavanhaque desenhados se tornaria a marca de cada manifesto do grupo, gerando apreensão a departamentos de segurança da informação em todo o mundo a cada vídeo divulgado na Internet.

Em 2011, foi a vez do movimento Occupy Wall Street fazer seu manifesto contra a influência corporativa sobre a democracia e a falta de punição para os responsáveis pela crise econômica. O símbolo do protesto era uma dançarina se equilibrando sobre a estátua to touro símbolo de Wall Street, mas o rosto dos manifestantes estava mais uma vez oculto pela máscara de Fawkes. Quando Julian Assange, do WikiLeaks, visitou a Occupy London Stock Exchange, estava devidamente paramentado com uma máscara de Guy Fawkes.

Globalização, aquecimento global, esgotamento de recursos, capitalismo, governos ou conglomerados econômicos e mesmo os protestos contra a qualidade dos games feitos por Thiago “Zangado”, não importa a bandeira, o rosto de Che Guevara fotografado por Alberto Korda foi substituído por Guy Fawkes como ícone revolucionário. E o homem que em 1605 foi condenado a ser enforcado até quase a morte para então ser cortado em pedaços, mas pulou do cadafalso para quebrar o pescoço e evitar tudo isso não era dado à ternura jamais.