“Golden retriever assassina”: Christina Ricci e as mulheres de Yellowjackets

Créditos da imagem: Christina Ricci como Misty em Yellowjackets (Reprodução)

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“Golden retriever assassina”: Christina Ricci e as mulheres de Yellowjackets

Elenco comemora personagens femininas complexas da série do Paramount+

Caio Coletti
11.11.2021
14h37

Christina Ricci não quer que você goste dela - ela só quer que você preste atenção. A ex-estrela mirim de A Família Addams é uma das protagonistas da série Yellowjackets na pele de Misty, parte de um grupo de meninas que sobreviveu a uma queda de avião nos anos 1990 e, mais de duas décadas depois, se vê às voltas com os segredos que guardam sobre os acontecimentos dos meses que passaram na selva esperando resgate.

Eu não gosto de interpretar personagens ‘gostáveis’”, comenta ela ao Omelete. “Sempre me defini como uma ‘golden retriever assassina’, porque sou muito pequena e pareço muito doce - mas não me toque, eu posso te matar! Então, amo interpretar personagens que têm uma qualidade parecida, [...] e odeio a pressão para fazer o público ‘gostar’ de mim. Sinto que, se é um bom pedaço de arte, o público pode decidir como se sente, e não vai se desengajar da história só porque um personagem ou outro não é ‘gostável’”.

Ricci usa outra comparação animal para definir Misty: um porco-espinho “adorável, mas que pode te machucar”. Na trama, que pula o tempo todo entre as experiências das garotas adolescentes logo após o acidente e as suas vidas adultas, ela é retratada como a outsider do grupo, uma jovem desesperada por afeição e rejeitada pela maioria das colegas, mas que se mostra valiosa na situação extrema enfrentada pelas personagens por seus conhecimentos improváveis de prontos-socorros e sobrevivência na selva.

Samantha Hanratty como a jovem Misty em Yellowjackets (Reprodução)

Eu sinto que o único propósito de Misty na vida é ser gostada. [...] Ela tenta, tenta e tenta, então quando o acidente acontece e ela ganha um pouco de relevância dentro do grupo, Misty acaba se tornando um pouco faminta por poder”, define Samantha Hanratty, que vive a versão adolescente da personagem. Para simular esse sentimento de isolamento, a atriz até ficou de fora dos eventos preparatórios aos quais o resto do elenco jovem compareceu, incluindo treinos de futebol - o grupo de meninas que sofre o acidente é na verdade parte do mesmo time escolar, e Misty é uma espécie de “ajudante” do técnico. 

Ricci acrescenta que, com a pressão adicional de ter passado “20 anos lidando com essa rejeição, e com a forma como a sociedade trata mulheres sem valor social”, Misty se torna uma adulta manipuladora e passivo-agressiva. “Ela usa o que é percebido como fraqueza para o seu benefício. Você não vê isso na versão mais jovem dela, porque é algo que vem da experiência”, diz.

Ninguém é o que parece

O restante do elenco estrelado de Yellowjackets exalta a mesmíssima qualidade da criação de Ashley Lyle e Bart Nickerson. “O que conectou comigo quando li o roteiro foi o quão bem desenhadas todas as personagens eram. Elas pareciam pessoas de verdade, sem estereótipos”, define Melanie Lynskey, que vive Shauna, a mais superficialmente “equilibrada” do grupo de protagonistas adultas - mas, por baixo de sua vida doméstica relativamente bem resolvida, ela também esconde uma corrente sombria.

Como mulher, foi interessante ler sobre esse grupo de personagens femininas tão específicas e interessantes”, continua a atriz de Two and a Half Men e Castle Rock. “Eu, particularmente, acho que elas são ‘gostáveis’ sim, que são fascinantes de se assistir. Mas entendo que não são personagens ‘fofas’, não são palatáveis para todos os públicos”.

Melanie Lynskey como Shauna em Yellowjackets (Reprodução)

Lynskey pinta um retrato reprimido de sua Shauna, definindo-a como “alguém que estava acostumada a guardar segredos antes mesmo do acidente”. “Depois desses eventos traumáticos, ela volta para casa e não processa nada do que aconteceu, porque não sabe como fazer isso. Ela só sabe guardar tudo dentro dela, e seguir com sua vida, mas continua carregando muita culpa”, comenta.

Daí os problemas dela no casamento com Jeff (Warren Kole), incluindo o esfriamento da vida sexual do casal e a suspeita de que ele tem uma amante. “Ele serve como uma boa reflexão da vida de Shauna quando a conhecemos como adulta. Jeff representa expectativas não cumpridas, decepções, resignação a uma espécie de mediocridade”, enumera Kole.

Juliette Lewis como Natalie em Yellowjackets (Reprodução)

Segredos também definem Natalie, interpretada pela indefectível Juliette Lewis. A atriz indicada ao Oscar por Cabo do Medo descreve a personagem, vista como a rebelde do grupo desde a juventude, como “alguém que finge ser uma coisa quando você a conhece, mas é outra”. Natalie está em um caminho difícil de autodestruição e vingança. [...] Ela já tinha algo de trágico em seu passado antes do acidente, então carregava este vazio dentro dela, que acabou sendo preenchido por tudo de ruim que aconteceu na selva”, diz.

A peça final do quarteto principal é Taissa (Tawny Cypress), que passou os 20 anos após o acidente construindo carreira política e, quando a conhecemos, está no meio de uma campanha para o senado americano. Cypress, que já esteve em séries como Heroes, The Blacklist e Supergirl, também entende sua experiência em Yellowjackets como totalmente diferente de outras que teve na carreira.

Eu fiz uma série um tempo atrás, e minha personagem não era uma mulher ‘gostável’. Adorei interpretá-la, mas um dia um colega de elenco me chamou de lado e disse: ‘Você deveria fazer dela alguém mais fácil’”, lembra. “Como eu era muito nova na indústria, fiquei pensando: ‘Será que eu devo fazer isso mesmo, subestimar o público?’. Eu amo que Yellowjackets é o contrário disso. Eles nos disseram para sermos o mais loucas possível”. 

Tawny Cypress como Taissa em Yellowjackets (Reprodução)

Outra parte importante de Taissa é sua sexualidade: no presente, conhecemos a esposa e o filho da candidata a senadora, que se veem também envolvidos no mistério central da trama; no passado, a jovem Taissa ensaia um romance com uma colega de time. A atriz Jasmin Savoy Brown, que vive a personagem quando adolescente, se identifica como queer e ajudou a moldar a história contada pela série.

Desde a primeira versão do roteiro, Taissa já seria lésbica”, conta. “Não precisei trazer isso para a mesa, mas tivemos muitas conversas sobre representatividade durante a temporada. Eu trouxe sugestões de como algumas cenas poderiam ser melhoradas, como elas poderiam refletir melhor a comunidade, e a equipe da série foi muito receptiva, nunca tivemos desconfortos por isso”.

Amizade feminina sem demagogia

O elenco jovem de Yellowjackets (Reprodução)

Juliette Lewis define como “cafonas” as dinâmicas entre mulheres que são reproduzidas constantemente por Hollywood, dizendo que “anseia por ver algo diferente” das brigas de ego e rivalidades desenhadas por essas narrativas. “As mulheres [de Yellowjackets] são enraizadas em uma história de sobrevivência compartilhada, mas antes disso eram atletas, faziam parte de um time juntas. [...] Quando nós interagimos umas com as outras, adultas, a nossa relação é cheia de tensão, mas há também uma afinidade surpreendente”, diz.

A palavra-chave, portanto, é “aprofundar”, mergulhar nas ambiguidades trazidas pelas relações fortes entre essas mulheres. Ella Purnell (Army of the Dead), que vive a popular Jackie na narrativa dos anos 1990 - uma personagem que, misteriosamente, não vemos no presente -, trouxe uma experiência pessoal para a construção de sua dinâmica com a melhor amiga Shauna (Sophie Nélisse, de A Menina que Roubava Livros, na versão jovem).

Amizades femininas, especialmente na adolescência… é claro que elas são complicadas. Eu estudei em uma escola só de meninas por cinco anos, e testemunhei todo tipo de dinâmica possível nesse tempo”, conta. “O que é importante lembrar é que Shauna e Jackie são melhores amigas desde a infância, então é claro que a relação está mudando o tempo todo, e isso não está no controle de nenhuma delas, necessariamente”.

Ella Purnell e Sophie Nélisse como Jackie e Shauna em Yellowjackets (Reprodução)

Nelisse é mais direta ao descrever a dinâmica das duas: “Acho que todo mundo já passou por isso. Você envelhece, encontra sua voz, sua personalidade, e há alguns relacionamentos que você precisa perder no processo. É difícil, porque quando você tem uma amizade tão longa, a outra pessoa se torna parte da sua vida, te conhece melhor do que qualquer um. Não há um jeito certo de lidar com isso, mesmo sem contar as circunstâncias extremas em que Jackie e Shauna são colocadas”.

No fim das contas, Yellowjacket conta duas histórias diferentes de sobrevivência, como observa Warren Kole. “Este é um conto sobre trauma - muitos de nós encaramos traumas na infância e na adolescência, e a série quer mostrar como carregamos isso conosco para a vida adulta”, aponta. “Eu gosto da parte doméstica do meu lado da trama, mas o meu personagem também está em uma situação de sobrevivência. Reconectar-se com sua esposa, manter sua família unida, compartilhar segredos e culpa com as pessoas que ama - isso também é uma questão de vida ou morte”.

Sophie Thatcher, que interpreta a jovem Natalie, coloca esse sentimento em palavras ainda mais instigantes: “Essa história consegue mostrar, de forma muito bonita e habilidosa, como o passado persegue as pessoas. Acho que é isso que separa a nossa série de outras desse estilo. Começamos a história no pico do trauma, e depois mostramos como esse trauma nunca vai te deixar completamente, não importa o quanto você trabalhe em si mesmo”.

Yellowjackets estreia o seu primeiro episódio no próximo dia 15 de novembro no serviço de streaming Paramount+, seguindo depois com capítulos semanais às segundas-feiras.

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