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Um Lobisomem Americano em Londres faz 40 anos sob constante ameaça de remake

Clássico de 1981 permanece estranhamente encantador com mistura única de horror e humor

Eduardo Pereira
21.08.2021
16h39
Atualizada em
21.08.2021
16h50
Atualizada em 21.08.2021 às 16h50

Um Lobisomem Americano em Londres (1981) costuma ser mais frequentemente lembrado por seu excepcional trabalho de maquiagem encabeçado por Rick Baker, que rendeu um Oscar ao filme, ou por ter o que é até hoje a melhor cena de transformação licantrope já feita com efeitos 100% práticos na historia do cinema (veja acima). Mas a verdade é que o filme de John Landis (Os Irmãos Cara-de-Pau) oferece muito mais que só esmero técnico na recriação de carne humana dilacerada, retorcida ou apodrecida. Mistura de horror e humor que conduz com suavidade o seu mergulho em ambos os gêneros, a produção equilibra uma moderna e inteligente releitura do clássico O Lobisomem (1941) com uma sátira da relação Inglaterra-Estados Unidos digna de Um Peixe Chamado Wanda (1988). Completando 40 anos de seu lançamento nos Estados Unidos neste sábado (21), ele permanece atual, divertido e astuto.

Como dois amigos norte-americanos das antigas que decidem fazer um mochilão pela Inglaterra e depois desembocar na Itália, David Naughton e Griffin Dunne têm química de sobra, transmitindo a noção de passado compartilhado entre ambos logo na primeira cena. O entendimento da importância disso, essencial para que o destino da dupla enquanto vítimas de uma misteriosa criatura da noite seja algo a preocupar o público, mostra o empenho de Landis em valorizar os principais alicerces da relação emocional entre trama e espectador, mesmo adotando desde o início um tom satírico. A cena do ataque, inclusive, é conduzida de forma louvável, se valendo da vastidão da região rural britânica para aumentar a tensão e ocultar os movimentos limitadíssimos do boneco que representa o monstro. Ver como ela ainda funciona tão bem, quatro décadas depois, é mais que entretenimento: trata-se de uma aula sobre o poder da austeridade visual no horror.

Griffin Dunn e David Naughton em Um Lobisomem Americano em Londres
PolyGram Filmed Entertainment/Divulgação

É justamente nessa engenhosidade empregada para poupar recursos que o filme amplifica sua eficiência. Recorrendo logo de cara a muitas tomadas de câmera subjetiva (curioso que Lobisomem tenha chegado aos cinemas só algumas semanas antes que Uma Noite Alucinante, que fez Sam Raimi famoso pelo uso criativo do recurso), sequências de sonho gradativamente inquietantes e pouquíssima exposição do monstro em si, Landis amplifica o impacto das cenas mais chocantes: de um pesadelo bizarro com lobisomens nazistas e metralhadoras, até a tão elogiada transformação. É só quando o filme atinge o terceiro ato que o cineasta abre a porteira e exibe em maiores detalhes a criatura maldita, entendendo que o desenvolvimento de personagens, bem conduzido até ali, compensará a quebra de credibilidade que os efeitos limitados da época poderiam trazer.

No meio disso tudo, é divertido pinçar as referências que Landis usa ou descarta sobre o mito clássico dos lobisomens para construir o seu próprio cânone. Enquanto dispensa a obrigatória aversão das criaturas à prata, ele abraça a muitas vezes esquecida maldição que acomete vítimas do monstro. Transformadas em mortos-vivos, elas passam a acompanhar e perturbar aquele que os colocou no limbo entre a vida e a morte. É a chance para que Dunne entregue uma atuação fanfarrona e carismática mergulhado em prostéticos tão caprichados quanto nojentos, roubando a cena de um Naughton que parece sempre estar prestes a rir nessas conversas. Protagonista, ele depende mais do que deveria no apoio dos colegas de cena para sustentar as passagens mais dramáticas, mas brilha nas passagens cômicas e também no romance canastrão que desenvolve com a enfermeira vivida por Jenny Agutter.

Jenny Agutter em Um Lobisomem Americano em Londres
PolyGram Filmed Entertainment/Divulgação

Confesso que foi um alívio ver como, por mais que se apoie na batida fetichização da figura da enfermeira, a relação entre os personagens serve também para reforçar a independência e a individualidade da personagem de Agutter, que sempre está no controle da relação entre ambos. E por mais que química sexual dos personagens não convença, e a cena de amor do casal seja mais constrangedora que sensual, é dela a atuação mais profunda e convincente, espelhando em largos olhos verdes a trágica ironia que o filme constrói em seu desfecho. Porque por mais que Um Lobisomem Americano em Londres abra ao som de uma dançante versão de "Blue Moon", e não canse de oferecer momentos leves em meio à tensão das cenas de horror que apresenta, seu encerramento é frio, desolador e desprovido de esperança. Mais um exemplo de como Landis emprega tão bem o contraste entre escassez e excesso ao longo da narrativa.

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No livro Beware The Moon: The Story Of An American Werewolf In London, de Paul Davis, Landis revela que chegou a planejar uma sequência direta para o clássico em 1991. A ideia seria apresentar a personagem Debbie Klein, mencionada pelos personagens de Naughton e Dunne no original. Em viagem a trabalho para Londres, ela acabaria se envolvendo com a maldição dos licanos ao investigar o que havia acontecido com os amigos. Com essa premissa, os retornos da dupla de atores, além de Agutter seriam viabilizados, e a ideia era que a trama fosse ainda além na mescla de gêneros e excentricidades que marcaram o clássico. Uma pena que, como um jornalista fã de horror que conheço diria, a hoje extinta PolyGram Filmed Entertainment foi covarde, não bancando a produção.

O trailer do arrepiante (de tão ruim) Um Lobisomem Americano em Paris (1997)

O resultado disso foi a produção do lamentável Um Lobisomem Americano em Paris (1997), que não envolveu Landis (que escolheu se afastar depois da recusa ao seu roteiro de 1991, contanto que recebesse a compensação financeira apropriada), apresentou novos personagens (desinteressantes) e abriu mão dos brilhantes efeitos práticos que marcaram o primeiro filme, optando por um CGI terrível. Fracasso de crítica e público, o filme sepultou mais ideias de sequência, mas deu origem à constante ameaça de um remake.

Em 2009, a Dimension Films anunciou a produção de um, que acabou cancelado. Em 2016, o filho de John Landis, Max Landis, afirmou que havia herdado o projeto e seguiria com ele, mas denúncias de abuso emocional e sexual reveladas contra ele no ano seguinte descarrilharam o projeto e nos pouparam de mais uma obra medíocre da mente por trás de Victor Frankenstein (2015) e Bright (2017). Mais recentemente, em 2019, foi Robert Kirkman (The Walking Dead) o nome apontado como responsável por um novo Um Lobisomem Americano em Londres, mas dois anos de silêncio desde então fazem parecer que a ideia também dorme com os peixes.

Talvez seja para o melhor. Depois de Lobisomem, Landis até dirigiu outros sucessos, em especial o ícone da TV aberta brasileira Um Príncipe em Nova York (1988), mas nunca mais uma de suas obras foi tão singular, influente e memorável quanto o filme de 1981. Pode soar improvável demais pensar que outro diretor conseguiria captar a extravagante essência do filme original, modernizá-la e entregar uma obra que seja igualmente nova e reverente o bastante para fazer jus a um clássico que resiste ao testo do tempo mesmo depois de 40 anos. Ainda assim, improvável também era a ideia de um licano caminhar pelas ruas de Londres em plena década de 1980. Quem sabe dos horrores que guarda uma noite de lua cheia...

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