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Star Wars - Aftermath | Livro traz pistas do que será O Despertar da Força

Nos meses depois dos eventos de O Retorno de Jedi começa a jornada pelo renascimento da franquia fundamental da nerdice

Érico Borgo
05.09.2015
12h25
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

Com a aquisição da Lucasfilm pela Disney, o império de Star Wars construído por George Lucas, antes comandado com cautelosa mão de ferro pelo seu criador, está prestes a explodir em uma nova onda de relevância que deve reverberar anos através da cultura pop.

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Nestes três meses que antecedem a estreia de Star Wars - O Despertar da Força, o estúdio alinha-se como o X-Wing de Luke Skywalker na trincheira da Estrela da Morte, preparando-se para disparar seus torpedos de prótons no exaustor térmico da indústria do entretenimento. Está tudo devidamente apontado e preparado, depois de anos de planejamento, faltando apenas o "grande tiro", aquele que precisa ser o "um em um milhão" e pode devolver a saga ao centro da atenção mundial, algo que foi roubado nos últimos anos por super-heróis e romances para jovens adultos.

Pois a Disney acaba de apertar o botão de disparo hoje, dia 3 de setembro de 2015, data em que oficialmente são revelados todos os produtos de merchandising ligados ao novo filme - que será o primeiro live action da saga desde A Vingança dos Sith, de 2005.

No rescaldo fumegante dos ávidos torpedos em curso, vemos fotos, artes para produtos com variações de poses de personagens e cenários, sinopses fragmentadas em publicações diversas e muitas pistas do que virá na nova trilogia e nos filmes derivados que se alternarão com esses episódios principais.

Dentre todos esses produtos, nenhum é mais importante que Star Wars - Aftermath, romance de Chuck Wendig que se passa imediatamente depois dos eventos retratados no cinema em O Retorno de Jedi. O livro integra o selo "Jornada ao Despertar da Força", que prepara os fãs com informações inéditas canônicas, criadas pelo força tarefa chamada Grupo de História, uma agremiação de roteiristas e autores que mapearam o novo universo Star Wars pós-George Lucas no cinema, televisão, literatura e games.

É notável como Star Wars - Aftermath dá aos fãs exatamente o que eles precisam saber, sem estragar surpresas que virão no cinema - o meio narrativo principal. A história começa nos meses seguintes à Batalha de Endor, em que Rebeldes e Império enfrentaram-se na superfície da lua florestal e em sua órbita.

Diferente do que seria óbvio - e explorado no antigo Universo Expandido -, aqui não seguimos a trindade Luke, Leia e Han Solo, mas personagens novos e alguns conhecidos dos fãs em papel secundário, como o Almirante Ackbar e o piloto Wedge Antilles. A galáxia está em frangalhos, com o poder do Império seriamente abalado, mas ainda mantido através de bases, ocupações e os últimos Moffs - os líderes da organização militarizada - em um desesperado concílio para definir sua estratégia de sobrevivência e reconquista. Enquanto isso, a Nova República dá seus primeiros passos e sai à caça desses poderosos comandantes e os últimos Star Destroyers, algo fundamental para o desbaratamento definitivo do moribundo, mas ainda perigoso, Império.

No centro do palco estão figuras que foram cruciais na guerra, mas até então desconhecidas, como a piloto do caça Asa-Y que acompanhou Lando Calrissian e a Millennium Falcon na destruição da segunda Estrela da Morte. Depois de Endor, Norra Wexley retorna ao seu planeta natal, Akiva, em busca do filho que deixou para trás ao aliar-se à resistência.

Esse novo planeta, Akiva, é o palco de Aftermath. É lá onde acontece o concílio das lideranças imperiais, atraindo o interesse de uma misteriosa caçadora de recompensas e um desertor do Império.

Wendig usa o cânone estabelecido dos filmes mergulhando, claro, mais na Trilogia Clássica, mas sem desmerecer os episódios I, II III. Um garoto gênio e seu droide de combate, Temmin e Sr. Ossos (um refugo das Guerras Clônicas), lembram bastante o Anakin Skywalker de A Ameaça Fantasma, por exemplo, mas de certa maneira o redimem. Por mais que muitos fãs - eu, inclusive - torçam o nariz para o Anakinzinho bombado a midi-chlorians, o autor usa essa memória da maneira mais afetiva possível (Episódio I já começa a parecer nostálgico, afinal), sugerindo como o Anakin criança poderia ter ficado realmente interessante caso tivesse sido bem escrito e representado. As qualidades do garoto, sua relação complicada com a mãe e as ligações que mantém com o mundo em conflito são muito melhores do que aquelas que Lucas criou.

Episódio I ainda é referenciado na caçadora de recompensas Zabrak, Jas Emari. Os esguios guerreiros repletos de chifres, afinal, são da mesma raça que Darth Maul, o melhor elemento de A Ameaça Fantasma ao lado de Qui-Gon Jin. Mais uma vez, é possível pegar-se pensando em como seria interessante se ele seguisse vivo no cinema (ainda que no desenho animado Clone Wars, que hoje é considerado cânone, ele tenha retornado).

O desertor imperial Sinjir Rath Velus é outro personagem que desperta interesse, por revelar o funcionamento da máquina criada por Palpatine e Darth Vader - os grandes rostos do Império e parte de sua propaganda. Dupla que, no turbilhão que cerca a galáxia, ninguém sabe ao certo se está viva ou realmente morta, como dizem os boatos - e uma certa holografia despejada aos milhares em mundos diversos buscando apoio para a Nova República.

Aftermath é apenas o início de uma nova trilogia que desvendará acontecimentos nos trinta anos entre O Retorno de Jedi e O Despertar da Força. Esse ótimo início dá um excelente panorama desse cenário, pulverizado também através de diversos capítulos auxiliares que introduzem (ou reintroduzem) inúmeros novos personagens, facções e itens que podem ou não aparecer no futuro e no filme. Um em especial parece ter grande importância na formação dos Cavaleiros de Ren, que antagonizarão a Resistência ao lado da Nova Ordem (as facções que veremos no Episódio VII), os Acólitos do Além, fanáticos religiosos pelos Sith que louvam a figura de Darth Vader...

Além do avanço na história, merece destaque também como o livro incorpora ao cânone mudanças sociais ocorridas no mundo desde 1977, quando o primeiro longa chegou aos cinemas.

Além do fato do livro ter três mulheres como protagonistas (a piloto, a caçadora de recompensas e uma imperial determinada), é em Aftermath também que conhecemos o primeiro homossexual canônico de Star Wars. Depois da Moff Mors, uma personagem do livro Star Wars: Lords of the Sith, a primeira representante LGBT da saga, aqui outro personagem discute sua homoafetividade - e o faz de maneira bastante digna e sem tabus.

Os novos personagens são bastante cativantes, mas o romance não se furta em citar questões de imediato interesse aos fãs. Como é vista a figura do último jedi, Luke Skywalker? Qual o papel de Leia Organa nessa nova realidade? Onde está Mon Mothma? Ainda que não dê respostas categóricas a estas perguntas, Aftermath sutilmente as contorna com informações. Nesse vazio, há muitos indícios e algumas certezas. Wendig conhece as respostas, mas não quer estragá-las.

Ao final, fica claro que o comitê criativo do grupo de história da Lucasfilm plantou inúmeras sementes para o futuro de Star Wars em Aftermath, que certamente serão emiuçadas pelos fãs em busca de pequenos vislumbres do que veremos a seguir. Na Jornada ao Despertar da Força, a "Galáxia Muito, Muito Distante" nunca pareceu tão próxima.