10 coisas que faziam Stan Lee ser Stan Lee

Créditos da imagem: Gage Skidmore/Flickr/Divulgação

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10 coisas que faziam Stan Lee ser Stan Lee

Quadrinista faleceu hoje, dia 12, aos 95 anos

Érico Assis
12.11.2018
17h49

Ele nunca foi professor. Ele nunca fundou uma religião (não oficialmente, pelo menos). Ele teve apenas uma filha. Mas a quantidade de gente nesse planeta que Stan Lee influenciou, ensinou, formou, pegou pela mão e mostrou como é o mundo... com certeza passa do bilhão.

Você nem precisa ter lido exatamente uma HQ escrita por Lee - embora a gente recomende muito ler os clássicos. As histórias e personagens que ele criou - junto a vários colaboradores, como Jack KirbySteve Ditko -, sobretudo nos anos 1960, impregnaram o Universo Marvel e tudo que ali acontece desde então. Inclua aí os bilhões de quadrinhos que a Casa das Ideias já publicou e a pilha de filmes bilionários, que chegam a todo o planeta.

Lee sempre foi um excelente contador de histórias. Apesar de dominar técnicas dramáticas e ser exímio em criar personagens, não foi o primeiro a usar nenhum dos recursos abaixo. Mas é a combinação desses tiques que fez Stan Lee ser Stan Lee.

As aliterações alopradas

Marvel Comics/Reprodução

Peter Parker, Stephen Strange, Bruce Banner, Matt Murdock, Reed Richards. Stan Lee seguia a antiga regra dos escritores pop: se você quer que seu personagem seja marcante, comece por um nome fácil de lembrar. Repetir as iniciais era uma estratégia consagrada nas HQs - Superman tinha seu universo de Lex Luthor, Lois Lane e Lana Lang. Lee - que tinha um irmão chamado Larry Lieber - também abusava das aliterações quando escolhia títulos titânicos e adjetivos admissíveis para seus portentosos personagens. E você nunca se esquece de J. Jonah Jameson.

O mundo que você vê pela janela

Marvel Comics/Reprodução

Quando a Marvel reformulou sua linha de HQ, no início dos anos 1960, uma das ideias era que os leitores vissem os personagens no mundo real. Enquanto a Distinta Concorrência se afastava fantasiosamente do noticiário e até da geografia - com suas Metrópolis e Gotham City -, os heróis Marvel pulavam entre as caixas d'água de Nova York, citavam as celebridades do momento e sentiam os efeitos da Guerra Fria - como a corrida armamentista e as radições (gama, raios cósmicos, partículas Pym) que renderam poderes por aí. Os superpoderes podiam ser fantasia, mas o resto queria ficar próximo da sua vida.

Nenhum herói é perfeito

Marvel Comics/Reprodução

Se a ideia dominante do herói é o modelo de conduta, a figura inabalável, a pessoa que sempre faz o bem pensando nos outros antes de si, os heróis de Lee eram marcados por falhas, deficiências ou conflitos morais. Não eram só as origens de Homem de Ferro e Doutor Estranho que partiam de momentos de egoísmo, ou o Quarteto Fantástico que brigava como qualquer família - o mundo real de medo, preconceito, drogas e morte fazia Homem-Aranha, X-Men, Surfista Prateado e outros questionarem até se valia a pena ser herói.

Nenhum vilão nasce vilão

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Se os heróis tinham alguns tons de cinza, é lógico que os vilões também teriam. Dr. Destino e companhia não eram figuras obstinadas a atingir seus fins pelos meios que fossem, mas também homens que retinham alguma honra, que podiam se questionar. Embora as motivações malignas de um Loki fossem claras e definidas, as circunstâncias podiam fazer ele entrar em parafuso. E vale lembrar Feiticeira Escarlate e Mercúrio, que Lee criou para fazerem o arco de vilões a heróis. 

O otimismo sempre vence

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Mesmo que heróis e vilões não fossem 100% bonzinhos ou 100% malvados, quem vencia ainda eram os heróis. E a força para triunfar sobre vilões e adversidades - que às vezes eram literalmente raios de energia colorida pontuados por Kirby-bolhas - vinha da determinação, da confiança, do esforço para superar o que parecia insuperável. Lee e companhia tinham várias maneiras de representar o otimismo nos seus heróis - e na humanidade.

Excelsior!

Gage Skidmore/Flickr/Divulgação

O poço do otimismo, pelo jeito, era o próprio Stan Lee. Nas histórias de sua vida, nos textos que escreveu e em praticamente toda aparição pública desde que era jovem, Lee transbordava energia numa mistura de camelô falastrão, entrevistador de talk show e líder de torcida. Ele sintetiza a alegria, a grandiloquência e a disposição no seu grito de guerra "Excelsior!"

 

Um só universo

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Como editor, roteirista e, enfim, funcionário da Marvel Comics, Lee tinha uma meta bem clara: vender mais gibis. Um dos modos que encontrou para fazer um sucesso puxar outro foi interconectar o Universo Marvel: o Quarteto Fantástico encontrava o Homem-Aranha, que era citado nas histórias do Thor, que brigava com o Hulk, que encontrava o Demolidor e assim por diante. Tinha que ter um equilíbrio: o leitor não podia ser forçado a comprar a revista de cada herói, mas ficar ciente que, se comprasse, a recompensa seria divertida. Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios, segue exatamente esta cartilha.

 

Os fracos, os oprimidos e os incompreendidos

Marvel Comics/Reprodução

O humanismo de Stan Lee ficou famoso nas falas que ele dava ao Surfista Prateado - o alien que não entende como a raça humana se envolve em tantas guerras, deixa gente passar fome, cultiva os preconceitos etc. Mas várias histórias demonstram que ele sempre esteve do lado de quem passa por carência, de quem precisa de ajuda ou compreensão. Como você já sabe, os X-Men - que servem de metáfora para qualquer pessoa que é "diferente" - defendem um mundo que mesmo assim os teme e odeia. É para isso que servem os heróis.

Lembre de quem fez esses quadrinhos

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Você pode até dizer que a meta era autopromoção, mas uma das marcas de Stan Lee era destacar não só seu nome, e sim o de todos colegas que trabalhavam nos quadrinhos Marvel. Numa época em que os créditos nos gibis não eram regra, Lee pedia um espaço considerável para nomear desenhista, arte-finalista, letreirista, colorista, inventava apelidos aliterativos para cada um - Jack "King" Kirby, "Jazzy" John Romita, "Mirthful" Marie Severin - e contava causos (alguns fictícios) da redação, o Marvel Bullpen, nas páginas editoriais.

Com grandes poderes...

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A síntese do pensamento de Lee está na famosa frase deixada pelo Tio Ben: "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades." Ela não é válida só para super-heróis: na filosofia Lee, todos somos responsáveis por fazer o bem. Quanto maior nosso poder, porém, maior a responsabilidade de ser uma pessoa boa. Se você cumpre estas responsabilidades, independente dos (vários) percalços que vai encontrar pela frente, você é um herói. Se você não reconhece suas responsabilidades, você é um vilão. Lee poderia ter usado esses mandamentos para fundar uma igreja. Agradeça que ele usou para fazer quadrinhos.