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Entrevista

Omelete Entrevista: Alan Moore - Parte 2

O inglês fala sobre sua nova obra, Lost Girls, Watchmen, V de Vingança e outas obras-primas

Joaquim Ghirotti
25.06.2007
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h47
Atualizada em 29.06.2018 às 02h47

Leia a primeira parte desta entrevista aqui

Melinda [Gebbie, a ilustradora de Lost Girls] comentou que, inicialmente, trabalhar com seus roteiros foi dificil para ela, pois eles são tão detalhados e grandes, e que por isso você teve que desenvolver um novo método para esse projeto...

Promethea

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Promethea 32

V de Vingança

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V de Vingança

Liga dos Cavaleiros Extraordinários

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Liga dos Cavaleiros Extraordinários

Lost Girls

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Lost Girls

Alan Moore

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Alan Moore e sua barba

Do Inferno

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Do Inferno

The Mindscape of Alan Moore

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The Mindscape of Alan Moore

A Voz do Fogo

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A Voz do Fogo

Alan Moore: Sim, eu desenvolvi. Até então, Melinda sempre havia trabalhado completamente sozinha, tanto como escritora quanto como artista. Era a primeira vez que ela trabalhava com um roteiro de história em quadrinhos, e ainda mais um dos meus roteiros de quadrinhos, que são coisas imensas, meio que do tamanho de uma lista telefônica, e que inundaram ela com um monte de informações detalhadas.

Portanto, depois de alguns capítulos de Lost Girls, Mel me perguntou se eu poderia fazer pequenos desenhos indicativos. Desse ponto em diante eu comecei o que para mim foi uma maneira nova de trabalhar - especialmente porque antes os meus outros colaboradores viviam longe demais para que eu pudesse sentar com eles e explicar do que o desenho desse pequeno rascunho realmente se tratava. Mas com Melinda, que estava vivendo aqui metade da semana, nós podíamos sentar e fazer os rascunhos. Eu não faria o diálogo de verdade, o que é minha prática normal. Eu esperaria até que Melinda tivesse terminado a arte e então se houvessem elementos que ela tivesse inventado e colocado por si mesma, como a expressão no rosto de um personagem ou algum pequeno detalhe na mobília, ou algo assim, eu poderia integrar as mudanças dela de maneira fluida no diálogo e, como resultado, eu acho que Lost Girls acabou sendo uma das colaborações mais naturais que já tive. Acho que isso é o mais próximo que eu já trabalhei com um artista em qualquer um dos meus livros. Eu tinha entrada na arte com os rascunhos em miniatura que eu fazia e ela tinha entrada no texto. Cada cena era discutida em detalhes e se houvessem partes dele sobre as quais Melinda não estava certa, ou que pareciam soar erradas, então elas seriam abandonadas e repensadas, até que nós tivéssemos algo com o qual ambos estivéssemos 100% de acordo. Pareceu-me um bom processo, mas não tenho certeza se eu poderia trabalhar assim novamente, tão próximo de alguém quanto trabalhei com Melinda. Foi uma experiência interessante, me educou bastante.

Você gostou tanto quanto aprecia seu processo normal?

Sim, eu gostei. Foi diferente. Eu sempre posso compôr um painel razoavelmente bom com meus esboços, mas se Melinda tivesse idéias visuais que fossem ainda melhores do que as minhas, então eu as aceitava.

Então, sim, foi completamente diferente da maneira como eu trabalhei antes e eu gostei desse processo apenas por essa razão. Quer dizer, todas as colaborações são levemente diferentes, dependendo da pessoa com quem você está trabalhando, mas essa com Melinda foi muito diferente, portanto muito, muito revigorante.

Existe algo que está sempre muito presente em seu trabalho, que é uma maneira de lidar com a narrativa muito ligada ao potencial das histórias em quadrinhos. Por exemplo, quando Wendy e Alice têm seu encontro sexual e você justapõe os sete pecados capitais às imagens delas juntas, ou quando elas estão no Balé assistindo ao Stravinsky e você mostra uma grande seqüência das duas na parte de baixo e o Balé em cima. Você sempre está explorando as possibilidades da narrativa em quadrinhos. Você acredita que isso é tão importante quanto o drama?

Ah, bem, pra mim eles tem que ser igualmente importantes. Sim, eu sou meio que um "formalista", eu realmente gosto de experimentar com a forma, pois já que vou trabalhar na mídia de Quadrinhos, então eu quero ter certeza de que estou testando aquilo ao máximo possível. Estou constantemente tentando ter novas idéias de como contar uma história em quadrinhos e, ao mesmo tempo, tentando criar uma narrativa forte, sobre algo no qual acredito apaixonadamente. É preciso ter substância na história, assim como uma forma elegante. Um não irá funcionar sem o outro. Em Lost Girls buscamos algo que tivesse substância emocional, intelectual e moral, e queríamos entregar essa mensagem da maneira mais elegante e atraente que pudéssemos. Então sim, eu adoro truques formais, eu fiz muito disso no meu trabalho, é verdade. Algumas das coisas em Promethea...

Ah sim, o pôster

Eu adoro essas coisas. De qualquer forma, eu tento fazer as coisas de maneira que o formato não pese demais sobre o conteúdo e vice-versa, portanto eles são igualmente importantes.

Você já teve uma idéia para uma história a partir de um truque estético? Algo como "Eu vou fazer uma história com formato de pôster e preciso de algo para preencher esse conceito"?

Sim, essa foi a maneira através da qual aqueles dois particularmente notáveis e inteligentes números de Promethea - o com as cartas de tarô e com pôster - surgiram. Nós estávamos pensando se era possível fazer um número inteiro como uma longa cena estática que incluísse todos esses elementos como uma progressão de cartas de Tarô, uma história resumida da raça humana e os anagramas do nome Promethea. Isso é algo que veio de uma idéia abstrata: "Será que é possível?" Eu acho que veio de ler um velho número da revista underground britânica Oz, na qual ao invés de terem artigos produzidos com cinco páginas por artigo e então uma página para uma tira de quadrinhos, e depois mais um artigo de seis páginas... e assim por diante... eles tinham pedaços de todos os artigos em todas as páginas. Então a tira de quadrinhos tinha um painel por página através da revista inteira, e havia uma figura correndo com balões de texto dando um pensamento diferente de narrativa que passavam pela revista inteira, e eu estava pensando "Isso é interessante, eu me pergunto se existe uma maneira mais formal na qual você poderia fazer esse experimento anárquico."

E aí veio a coisa com o pôster. Aquilo foi no meio de uma visão mágica e psicodélica. Eu subitamente fui tomado por uma espécie de percepção arrogante da minha própria onipotência e de repente decidi que iria fazer Promethea 32 o último número, e que ele seria uma maravilhosa narrativa psicodélica que, de alguma forma, magicamente se transformava em um pôster psicodélico de dois lados, e eu pensei "Ok, vai ser isso" e uns dois dias depois, quando estava pensando sobre o assunto eu percebi "Isso vai ser bem, bem difícil" (Risos) e eu sentei com um amigo meu e nós fizemos um boneco de papel pequeno, com uma folha, e o dobramos em um livrinho de 32 páginas, e numeramos as páginas, e percebemos que era quase impossível, que você não poderia fazer um desenho em linha que não se quebraria em fragmentos em diferentes lados do pôster. Foi aí que pensei em usar pontos impressionistas, com um adorável campo colorido psicodélico como o fundo de cada página, onde você teria sua linha dourada como uma iluminura. Então, se você estivesse lendo a revista como uma HQ, a linha do desenho seria a coisa mais visível, se você estivesse olhando para tudo como um pôster, a linha do desenho iria desaparecer na iluminura dourada e você conseguiria ver a imagem maior atrás.

Então assim que eu pensei isso tudo foi uma questão de pensar tudo por estágios até conseguir uma narrativa que se encaixasse nisso. Mas qualquer que seja o elemento no qual você pense primeiro (forma ou narrativa) é importante que ele tenha seu próprio peso.

Normalmente você encaixa a forma na narrativa ou faz o contrário?

Eu suponho que eu normalmente encaixo a forma na narrativa. Eu tenho idéias de narrativas mais frequentemente do que eu tenho sensacionais idéias de forma. Mas pode acontecer de todos os jeitos. Eu normalmente penso no que quero que a narrativa faça e como atingir todas as coisas às quais quero me referir, e então arranjo alguma espécie de estrutura que irá se encaixar nela. Mas pode acontecer o contrário também.

Há uma cena bem forte de sexo homossexual masculino em Lost Girls e isso foi uma surpresa para mim até certo ponto. Quer dizer, eu sei que é Alan Moore e não da para se prever muito, mas foi surpreendente estar no meio do livro, envolvido nele, e encontrar essa cena.

Sim, isso foi incluído parcialmente por que não queríamos ali apenas pornografia para homens heterossexuais. Nós queríamos também pornografia para mulheres e pessoas de outras sexualidades. E também por que eu sou um grande admirador da pornografia Vitoriana, do final dos 1800, quando, considerando o quão recatada a sociedade era, a pornografia era surpreendentemente liberal. Aparentemente, você tinha muito mais pluralidade, enquanto que, hoje em dia, é obrigatório a toda mulher em um filme pornográfico ser bissexual, enquanto os homens são rigidamente heterossexuais, e isso não era verdadeiro na era Vitoriana. Todo mundo parecia ser gloriosamente polimorfo, e isso retratava uma atitude mais saudável em relação ao sexo, diferente da pornografia muito especializada que temos hoje em dia.

Então, foi assim que aquela cena entre Howard e Rob surgiu, assim como outros momentos presentes lá. Nós queríamos incluir aquilo para sublinhar nossa simpatia com uma era dourada da pornografia e mostrar que a pornografia está aberta a pessoas de todas as persuasões.

Existe certa agressividade naquela cena, assim como em várias outras cenas de sexo no livro. Você queria manter essa tensão?

A coisa é que sexo tem todos os tipos de facetas nele. Nós não queríamos dizer que sexo sempre é uma coisa cheia de sensibilidade e bom gosto, já que isso não compreenderia tudo que é sexo, nem tudo do apelo que o sexo tem, sabe? Às vezes certa agressividade pode ser muito interessante. Nós estávamos muito conscientes de que não queríamos fazer desse trabalho uma sinfonia de uma nota só, nós queríamos tocar notas de todos os pontos do espectro emocional em termos de como o sexo é apresentado. Algumas vezes, sexo pode ser bruto e repentino, algumas vezes pode ser bem engraçado, algumas vezes pode ser muito sério e poético e romântico, às vezes pode ser agressivo, e nós queríamos variar a palheta, pois um dos problemas com a pornografia é a monotonia que se estabelece depois de algumas transas repetitivas que meio que acontecem todas no mesmo nível. Nós realmente tentamos fazer com que Lost Girls crescesse, em termos de intensidade sexual, em direção ao clímax, ao invés de começar com a orgia de sempre e continuar assim por 240 páginas. Nós pensamos muito no andamento e no tempo e na estrutura da coisa toda.

Olhando para as garotas e ao retrato das jornadas muito pessoais delas, percebemos que seu trabalho é repleto de pequenas cenas emocionais e intimas. Não apenas em Lost Girls, mas também em A Voz do Fogo, você tem o primeiro capítulo com o garoto que perde sua mãe, e outra história sobre um personagem que volta à sua vila e não há mais ninguém lá.

Por outro lado, você sempre está colocando eles nesse grande pano de fundo, seja a fundação de uma cidade em A Voz do Fogo, ou a Grande Guerra em Lost Girls ou a Inglaterra Vitoriana em Do Inferno, ou a Guerra Fria acontecendo enquanto vemos as histórias de Rorschach, Coruja, Dr. Manhattam, etc.

O que é mais dificil, debater esses assuntos grandes ou emocionar os leitores com a jornada pessoal dos seus personagens? O que você prefere fazer?

Bem, de novo, se você está fazendo uma pintura de uma paisagem, não é uma má idéia ter algum tipo de noção de escala humana, colocar uma pequena figura na praia para te dar uma idéia da escala da paisagem e ver como ela se relaciona com os seres humanos nela. São duas partes da narrativa que têm o mesmo peso: A paisagem e as pessoas nela. Ambos os tipos de narrativa me interessam. Eu estou interessado na narrativa de lugares, eu me interesso em como paisagens mudam, em como cidades mudam, como em A Voz do Fogo, e tão importante quanto isso, eu estou interessado nas vozes individuais das figuras que se movem pela paisagem e eu acho que.... Quer dizer, é isso que a realidade é em certa medida, não é? É uma série de paisagens com seres humanos se movendo através dela.

Pequenas histórias se movendo.

Sim, pequenas histórias. E prestar atenção nesses elementos me permite criar um senso de realidade muito mais completo, o que é, eu acho, o que todo escritor ou artista está tentando simular em seus próprios termos.

Algumas vezes, em relação a alguns de seus personagens, sentimos uma sensação de solidão e certa melancolia. Rorschach é um cara com o qual não dá pra concordar em nada, mas nós acabamos simpatizando com ele.

Minha teoria da personalidade humana é de que todo mundo tem uma espécie de gema com um milhão de facetas em algum lugar dentro de si e, quando nós construímos nossa própria personalidade, nós simplesmente polimos quatro ou cinco dessas milhões de facetas.

Existe a voz da personalidade com a qual falamos com nossos colegas, existe a voz com a qual falamos com os nossos pais, com as pessoas que amamos, e assim por diante, mas isso ainda são apenas quatro ou cinco facetas. Nós poderíamos ter polido quaisquer dessas facetas, então eu acho que nós todos temos todo um elenco em potencial dentro de nós, nós somos apenas aqueles nos quais focamos. Então essa é a maneira através da qual eu sempre lidei com caracterização.

Com um personagem como Rorschach, eu simplesmente tenho que me colocar nesse estado mental e, sim, eu tenho horríveis e negras fantasias de vingança, ou já as tive, tanto quanto qualquer um. E eu acredito que estava pensando "Bem, e se tudo que existisse de mim fosse só isso? Só essa vontade de punir os culpados?", e você começa a criar o personagem a partir disso. Com Dr. Manhattam, sim, por que eu tenho uma memória muito, muito boa, algumas vezes eu tenho a sensação de "Sim, está tudo acontecendo ao mesmo tempo. Eu posso me lembrar exatamente como era cinco anos atrás quando eu estava tendo uma conversa com essa pessoa, e agora nós estamos tendo uma conversa diferente com pessoas diferentes e esses eventos se sobrepõe e eles são muito intensos" e conforme você fica mais velho você nota isso mais, e então o Dr. Manhattam foi uma expressão disso. O Coruja foi uma expressão do tipo de garoto escolar romântico que meio que nunca cresce, e sim eu tenho isso em mim em algum lugar também, e o Dr. Gull, quando eu estava escrevendo Do Inferno, Melinda disse que eu tinha uma espécie de capa de maldade Vitoriana meio que amarrada ao redor de mim, quando eu estava apenas falando normalmente, havia essa gravidade muito pesada que eu associava ao Dr. Gull.

Você tem que entrar nos personagens, sabe? E ao mesmo tempo todos os personagens, os mais cheios de exuberância e prazer, são todos parte de mim. Os infelizes, melancólicos e solitários, os personagens psicóticos, eles são todos parte de mim. Eu estou reconhecendo isso.

De maneira geral, você compreende o garoto de A Voz do Fogo, Rorschach, Gull, e os ama também.

Você tem que amar os personagens. Isso foi algo que eu descobri quando estava escrevendo V de Vingança. Quando fui escrever os nazistas eu percebi que estava tratanto eles quase como caricaturas de nazistas. Todos eles, mais ou menos, tinham monóculos e os clichês de sempre. E eu pensei "Nazistas de verdade não são assim, nazistas de verdade são pessoas normais." É de lá que eles vieram. Eles eram limpadores de rua e padeiros e açougueiros que apenas colocaram um uniforme quando lhes pediram isso. Então, eu tentei criar seres humanos críveis que tivessem escolhido o fascismo por alguma razão, e descobri que alguns deles ainda eram personagens desagradáveis, mas provavelmente para entender os personagens você tem que amá-los de alguma forma, olhá-los sem julgamento e sentir um pouco de pena deles. Isso enriqueceu em muito os personagens de V de Vingança, acrescentou uma tridimensionalidade a eles, transformou a história em uma luta tridimensional ao invés de um trabalho moralista bidimensional com um glamouroso herói anarquista romântico lutando contra um monte de bonecos de papel fascistas. Essa foi uma lição que eu levei para todo o meu trabalho, que você tem que ter compreensão por todo mundo.

Em Lost Girls, na cena final, quando você tem aqueles soldados quebrando o quarto e dizendo um monte de coisas desagradáveis sobre mulheres, apenas levando uma conversa casual, não é que eles sejam figuras odiosas, eles são homens que estão frios e solitários e gostariam de estar em outro lugar, e eles provavelmente vão morrer num conflito que não foi explicado a eles direito e preferiam estar em casa, na cama com suas esposas.

Você tem que ter simpatia.

Eu estou convencido que se você olhasse no coração de todo mundo, no planeta, é muito provável que você iria achar algo lá que você poderia amar, algo que você poderia respeitar. Pode haver uma enorme massa de coisas que são absolutamente horríveis, mas eu estou convencido que em todo mundo há um fragmento de algo pelo qual você pode sentir simpatia, que você pode olhar para alguém que se tornou um monstro e voltar a algum ponto na infância deles e pensar "Bem, você também não teve muita chance não é mesmo? Você tomou algumas decisões ruins, eles estavam olhando ao redor de você para te dar as pistas certas, e você terminou como um monstro imperdoável". Eu acho que isso é importante. Você tem que ter simpatia pela pior das criaturas se quiser ser um escritor bem sucedido.

Bem, agora uma questão mais prática, sobre próprio processo de criação: eu sei que diferentes projetos exigem diferentes processos, mas como você normalmente começa a preparar o seu trabalho para escrever?

Bem, deixe me ver. O maior trabalho recente que eu comecei é Jerusalem, e isso apareceu da crescente percepção que eu tive de quão fantástica é a comunidade de onde eu vim, e eu percebi que estava explorando minha própria mente, eu estava pensando na minha família, eu estava pensando na área onde todos crescemos e eu comecei a perceber que havia esse incrível tesouro de histórias que podiam ser contadas. Eu comecei a pensar de uma maneira na qual elas poderiam ser colocadas juntas. Esse é um enorme projeto.

Eu sentei e escrevi uma lista de coisas sobre as quais eu queria falar e separei elas em trinta e cinco nomes de capítulos interessantes com os quais eu estava satisfeito. Então eu olhei para esses títulos e pensei "Bem, ok, isso é um prólogo e um epílogo e três sessões de onze capítulos." Então uma estrutura começa a emergir: eu dividi os trinta e cinco títulos de capítulos com breves notas sobre o que cada um possivelmente seria sobre em três pilhas: começo, meio e fim do livro, e então eu as coloquei em ordem, e comecei com o prólogo e escrevi aquilo, fui para o capítulo um da parte um e estou progredindo pelo livro assim.

Eu meio que me arranjei uma enorme estrutura sólida, e agora o processo é trabalhar dentro dela. Isso provavelmente vai me levar uns dois anos e provavelmente vai ter meio milhão de palavras quando acabar. Esse é um jeito com o qual trabalhar: não importa o tamanho do projeto que você está tentando fazer, coloque toda sua informação, todas as coisas sobre as quais quer falar no papel, numa enorme bagunça espalhada e então passe a impor algum tipo de estrutura. Pode ser uma estrutura arbitrária sob a bagunça, e você vai descobrir que está um par de passos à frente no processo de criar de verdade um trabalho finalizado.

Esse é um bom exemplo de como eu trabalho. Você só tem que mudar isso um pouco para falar sobre como eu criei Do Inferno ou Lost Girls, sabe? A estrutura pode ser diferente a cada caso, mas é bem assim que eu faço. Eu pego a idéia, a atmosfera daquilo sobre o que eu quero falar, e então eu tento dividir isso em pedaços usáveis, e daí eu tento colocar esses pedaços em alguma espécie de ordem grosseira, normalmente de acordo com uma estrutura de três partes, por que essa é uma estrutura muito durável.

Você faz fichas para os personagens?

Eu fiz isso apenas uma vez e foi com Big Numbers, no qual eu peguei um pedaço grande de papel pautado, que dividi em quarenta nomes ou algo assim pelo lado e pelos 12 números da série no topo, então eu tinha algo como 500 pequenos quadrados nos quais eu escrevi o que cada personagem estava fazendo em cada número, e isso foi feito principalmente para assustar outros escritores (risos), mas foi um experimento útil, no que diz respeito à progressão de Big Numbers. Eu tendo a fazer isso na minha cabeça agora, ou em breves notas ao invés de produzir algo pra fazer o Neil Gaiman ficar ansioso (risos). Mas é o mesmo processo.

Eu estava falando com Dez Vylenz, que fez o filme The Mindscape of Alan Moore e nós estávamos pensando se você, com suas performances, e já tendo um número até que grande de CDs para quem não é, por assim dizer, um "músico profissional", se sentiria à vontade trabalhando com outras mídias. Fazendo filmes ou algo assim.

Pode muito bem acontecer. Quer dizer, eu não sei onde ou quando, no momento eu tenho um calendário fechado com todos os projetos no qual embarquei como escritor, o Bumper Book of Magic (com Steve Moore, a ser publicado pela Top Shelf) o terceiro volume da Liga e Jerusalem, mas eu tenho falado com pessoas. Tem um cara local, Barry Hale, que lidera um curso de cinema e fez trabalhos fantásticos. Ele estava me perguntando se eu estaria interessado em fazer um pequeno filme mágico. Então, sim, se o tempo permitir e eu tiver uma idéia boa o suficiente. Nós estávamos falando outro dia sobre a possibilidade de performances de Cabaré... Eu não falo com Tim Perkins há um bom tempo porque ele se mudou para Oxford, onde ele está criando bebês a despeito de todos os conselhos que eu lhe dei ele foi em frente... (risadas) Mas nós devemos entrar em contato logo e eu sei que Tim está montando um estúdio na sua garagem, então nós temos muitos recursos entre nós e as pessoas que nós conhecemos, e nos anos vindouros eu tenho certeza de que eu vou me ver fazendo todos os tipos de coisas, mas eu não posso dizer a você o quê e quando elas acontecerão, mas eu sempre estou procurando por novas maneiras sobre as quais eu me entusiasme para me expressar, então, sim, eu não vou me ater aos quadrinhos de maneira alguma. Na verdade, é bem o oposto. Quadrinhos serão apenas parte do meu trabalho, no futuro.

Você não vai mais fazer quadrinhos depois da Liga?

Bem, eu não sei, provavelmente farei, mas eles não serão de forma alguma todo o meu trabalho. As atividades da DC e da Wildstorm me desmotivaram a trabalhar com qualquer editora de quadrinhos de grande porte novamente. Então, fico bem feliz fazendo o livro de magia, por exemplo, que tem tiras de quadrinhos nele e um monte de outras coisas que não são quadrinhos de maneira nenhuma. Até mesmo o Black Dossier ("Dossiê Negro", da Liga dos Cavaleiros Extraordinários). Quando a DC e a Wildstorm finalmente decidirem lançar isso, eu acho que as pessoas vão ver o tipo de alcance que eu espero cobrir no futuro. Existem muitos quadrinhos lá e existe muita coisa que não é nada de quadrinhos, textos e outros elementos surpresa. Essa é a área brincalhona na qual eu quero trabalhar no futuro. Onde você pode levar a sério ser brincalhão.

Alan, muito obrigado pela entrevista!

O prazer foi meu. E, por favor, estenda meus cumprimentos e melhores desejos a todo mundo no Brasil.

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