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As Tartarugas Ninja e a realização do sonho de George Lucas

Diretor de efeitos do novo filme dos discípulos do Mestre Splinter explica as inovações criadas pela a Industrial Light and Magic para a nova aventura

Érico Borgo
11.08.2014
17h58
Atualizada em
29.06.2018
02h47
Atualizada em 29.06.2018 às 02h47

Na manhã de 21 de julho, visitei a sede da Lucasfilm em Presidio, San Francisco. Recepcionado pela fonte com uma estátua do Mestre Yoda na porta e passando pela recepção mais magnificamente nerd do planeta, completa com o figurino original de Darth Vader e estátuas de bronze dos grandes nomes dos efeitos especiais dos anos 30 e 40, porém, eu não estava nos antigos domínios de George Lucas para algo relacionado a Star Wars. A razão da visita era a "renascença" das Tartarugas Ninja no cinema. Nada mais apropriado para os quatro quelônios com nomes de artistas italianos do Século XV.

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Na Industrial Light and Magic, uma equipe de quase uma centena de artistas trabalha na nova adaptação dos quadrinhos de Kevin Eastman e Peter Laird. No comando, o argentino Pablo Helman, de Star Wars Episódios I e II, O Último Mestre do Ar e Guerra dos Mundos, entre dezenas de outros projetos. "Lembra delas?", começou, mostrando Leonardo, Donatelo, Michaelangelo e Rafael em suas versões de borracha dos anos 1990. "Era legal, né? Dá uma nostalgia. Mas para este filme precisávamos de algo novo, nunca visto".

Com essa premissa, a ILM começou a trabalhar nos quatro personagens totalmente digitais, criados a partir da performance de atores. "Existe muita tecnologia de captura de movimento no mercado, mas criamos algo totalmente novo, chamado ILM Muse, pois há algo muito diferente neste Tartarugas Ninja. É uma comédia, afinal, - e comédias exigem que o improviso seja capturado. O tempo da comédia não pode ser prejudicado por aparatos tecnológicos. Então, como garantir que a atuação seja fielmente registrada?", questionou.

A resposta foi uma mistura de técnicas. Primeiro, a ILM queria cercar-se da maior quantidade de dados já registrada em uma captura de atuação. Um sistema de câmeras duplas foi montado em capacetes que registraram cada nuance do rosto dos atores que viveram as Tartarugas Ninja no set. Em alta definição, a 30 quadros por segundo. "Isso nos dava um terabyte de informação por rosto por dia", explicou Helman. Dados sem qualquer interferência humana, que eram transferidos por wifi para os computadores o tempo todo, diretamente em um software de animação. "Com isso, os animadores da ILM puderam transformar os movimentos humanos em movimentos super-heróicos, das tartarugas, dentro de um ambiente já completamente conhecido por eles".

No total, 181 controles - os "sliders" - registram o posicionamento preciso de cada um dos pontinhos aplicados sobre o rosto dos atores. As marcas são precisamente colocadas diariamente, com o auxílio de uma máscara criada a partir do molde 3D do rosto de cada um. "Eu sou como o cara que consegue ver a Matrix", brincou o diretor de efeitos enquanto observa um gráfico com as dezenas de pontinhos movendo-se pela tela. Cada segundo gera 24 quadros assim, que são lidos como animação pelo software. "Só para a boca temos 100 pontos", explicou.

Os supervisores de animação e de computação gráfica Robert Weaver (Avatar, Além da Escuridão - Star Trek), Tim Harrington (Círculo de Fogo, Os Vingadores) e Kevin Martel (Os Vingadores, Rango), celebraram a novidade. Para eles, nunca foi tão fácil manipular dados no cinema antes. "Podemos pegar a atuação no set de um dos atores em cena, continuar com o que ele fez em estúdio e usar os movimentos dele e do corpo de um segundo ator, um dublê especializado em artes marciais, e amplificar tudo isso através de animação, sem que o público sequer desconfie! E o melhor... enquanto fazemos isso preservam-se as melhores qualidades de cada intérprete, com seu tempo cômico intacto", disse Weaver.

A manipulação é necessária pois ator e criatura não dividem as mesmas características. "As tartarugas são pesadas, maiores e movem-se diferente. Nós temos que exagerar em como se mexem. Em como lutam. Quando tentamos usar a atuação pura, sem interferência animada, eles ficaram leves demais, irreais", explicou o supervisor.

O trabalho começou há quatro anos, com as primeiras conversas sobre um reinício no cinema para as Tartarugas Ninja. Na época, foram apresentados ao produtor Michael Bay designs bem mais agressivos, que eu pude ver na ILM. Eram versões muito mais realistas, algumas até com os bicos dos animais, bastante sombrias. "Se tivéssemos ido por essa linha teríamos errado feio! Também fizemos versões mais fofas, mais parecidas com os quadrinhos e TV, mas essas também não funcionaram", seguiu Helman. "A razão é que para que funcione a transferência da captura de atuação, os rostos do ator e da criatura precisam ter alguns pontos em comum. Bocas com lábios, por exemplo. E narizes. Do contrário, as emoções não são transmitidas em toda a sua gama de possibilidades". Para ilustrar, o veterano dos efeitos especiais exibiu um comparativo de 60 expressões de Alan Ritchson com as de seu personagem, Leonardo. O resultado é impressionante. Apesar de completamente diferentes um do outro, o ninja exibe com sutileza a personalidade do ator.

Uma divertida cena específica mostrou a versatilidade do sistema que a ILM criou para o filme. Nela, os quatro protagonistas aguardam dentro de um elevador. Michaelângelo começa a fazer um beat-box e, um a um, os demais acompanham, gerando uma pequena festa dentro da caixa metálica. Uma forma de extravazarem antes da luta à frente. "Acredite, ou não, mas essa cena foi 100% improvisada. Os quatro atores viviam brincando de rap nos intervalos e decidiram aprontar essa na cena do elevador. Ficou sensacional. E fizeram em um take só. Não tem nenhuma interferência nossa aqui! Só o sistema registrando o que eles fizeram", disse.

O Mestre Splinter, por sua vez, recebeu muito mais interferência dos animadores. "Queríamos que ele agisse e se movesse como um rato, especialmente no combate. Que usasse as paredes, que ficasse meio grotesco - com pouquíssimo traços humanos", explicou Helman. Da mesma maneira, o Destruidor, apesar de humano, ganhou um "empurrão" dos animadores para amplificar seu nível de ameaça e qualidade como combatente. "Dublês atuam para as câmeras, pra não se machucarem. Não há impacto. Com nosso sistema podemos pegar a qualidade dos movimentos deles e transformar em algo muito mais letal".

"De certa forma, estamos vivendo o sonho de George Lucas", concluiu Helman, referindo-se ao desejo antigo do cineasta de não depender tanto de atores e conseguir misturar as performances das pessoas em cena, copiando e colando tudo o que funcionou. O criador de Star Wars, porém, só nunca imaginou que, tantos anos depois de três profissionais viverem Darth Vader, ainda mais atores seriam necessários para dar vida a um único personagem.

Em termos de cenário, o trabalho é igualmente complexo. Todas as cenas de ação do filme foram desenvolvidas em cenários totalmente criados através de computação gráfica. "A avalanche na montanha, sozinha, consumiu oito pessoas trabalhando o dia inteiro durante quatro meses! Sem falar na reconstrução de Nova York, que foi digitalizada e povoada com carros e pessoas movidos por inteligência artificial para, enfim, podermos destruir uns pedaços dela", revelou Robert Weaver. "Nós já tínhamos um pedação da cidade recriado aqui para Os Vingadores, mas era outra vizinhaça... não ajuda em nada. Mas, afinal, quem quer um trabalho fácil, né? Nosso negócio é o de efeitos especiais e isso significa inovação o tempo todo", concluiu.

As Tartarugas Ninja estreia no Brasil no dia 14 de agosto.