Pôster de Star Trek: Discovery

Créditos da imagem: CBS All Access/Divulgação

Séries e TV

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Star Trek | 3º ano de Discovery expõe “rolos” de distribuição fora dos EUA

Entenda como a franquia se tornou elemento de disputa na tal da guerra dos streamings

Salvador Nogueira
16.10.2020
11h00
Atualizada em
14.10.2020
12h35
Atualizada em 14.10.2020 às 12h35

A estreia mundial da terceira temporada de Star Trek: Discovery pela Netflix, nesta sexta-feira (um dia após sua exibição nos Estados Unidos e no Canadá), traz de volta o burburinho global em torno de uma das maiores sagas de ficção científica da televisão. Mas também ajuda a escancarar o misto de negociações tensas e confusões que marcam a exibição das novas séries de Star Trek pelo mundo afora. Onde elas estão (ou não)?

Nos Estados Unidos, o jogo é bem simples: todas as séries até agora produzidas desde 2017 foram para o serviço de streaming da CBS All Access, como forma de catapultá-lo de modo a ter alguma chance de competir com os grandões do filão.

Nesse pacote, já tivemos duas temporadas de Discovery, estrelada por Sonequa Martin-Green, duas de uma série de curtas chamada Short Treks, uma de Star Trek: Picard, que trouxe de volta Patrick Stewart ao papel que o consagrou, e uma da comédia de animação Lower Decks, criada por Mike McMahan, célebre por seu trabalho em Rick and Morty.

Hoje está claro que o chamado Star Trek Universe vai de vento em popa, capitaneado pelo produtor executivo Alex Kurtzman (o equivalente para Trek do que o Greg Berlanti é para o Arrowverse, para fazer uma comparação que faça sentido), e segue em franca expansão. Além das séries já lançadas, estão na fila para estreia Strange New Worlds, que trará as aventuras da Enterprise sob a tutela do capitão Christopher Pike (Anson Mount), sua misteriosa primeira oficial (Rebecca Romijn) e um jovem oficial de ciências chamado Spock (Ethan Peck), tudo isso anos antes que o capitão James T. Kirk assumisse o comando da famosa nave, e uma animação jovem em 3D dos irmãos Dan e Kevin Hageman (Trollhunters), chamada Prodigy, que trará de volta Kate Mulgrew (Orange is the New Black) como a capitão Kathryn Janeway, papel que encarnou entre 1995 e 2001 em Star Trek: Voyager. Como exceção à regra, esta série vai nos Estados Unidos para o canal Nickelodeon, já que seu objetivo principal é atrair jovens fãs para a saga (em vez de usar Star Trek como isca para levar mais assinantes ao CBS All Access).

Então conte aí: Discovery, Short Treks, Picard, Lower Decks, Strange New Worlds e Prodigy. Seis séries atualmente em produção, que já estrearam ou devem pintar nas telinhas entre 2021 e 2022. Mas essa é só uma fração do que Kurtzman tem cozinhado para a franquia em sua produtora Secret Hideout. Em entrevista recente ao Hollywood Reporter, ele comentou que apresentou um mapa à CBS que delineia o que deve vir por aí no Star Trek Universe até 2027. É isso aí, a boa e velha Jornada nas Estrelas está ganhando o tratamento "universo cinematográfico Marvel" – mas (por ora) apenas na televisão.

Isso tudo, é claro, custa um caminhão de dinheiro. E aí adentramos no forrobodó que é encontrar cada uma dessas séries fora dos EUA e do Canadá.

 

GARÇOM, A CONTA, POR FAVOR

Quando embarcou nessa jornada, no fim de 2015, a CBS tinha duas opções: ou atuava como um estúdio, produzindo séries de Star Trek para quem quisesse exibi-las, ou se projetava no mercado de streaming, assumindo a veiculação dos programas que produzisse. O velhaco Les Moonves, então CEO da CBS (antes de ser derrubado de lá após mais um escândalo ddo #MeToo), decidiu que a melhor coisa a fazer era ambas. Usaria a nova série, Discovery, para alavancar o nascente CBS All Access nos EUA, e ao mesmo tempo passaria a conta a uma parceira que assumisse a distribuição em escala global. E assim acabou que Discovery é da Netflix em 188 países, inclusive no Brasil.

A gigante do streaming mundial queria, literalmente, fazer de sua plataforma "a casa de Star Trek" (um slogan que eles cogitaram usar em peças promocionais). No gordo contrato assinado, a Netflix teria o catálogo inteiro das séries anteriores de Star Trek por vários anos, bem como várias temporadas pré-contratadas de Discovery (fala-se em quatro ou cinco, mas essa informação nunca foi divulgada oficialmente pelos executivos) e prioridade de aquisição sobre qualquer série derivada de Discovery que viesse a ser criada. Em troca, bancaria de forma praticamente integral o custo da série, recheada de grandes astros, como Sonequa Martin-Green (The Walking Dead), Doug Jones (A Forma da Água), Michelle Yeoh (O Tigre e o Dragão) e Jason Isaacs (Harry Potter).

Elenco de Star Trek: Discovery
CBS All Access/Divulgação

Parecia um casamento feliz: o CBS All Access excedeu todas as suas metas de novos assinantes, a Netflix mantinha em suas mãos um catálogo para lá de atraente para um percentual significativo de seus assinantes em grandes mercados, como Reino Unido e Alemanha, e o futuro sorria para ambos.

Até que surgiu um triângulo amoroso. Destacando as letras miúdas do contrato, os executivos da CBS apontaram que a Netflix teria direito de prioridade apenas para spin-offs de Discovery, mas não para séries que não tivessem vínculo com essa produção mais recente. E aí anunciaram Star Trek: Picard, em 2019, e fecharam um acordo similar com o Amazon Prime Video pelos direitos de exibição internacional da série. Ajudou que Jeff Bezos, o dono da Amazon, seja um fissurado por exploração espacial e em particular pelo capitão Picard. E assim a CBS achou mais um parceiro para pagar a conta de uma série de Star Trek.

A Netflix obviamente não ficou feliz. Segue amarrada ao contrato original, mas seu interesse pela franquia esfriou brutalmente desde então. Tratou a primeira temporada dos Short Treks como mero material de apoio de Discovery, e a segunda temporada nem tem sinal de desembarque próximo no serviço. O serviço de streaming nem mesmo veiculou o trailer da terceira temporada em seu canal no YouTube para o Reino Unido, um dos mercados mais fortes para Star Trek fora dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, nada de prévias para a mídia ou alguma prioridade de marketing. Não estranhe se a Netflix der o tratamento Defensores à franquia assim que o contrato original expirar.

Tome por termômetro o caso da série Lower Decks, animação que tinha toda a cara de Netflix, mas acabou sendo exibida nos EUA entre agosto e outubro deste ano sem pintar em qualquer lugar para os mercados internacionais.

O nível de incerteza seria de exasperar os fãs não fosse uma luz no fim do túnel. O CBS All Access anunciou que pretende se expandir para além dos EUA. Já tem um pezinho na Austrália e declarou planos para avançar por sobre a Europa e a América Latina (incluindo Brasil) no primeiro trimestre de 2021, numa versão vitaminada que vai mudar de nome: Paramount+. Por sinal, esse serviço já existe por aqui, mas ainda não é esse super-streaming que o conglomerado ViacomCBS está planejando para o ano que vem.

 

VAMOS VER COMO ESTÁ PARA VER COMO FICA

O resumo da ópera é: Discovery deve continuar com pelo menos mais uma ou duas temporadas na Netflix, Picard tende a seguir com o Amazon Prime Video, e o que a CBS não encontrar quem compre deve reforçar o catálogo internacional do Paramount+. Ainda não está claro se o estúdio vai usar novas séries de Star Trek como trunfo para essa expansão de forma prioritária (embora faça muito sentido) ou se vai seguir primeiro procurando parceiros a quem vendê-las como “originais” de um ou outro serviço.

Teoricamente, a Netflix deve ter prioridade de aquisição sobre Strange New Worlds, já que seus protagonistas apareceram primeiro em Discovery, bem como sobre uma aventada série baseada na misteriosa Seção 31, a ser protagonizada por Michelle Yeoh (essa ainda não recebeu sinal verde para produção, mas tem sala de roteirista montada e piloto escrito). Se algo mais sair de Discovery, a Netflix é a primeira a dizer se quer ou não quer.

O Amazon Prime Video tem Picard. E a CBS ainda precisa encontrar ou definir uma casa para todo o resto. Em seus primeiros anos, a estratégia adotada de “dividir (Star Trek) para conquistar” (parceiros que paguem a conta) deu certo. Para o futuro próximo, em compensação, ela talvez tenha azedado negociações de forma irremediável. Todo mundo sabe que o inverno está chegando – uma guerra dos streamings vem por aí – e nem todos sairão vencedores. Star Trek é a cartada mais forte que a ViacomCBS tem na mão. Mas ninguém sabe dizer se ela será suficiente a longo prazo.


Salvador Nogueira é jornalista de ciência e editor da Coleção Trek Brasilis, série de livros-reportagem que abordam os mais variados aspectos da saga de Star Trek.

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