Carrie Fisher e o legado da General Leia Organa

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Carrie Fisher e o legado da General Leia Organa

A Ascensão Skywalker terá uma responsabilidade gigante de encerrar o arco da personagem

Julia Sabbaga
21.10.2019
14h48

Seria injusto limitar o legado de Carrie Fisher, que hoje completaria 63 anos, ao seu papel em Star Wars. A atriz, comediante, autora e consultora de roteiro tinha uma importância para além de Hollywood, tanto como ativista por causas de transtornos mentais, como exemplo de uma mulher que não foge de assuntos que até hoje são considerados tabu. Mesmo assim, com a aproximação do Episódio IX: A Ascensão Skywalker, é difícil não passar a data imaginando como a franquia se desdobrará para honrar uma atriz e uma personagem tão importantes para a cultura pop.

Em 1977, os créditos iniciais de Uma Nova Esperança não citavam Luke Skywalker, Han Solo, Chewbacca, Obi-Wan Kenobi e nem mesmo Darth Vader. A introdução do universo de Star Wars nomeava apenas uma personagem da Rebelião, a Princesa Leia, que fugia das forças imperiais a bordo de sua nave. Na primeira trilogia, Leia era desafiadora e completamente fora do padrão de donzelas em perigo. Sua primeira frase ao encontrar Luke define uma postura nada reservada: “Você não é baixinho demais para um Stormtrooper?”. A mesma acidez e personalidade se manteve por toda primeira trilogia, que teve em Leia a única personagem que vive seu arco inteiro na Rebelião, inspirando tanto Luke quanto Han a entrarem na luta. 

No Episódio VI, mesmo vestindo um biquíni dourado que se tornaria uma das maiores fantasias de uma geração, Leia seguia com uma força exemplar. Ela foi escravizada e sexualizada, mas na batalha é ela quem mata seu aprisionador com as correntes que a prendiam. Mais tarde, Fisher descreveria o momento como o seu favorito da personagem [via RS]: “gosto como ela mata Jabba, o Hutt. Este é o meu ato favorito dela”.

Em 2015, com o lançamento de uma nova trilogia, a franquia introduziu novas personagens femininas e buscou equilibrar os gêneros na população do universo de Star Wars, onde poucas mulheres além de Leia marcaram a tela. O movimento foi necessário, mas não para uma personagem que já estava anos à frente de sua época. Leia, na nova trilogia, apenas mudou de posição, de Princesa para General, e sua personalidade se manteve absolutamente a mesma. Revivendo a mesma personalidade briguenta e espirituosa, Leia retornou como a única dos três protagonistas que permaneceu na Resistência, enquanto Han retornou à uma vida de contrabando e Luke escolheu o exílio.

A trilogia atual deu um novo brilho a Leia, que caminhava para um protagonismo no Episódio IX após ter sentido a morte de Han Solo à distância no Episódio VII, e ter feito sua maior demonstração do uso da Força com uma cena icônica no Episódio VIII. Tudo apontava para um terceiro filme que pertenceria à personagem, fato que foi confirmado pela presidente da Lucasfilm, Kathleen Kennedy, que disse que o fechamento da trilogia focaria em Leia. Tudo teve que ser revisado após a precoce e inesperada morte de Carrie Fisher em 2016.

A identidade que Fisher deu à Leia tornou sua substituição impossível. Para os fãs que já tremeram de aflição quando a personagem apareceu como CGI em Rogue One: Uma História Star Wars, ver Leia interpretada por outra atriz seria um sacrilégio: “Simplesmente não havia como continuar sem ela”, explicou o diretor J. J. Abrams. Afinal, por mais que a atriz seja maior do que seu papel, Fisher resumiu a simbiose perfeitamente quando disse: “Eu sou a Princesa Leia e a Princesa Leia sou eu”.

Felizmente, o destino contribuiu para que houvesse um jeito de concluir a história de Leia. “Foi um estranho milagre ver que haviam algumas cenas não-utilizadas de O Despertar da Força e perceber que talvez houvesse uma forma de continuar a sua história com ela”, revelou Abrams, que atribuiu o milagre à própria atriz: “Sinto que há um elemento misterioso, espiritual, clássico da Carrie, que fez as coisas acontecerem desta maneira, porque de algum jeito, funcionou. E eu nunca pensei que funcionaria”.

Não importa como o Episódio IX concluirá a atual trilogia, o novo filme será inevitavelmente de Carrie Fisher. Os fãs que testemunharam toda a saga da Princesa e General e acompanharam os desafios da personagem encontrarão em cada frase de Fisher uma despedida de um dos papéis mais importantes do cinema. Se foi difícil conter as lágrimas com a última conversa entre Luke e Leia em Os Últimos Jedi, é de se esperar que cada fala de Leia no Episódio IX atinja mais fundo ainda. Relembrando o legado imortal de Leia e de Fisher, que perduram além de Star Wars, a frase de Luke ecoa como previsão e consolo: “Ninguém se vai totalmente”.