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O Lar das Crianças Peculiares é tudo, menos peculiar

Filme de Tim Burton não consegue reproduzir encanto do material original

Guilherme Jacobs
26.09.2016, às 15H18
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H47
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H47

Adaptar livros para o cinema, uma das práticas mais comuns da indústria da sétima arte, pode ser um processo extremamente danoso para a história original. Mudanças são coisas comuns, talvez alguém mude de sexo, etnia ou idade, mas o real problema é quando a transferência acaba prejudicando algo que é a base da narrativa, e consequentemente, tudo que depende disso é prejudicado. É exatamente isso que acontece com O Lar das Crianças Peculiares, longa dirigido por Tim Burton.

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O filme adapta a obra O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, escrita por Ransom Riggs como parte de uma trilogia focada em um grupo de crianças que, como o título já deixa claro, não se encaixam no padrão. Na história, elas têm habilidades especiais como flutuar, ter um corpo cheio de abelhas e superforça. Tanto Riggs quanto Burton não gostam de usar  a palavra poderes, o que daria a ideia de estarmos lidando com super-heróis. Essas características são sempre descritas como peculiaridades. 

* Leia a nossa crítica do bestseller de Ransom Riggs

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É nesse mundo que entra Jake (Asa Butterfield), que vai para a casa onde vivem a Srta. Peregrine (Eva Green), Emma (Ella Purnell), Claire (Raffiella Chapman) e outras crianças cheias de surpresas com o objetivo de descobrir mais sobre seu misterioso avô, Abe (Terence Stamp). O relacionamento entre o garoto e seu avô é a chave da história. É por que Jake se importa em descobrir sobre a vida de Abe que nós queremos descobrir também. O amor que um sente pelo outro é a isca para nos puxar para esse mundo fantasioso. Então por que isso não está no filme?

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É claro que cortes vão acontecer na hora de adaptar uma história, mas em troca de ter mais tempo com as crianças peculiares e com os vilões liderados por Barron (Samuel L. Jackson), Burton e a roteirista Jane Goldman sacrificam quase toda a interação entre Jake e Abe. O roteiro é econômico, algo necessário nesse tipo de adaptação, e em certos momentos isso funciona muito bem, levando personagens aos lugares onde eles precisam chegar de uma maneira rápida e lógica, mas O Lar das Crianças Peculiares não estabelece o relacionamento mais importante do enredo e, como consequência, é difícil investir no que acontece em sequência. 

Uma das coisas brilhantes que Riggs faz no livro é que, nas interações do menino com seu avô, nas quais Abe conta histórias sobre o lar da Srta. Peregrine, passamos a conhecer mais sobre as crianças que Jake, depois, conhece. Isso faz com que nos importemos com elas antes mesmo que o protagonista as veja ao vivo e em cores. Por conta da pressa em levar o filme para pontos importantes e visualmente interessantes - já que é nos visuais onde Burton pode brilhar mais - os relacionamentos sempre parecem ser básicos, unidimensionais e rasos.

Não ajuda que os atores (com exceção de Purnell, que vai conquistar alguns corações com sua atuação), parecem estar com sono ou atuando apenas para passar de média. É difícil criar um investimento emocional neste grupo de pessoas. Logo, quando chega a hora de Burton derrubar nosso queixo com seus visuais - que ora funcionam, ora parecem mais uma festa de computação gráfica - nós não estamos dispostos a fazer isso, porque emocionalmente, não aconteceu nenhuma conexão com as crianças peculiares.

Assim, O Lar das Crianças Peculiares é tudo menos peculiar. Tirando a quantidade de efeitos visuais, o filme é extremamente econômico e previsível. Seja nos personagens, enredo ou atuações, toda a magia que se espera de Burton e de um filme como esse se extinguiu em troca de, quem sabe, uma franquia nova para a 20th Century Fox. O encanto dessa história, o que motivou o estúdio a comprar os seus direitos de adaptação ao cinema, continua reservado ao livro original. 

O Lar das Crianças Peculiares tem estreia prevista no Brasil para 29 de setembro. A crítica completa será publicada nesta quinta. 

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