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Gótico Mexicano é encantadoramente assustador

Milena Enevoada discute a obra de Silvia Moreno-Garcia no OmeleTV

A cozinha
08.05.2021
15h00
Atualizada em
08.05.2021
19h24
Atualizada em 08.05.2021 às 19h24

Gótico Mexicano, romance de Silvia Moreno-Garcia, fez muito sucesso entre os leitores gringos e quando chegou aqui no Brasil pela editora Darkside Books não foi diferente. Se você está procurando um livro com elementos góticos, carregado de mistério e suspense, esse livro é pra você! Entenda o que torna a obra tão chamativa no OmeleTV acima!

Em Gótico Mexicano, acompanhamos a história de Noemí que é super ambiciosa e nada dentro do padrão da mulher dos anos 1950, ainda mais no méxico. Ela quer terminar a faculdade e não pensa em casar tão cedo. Suas atitudes não são tão aprovadas pelo pai, mas ele vê uma forma de lidar com a filha após receber uma carta de sua sobrinha Catalina. A carta é carregada de desespero, como se ela estivesse realmente correndo perigo na mansão onde mora com seu marido. O tio nunca aprovou esse casamento, então resolve mandar Noemí para verificar o que está acontecendo e em troca, ela pode fazer o mestrado que tanto sonha.

Quando Noemí chega a High Place (mansão onde a prima mora) se depara com uma mansão no estilo vitoriana como a protagonista mesmo diz “a construção parecia vitoriana, com telhas quebradas, ornamentos elaborados e janelas salientes sujas” Ela se sente um pouco desconfortável, principalmente depois de ver os criados da casa que parecem marionetes, ver que tem regras absurdas impostas pela governanta como “não pode falar durante o jantar, não pode fazer muito barulho quando anda”. Mas, ela fica ainda mais assustada depois de ver o estado da prima Catalina, que está completamente diferente da visão alegre que Noemí tinha da prima que contava histórias de contos de fadas e sonhava com um verdadeiro amor. A partir disso, Noemí percebe que tem algo muito errado com aquela família e principalmente com a casa.

Silvia Moreno-Garcia sabe escrever suspense. Primeiro a ambientação da casa é perfeita e ela coloca elementos muito vistos em obras com esse tom vitoriano. Aqui vamos nos situar em um México de 1950 e a autora fez questão de quebrar aquela visão do latino que em geral são representados como imigrantes sofridos e incultos. E como eu disse, ela realmente coloca aquele tom de casa assombrada e existem vários elementos legais dentro da história como pesadelos, alucinações que muitos explicam serem causadas até mesmo por conta do gás das lâmpadas que podem causar vários sintomas como vômito, fraqueza, dor de cabeça e etc. Esses elementos são muito bem explorados e convertidos ao sobrenatural.

Silvia desde o momento em que Noemí chega à mansão, cria cenas de suspense que prendem o leitor, e são cenas muito visuais, é impossível não imaginar. Os diálogos são bem estruturados e ao mesmo tempo deixam o leitor confuso de propósito, é como se ela tivesse criado sua teia de aranha para prender o leitor até a narrativa chegar no ápice.

Outra coisa bem interessante na narrativa é que ela usa muito o símbolo Oroboro. Em um diálogo de Noemí com o marido de sua prima, ele explica que é o infinito, acima e abaixo da família Doyle, isso é muito importante porque é como se amarrasse toda a narrativa e se conectasse com todo o mistério da história. Silvia usa muitas referências do gótico e do cosmicismo mesmo para construir sua história, em alguns momentos dá pra lembrar de algumas histórias de H.P. Lovecraft, e também de O Morro dos Ventos Uivantes, e Jane Eyre. É um clima sombrio, melancólico, obscuro e cheio de mistérios.

Mas, não pense que por ser um suspense que se passa em 1950, Silvia não aborda alguns temas e traz críticas sociais. O livro tem algumas cenas de xenofobia, discriminação racial, misoginia e aborda o combate ao patriarcado. Noemí até fala que naquela época, as mulheres mexicanas não tinham o direito ao voto e é muito incrível como ela entrelaça isso na narrativa e tem tudo a ver com a reviravolta e a intenção da história. Ela não coloca de graça, mesmo que não se aprofunde totalmente, faz sentido com toda a situação da história.

E pra quem está esperando uma narrativa mais lenta por ser suspense, pode ser que no começo seja um pouco lento pro leitor se encontrar na história, mas depois vai como vinho. Ela escreve muito bem e com certeza é uma autora que sabe prender o leitor, porque as finalizações de capítulos só ficam melhores, ela cria todo um clima de curiosidade que faz com que a gente não largue o livro pra saber mais de toda a fofoca ao redor dessa família misteriosa que são os Doyle. Fora que a protagonista é incrível! Ela é debochada, encantadora e muito inteligente. Noemí sabe o que está fazendo e todos os seus passos são incrivelmente calculados, são raras as cenas que você vai ver a protagonista agir por impulso, ela analisa muito bem a situação. E como ela é persistente, você vai adorar acompanhar tudo o que ela vai fazer pra chegar até o fim desse mistério.

Gótico Mexicano foi finalista do Bram Stoker Awars 2020, e foi eleito o melhor livro de horror pelo Goodreads Awards 2020. A autora tem um mestrado sobre H.P Lovecraft e é muito legal ver esses autores não-brancos usando as obras dele como referência mas ressignificando muitos de seus preconceitos e os excluindo.

Ah, e mais uma curiosidade, Gótico Mexicano vai virar série pela Hulu, e a autora será a produtora-executiva! Dá pra fazer uma adaptação bem fiel e assustadora.

Ainda não há previsão de estreia para a série de Gótico Mexicano.

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