Na TV, Chucky casa ousadia visual e sátira social melhor do que pode no cinema

Créditos da imagem: Alyvia Alyn Lind e Zackary Arthur em cena de Chucky (Reprodução)

Séries e TV

Artigo

Na TV, Chucky casa ousadia visual e sátira social melhor do que pode no cinema

Primeiro episódio indica que formato e liberdade da televisão só fizeram bem ao brinquedo assassino

Caio Coletti
27.10.2021
06h00

Há algumas imagens inesquecíveis no primeiro episódio de Chucky, série que continua o legado da franquia Brinquedo Assassino na televisão, e que chega ao Brasil pelo serviço de streaming Star+ hoje (27). O criador da saga, Don Mancini, assume a direção deste piloto, mostrando mais uma vez que sabe melhor do que ninguém o que realmente funciona para o seu assassino em miniatura - e o que funciona é a reinvenção.

Da bizarra escultura feita de bonecas de plástico que adorna o quarto do protagonista Jake (Zackary Arthur), um jovem sensível com aspirações artísticas, passando pelo relâmpago que ilumina uma conversa entre o boneco assassino (voz de Brad Dourif mais uma vez) e o garoto no final do capítulo, Chucky mostra que sua encarnação televisiva é um produto mais visualmente ousado do que as anteriores, mas nem por isso deixa de lado a sofisticação narrativa (é sério!).

Embora Brinquedo Assassino não seja uma franquia que, historicamente, combine muito bem com o adjetivo “sofisticado”, Chucky se distancia discretamente desse paradigma. Mancini, no comando também do roteiro, parece disposto a aproveitar o espaço de uma temporada de oito episódios para elaborar uma visão mais clara do terror perturbadoramente celebratório que já vinha construindo aos poucos, entre altos e baixos e mudanças de gênero, no subtexto dos sete filmes da franquia.

Chucky é uma série que constantemente se questiona quem são os monstros de sua história. O protagonista, que é gay, convive com um pai (Devon Sawa, de Gasparzinho e Premonição) homofóbico, que expressa essa homofobia primeiro de maneira tácita, e depois de maneira agressiva. O primo dele, Junior (Teo Briones), preso pela percebida necessidade de ser popular no colégio, namora a cruel Lexy (Alyvia Alyn Lind) e trata Jake de maneira desdenhosa - na definição mais generosa possível.

Na figura de Chucky, que faz sua primeira grande aparição no piloto dando um discurso arrasador no colégio de Jake (momento destacado pelas prévias e trailers da série), onde desmonta as fachadas dos colegas mais cruéis dele, o protagonista encontra uma espécie de voz da consciência, digamos… proativa. Mancini não economiza na brutalidade do seu boneco assassino, mas trata os atos de violência dele como um questionamento moral, para Jake e para o público: qual é a medida adequada da resposta à opressão, e quem está de fato ao lado daqueles que a sofrem?

Não me leve a mal, no entanto: Chucky ainda é estupidamente divertida, e uma pitada generosa de sátira (e não drama) social só faz adicionar ao sabor deliciosamente absurdo que foi a única constante da franquia desde sua estreia, em 1988. Brad Dourif continua se esbaldando na missão de dar a Chucky o tom zombeteiro e vulgar que o transformou em um ícone, a principal morte do piloto está entre as mais espetaculares de toda a saga, e o elenco jovem nunca parece levar seus próprios personagens a sério demais.

A liberdade de conteúdo da televisão, que está séculos-luz à frente do cinema americano em termos de representatividade e discurso, assim como a mudança de formato, só fez bem ao nosso brinquedo assassino favorito. O primeiro episódio de Chucky está disponível no Star+, que lançará os outros capítulos da temporada de maneira semanal, às quartas-feiras.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.