Filmes

Entrevista

"Tropa de Elite fugiu do estereótipo marxista do cinema nacional", diz José Padilha

Cineasta fala sobre os dez anos de seu maior sucesso e a mítica do Capitão Nascimento

Rodrigo Fonseca
22.03.2017
10h48
Atualizada em
29.06.2018
02h47
Atualizada em 29.06.2018 às 02h47

Dez anos se passaram desde que o Capitão Nascimento deu suas primeiras duras na bandidagem carioca: lançado em 2007, em meio ao escândalo de ter vazado para os camelôs, tornando-se um fenômeno de venda entre os DVDs piratas, Tropa de Elite comemora uma década de existência. O tempo passou, mas o filme manteve sua importância histórica como um divisor de águas no cinema brasileiro.

Tropa de Elite

Laureado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2008, o longa-metragem de José Padilha abriu uma discussão sociológica sobre a segurança pública no Rio de Janeiro – e no resto do Brasil – que desafiou certezas em relação ao papel institucional da Polícia Militar e também sobre a corrupção no poder.

Campeão de bilheteria, com cerca de 2,4 milhões de ingressos vendidos (e o mito de que teria sido visto por 15 milhões de pessoas via pirataria), o filme estabeleceu Wagner Moura como um dos atores mais populares do Brasil. Seu impacto no gosto do público motivou uma continuação, Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro, lançada em 2010. A sequência arrastou 11 milhões de pagantes aos cinemas, consagrando-se como o maior vendedor de ingressos do país desde os anos 1970 – sendo desbancado apenas em 2016, por Os Dez Mandamentos – O Filme. O êxito comercial da franquia garantiu a Padilha prestígio, prêmios e uma carreira internacional, com direito a superprodução em Hollywood - RoboCop (2014) - e um seriado consagrado: Narcos (2015/16).

Atualmente, o diretor se debruça sobre a montagem de um novo longa em língua estrangeira, o thriller Entebbe, sobre o sequestro de um avião envolvendo a luta Israel vs. Palestina. Mas, num intervalo da edição, Padilha conversou com o Omelete sobre o legado de seu maior sucesso.

O que Tropa de Elite representou em termos sociológicos e estéticos em relação ao Brasil dos anos 2000 e de que maneira as reflexões sobre Segurança Pública levantadas pelo longa-metragem se transformaram nestes dez anos?

José Padilha: Acho que uma das principais diferenças do Tropa de Elite com relação à cinematografia brasileira anterior ao filme é temática. O Tropa fugiu do estereotipo marxista do cinema nacional, dado que não teve como protagonista um herói excluído pelo sistema capitalista. Na cinematografia brasileira anterior ao Tropa, o protagonista era sempre o menino de rua (Sandro de Ônibus 174 é um exemplo), o pequeno marginal, o preso político ou o militante antiditadura. Um policial protagonista era impensável.

O Tropa quebrou este paradigma, e elegeu um policial particularmente violento como personagem principal. E mais, tentou explicar a lógica por trás do comportamento deste policial, enquanto mostrava as violências e atrocidades que ele cometida contra os excluídos. Ao fazer isto, o Tropa abriu um campo temático novo, ignorando a tradicional patrulha de esquerda, que sempre tentou e ainda tenta pautar o foco dos filmes nacionais. Mexeu em um vespeiro, daí a polemica.

E, no entanto, o Tropa nunca foi um filme de direita. Tanto assim que alguns ícones da esquerda, como (o diretor franco-grego) Costa-Gravas, abraçaram o filme. Hoje, olho para a classe artística brasileira, e para a incapacidade que muitos artistas tem de admitir a óbvia realidade de que o PT foi um partido extremamente corrupto, e vejo que o Tropa ainda é um filme atual. No Brasil (e em quase todos os outros países) a ideologia cega... muito mais do que ajuda a ver. Tanto a direita quanto a esquerda.

Omelete: Que tipo de herói ou anti-herói o Capitão Nascimento representou em sua estreia e em sua sequência, a de 2010, e que personagens ele influenciou?

José Padilha: O capitão Nascimento do Tropa 1 influenciou sobretudo o Capitão Nascimento do Tropa 2. No Tropa 2, Nascimento é forçado a entender que toda a violência que ele empregava era vã, e que os governantes para quem ele trabalhava estavam, no fundo, na origem das mazelas sociais, da corrupção policial e da criminalidade do Rio. E que estes governantes “ideologizavam” em proveito próprio. Em Tropa 1, Nascimento e Mathias incorporam a tese de que o algoz só se torna algoz em função de uma lógica social, e de que o algoz também pode ser entendido, pelo menos em parte, como “vitima” desta lógica. Em Tropa 2, Nascimento aceita isto e se vê forçado a concluir que o seu discurso retrógrado e repressor de direita era tão falho e hipócrita quanto a hipocrisia que ele via na esquerda nacional.

Omelete: Existe alguma chance de o Capitão Nascimento voltar? Você pensa em retornar à questão da violência nacional de alguma forma?

José Padilha: Não, para as duas perguntas. A não ser que o conceito de violência “inclua” as mazelas resultantes da corrupção. Neste caso, estou prestes a retomar o assunto com a serie que preparo sobre a Operação Lava-Jato.

Omelete: O que você poderia nos contar sobre Entebbe, seu novo longa-metragem? Sai este ano?

José Padilha: Entebbe fala sobre o conflito entre Israel e a Palestina. Estamos montando, e o filme ainda não tem data para sair.

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